Yelling 2 U
2021 • EXPERIMENTAL • INDEPENDENTE
POR MATHEUS JOSÉ; 25 de NOVEMBRO de 2021
8.0

Explorar as camadas da música eletrônica nunca parece ser uma tarefa fácil. Agora, imagina fazer isso indo além de qualquer perspectiva superficial e expressões simuladas, as quais, geralmente, encontramos em discos com essa proposta? Pois é exatamente isso que o Yell consegue fazer em sua nova mixtape: ir além. Mas antes de tudo, é necessário fazer um recorte sobre as condições em que esse projeto se desenvolveu. Yelling 2 U é o resultado primoroso da percepção artística de um autor independente, em que as suas bases estão fincadas na proposta sóbria de se fazer música com aquilo que há de melhor: os sentimentos.

E quando envolve sentimentos, não precisa de absolutamente mais nada. Desse modo, Yell consegue a proeza de causar sensações e emoções sem nem mesmo usar as palavras como principal recurso lírico. Aqui, a atmosfera desenvolvida logo na primeira faixa já é o suficiente para nos guiar rumo a uma viagem sensitiva e extremamente tocante. A principal motivação de ouvir Yelling 2 U é buscar saber como e qual o real motivo por trás de suas melodias e arranjos estridentes. Ao ter essa dúvida, fica fácil compreender que “Globalization”, “Altaria”, “%%%%%” e “Rewind Fully Formed” são partes únicas de uma história contada através da euforia presente nos melhores momentos.

Dentre essas canções, “Altaria” é a que mais chama atenção. Nela, é possível encontrar a presença de vocais, mesmo que bastante contidos, pois embora exista, em nenhum momento esse atributo acaba tirando a importância do instrumental perfeitamente delineado em batidas secas e variações que acontecem o tempo todo, principalmente no final marcado por distorções. Ainda sobre os destaques, “Rewind Fully Formed”, se mostra a melhor e mais bem executada faixa em todo disco. Nesta música, é onde encontramos a presença do hyperpop como ponto de fusão e ordenação dos sentidos explorados pelo artista, que trabalha os vocais de maneira excelente, dando um tom acessível e extremamente viciante ao que se pode esperar. “Ragnarök”, por sua vez, parece condicionar toda energia ambientada ao longo do disco, assim fazendo render toda catarse desenvolvida por Yell e sua genialidade intrínseca.

E apesar de ser uma completa surpresa positiva, Yelling 2 U tem, obviamente, assim como qualquer disco produzido sobre uma perspectiva arriscada, certos erros. Ao trabalhar com o instrumental, é necessário sempre estar atento no desenvolvimento que cada canção terá no conjunto da obra, por isso é preciso pontuar que em alguns casos, a faixa acaba soando como uma introdução estendida por não apresentar variação alguma. Mas isso está longe de tirar a qualidade conquistada ao longo do processo, que, por sinal, é notoriamente bem sucedido em todos os sentidos possíveis.

No geral, apesar das limitações de um artista independente, Yelling 2 U é um verdadeiro exercício criativo no qual podemos encontrar riqueza nos detalhes e coragem na sua formulação, uma vez que deve ser extremamente difícil produzir e lançar algo dentro das suas expectativas nas quais nem sempre vão ser similar a do ouvinte. Por isso, Yell merece ser reconhecido e ouvido. Sua mixtape se expande para além das barreiras impostas a ele, que sem receio algum, nos entregou catarse em forma de música.