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Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)

2023 •

WARP

8.8
Praise A Lord Who… é o trabalho mais completo de Yves Tumor: um registro popular que também não se limita, brincando entre ousadia e acessibilidade.
Yves Tumor - Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)

Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)

2023 •

WARP

8.8
Praise A Lord Who… é o trabalho mais completo de Yves Tumor: um registro popular que também não se limita, brincando entre ousadia e acessibilidade.
13/04/2023

Na canção de abertura do seu quinto disco, o cantor nascido Sean Bowie exclama: “Sometimes, it feels like there’s places in my mind that I can’t go”. Essa é a primeira coisa que ouvimos de Yves Tumor desde 2021, quando seu segundo EP, The Asymptotical World, foi lançado. Embora o cantor norte-americano tenha uma carreira consolidada no meio alternativo e experimental desde 2015, quando fez sua estreia, totalizando oito anos, Yves entende que não importa quantas análises sejam feitas em cima do seu eu interior, sempre haverá material para ser extraído quando o assunto é olhar para si mesmo. Por mais que nos últimos anos ele tenha tentado entender como o mundo ao seu redor se autorregulava, nesse último trabalho, ele procura entender sua própria essência e substância. 

Com seu longo título, Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply: Hot Between Worlds) está longe de ser o disco menos acessível de Yves Tumor. Pelo contrário, esse é seu projeto mais popular até hoje. Fortemente inspirado pelo pop e rock — e suas fusões com eletrônico — dos anos 1990 e 2000, Praise A Lord Who… debruça-se em construir faixas que consigam ser afamadas e insignes — grande parte delas se mantém dentro da marca dos três minutos de duração —, ao passo que dão continuidade ao processo inventivo de Bowie, não sendo uma limitação em momento algum. Nesse sentido, se Safe in the Hands of Love (2018) olhava para uma ternura sombria e Heaven to a Tortured Mind (2020) foi uma experiência teatral de sensualidade, Praise A Lord Who… é uma transcendência estilística para seu próprio ideal do eu, uma junção orquestral de todos os seus talentos. 

Por um lado, algumas dessas faixas, pelo menos em primeira instância, são as músicas mais módicas e descomplicadas que Sean se prestou a fazer. Enquanto nos outros discos do cantor, havia uma maior demanda de quem ouvia para compreender o viés figurativo dos sons e das líricas, aqui tudo parece um pouco mais simples. “Lovely Sewer”, com vocais adicionais de Kida, é um dueto homogêneo e soa como um arquétipo de música pop atemporal: sintetizadores minimamente oitentistas, vocais com reverb e uma lírica bem dosada entre sensualidade desguarnecida e consciência. “Echolalia”, por sua vez, também segue esses padrões, mas dessa vez com ensinamentos de Michael Jackson: Tumor usa sua voz muito além do que apenas uma forma de verbalizar seus pensamentos, mas também como catalisar o ritmo e progressão da música. Seu maior triunfo nesses instantes, todavia, é tornar tudo atemporal. 

Por outra lente, essas canções, escavando um pouco mais, não se limitam em canções pop simplistas com toques de sonoridades incomuns, mas também conseguem carregar significâncias por debaixo dos lençóis. Em “God Is a Circle”, o diário atmosférico de autoanálise de Yves, um grito abre a canção enquanto uma respiração ofegante conduz o ritmo ao lado de uma guitarra psicodélica. Nessa, sua composição é cirúrgica, mas se torna ainda mais abstrata — e, em simultâneo, mais identificável — em “Heaven Surrounds Us Like a Hood”, em que um casal apaixonada se quebra quando perdem noção dos próprios limites: “I met a boy with no head, told me his secrets / I looked into his eyes, you know he was so pure at heart / For a moment we became each other”. Isso posto, um dos maiores feitos de Praise A Lord Who… é sua habilidade orgânica de funcionar em ambas as frentes.

Por último, ainda que Tumor sempre tenha usado do seu conhecimento para fazer suas músicas mais interessantes, nesse álbum, em específico, ele mostra um uso mais forte da sua bagagem. Como citado, o rock e pop da virada do milênio foram o grande direcionamento do disco, mas há uma riqueza nos detalhes que demonstram um arsenal ainda maior. “Meteora Blues”, por exemplo, é uma amálgama dos principais elementos do grunge — principalmente as cordas e a composição — com o shoegaze  — pela maneira pela qual a voz de Sean é apresentada. “Parody”, por sua vez, é ainda mais ousada, mesclando o glam rock com psicodélico, enquanto dá pinceladas de shoegaze e composição remanescente de David Bowie (“Send your face and name on a postcard / A parody of a pop star / You behaved like a monster”). Além de David Bowie, Prince também surge como uma manifestação, na canção “Operator”, que mais parece uma peça clássica do cantor vinda direto dos anos 1980. Todavia, o sentimento final é transmitido por “Purified By the Fire”, uma canção que você raramente entende o que está acontecendo, mas consegue senti-la… e é isso que importa. 

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