The Asymptotical World EP
2021 • ALTERNATIVO • WARP
POR SIMÃO CHAMBEL; 3 de AGOSTO de 2021
8.1

O lançamento surpresa do novo EP de Yves Tumor trouxe consigo outros imprevistos – depois de dois discos bem assentes na tradição da neo-psicodelia, Sean Bowie decide levar o género ao seu limite, infiltrando-o no plano do rock experimental e, em certos momentos, aproximando-o do shoegaze. A entrada explosiva em “Jackie” assinala prontamente a diferença entre este e os seus antigos projetos. O abstracionismo de Safe In The Hands of Love parece dar lugar à crua concretude de The Asymptotical World. Com o seu novo disco, Yves Tumor prova ser artista que sabe quando e como inovar. As faixas surgem como uma lufada de ar fresco inesperada. A intensidade da instrumentação e da voz de Yves carrega consigo honestidade e aparece-nos como um desabafar brusco e ousado. O intenso som distorcido de guitarras sobrepostas e de batidas abafadas criam a textura áspera característica do panorama alternativo do início dos anos 2000, desta vez transportado para a desordem da atualidade.

O single “Jackie” abre com um poderoso riff que recheia uma melodia extasiante complementada por uma performance vocal deslumbrante de Yves. A faixa serve como a ponte entre os projetos antigos e o EP – melódica e frenética, prova a sua pertinência ao ocupar o primeiro lugar da tracklist. Em Heaven To a Tortured Mind, o anterior lançamento de Yves Tumor, certas faixas como “Romanticist” já pareciam sugerir o salto que “Jackie” acaba por dar completamente – as guitarras criam distorções arrepiantes, conservando mesmo assim a sua essência melódica. Por este caminho segue também “Crushed Velvet”, com uma intensidade ainda maior que a da anterior, a distorção evolui para o ruído, evocando as primeiras pistas dos limites que o projeto pretende explorar.

“Secrecy Is Incredibly Important to the Both of Them”, um indiscutível destaque do projeto, segue o mesmo modelo das faixas anteriores. Rentes aos vocais monotónicos de Yves, as guitarras parecem criar uma tensão desconcertante que começa por crescer lentamente, a qual é aliviada por uma bridge, apenas para ser depois retomada – a sua resolução não virá até à faixa seguinte, “Tuck”, um perfeito ensaio de música industrial. Contando com a participação de Agnes Gryczkowska (NAKED), as guitarras são levadas ao seu limite e a distorção atinge o seu clímax. O ambiente criado é massivo, sombrio e mesmo perturbador, com a performance da artista fazendo lembrar uma Grimes que completamente abraça o industrial. A faixa seguinte, “…And Loyalty Is a Nuisance Child” volta a endireitar o projeto na sua linha do rock alternativo, com a componente do shoegaze a atingir o seu auge numa fascinante demonstração de produção e performance. Hipnotizante e tentadora, a faixa imerge o ouvinte no mundo assintótico que encena.

O EP termina com “Katrina”, um levantamento do melhor do disco e do génio de Yves Tumor. As distorções de causar arrepios e a repetição exaustiva das linhas veiculam a deformidade e a anomalia que acompanham a arte de Sean Bowie, sempre indissociáveis da sua identidade como artista e como pessoa. The Asymptotical World é, como o próprio nome indica, um crescendo para o infinito, uma explosão de som que parece não encontrar quaisquer limites. Yves Tumor arrisca e prova mais uma vez o seu engenho, consolidando o seu nome como imprescindível entre artistas que confrontam os limites da experimentação.