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Em Nome da Estrela

2022 •

Xenia França

9.2
Em Nome da Estrela é uma contraposição solar, existencialista e brilhante da expressão artística de Xênia França, que permanece ancestral e lindamente grandiosa.
Xênia França - Em Nome da Estrela​

Em Nome da Estrela

2022 •

Xenia França

9.2
Em Nome da Estrela é uma contraposição solar, existencialista e brilhante da expressão artística de Xênia França, que permanece ancestral e lindamente grandiosa.
02/12/2022

Existem elementos na carreira musical de qualquer artista que são desafiadores e carregados de complexidade, e um deles é o segundo álbum. Produzir a sequência de seu primeiro grande trabalho, procurando novos significados e conduzir perspectivas ainda não exploradas dentro do seu universo artístico é algo que demanda esforço e que, muitas vezes, assusta. Xênia França foi alertada por seus pares e viveu esse turbilhão de sentimentos de maneira avassaladora. A cantora construiu uma trajetória consistente com o grupo Aláfia e, em 2017, realizou o sonho de lançar seu primeiro álbum de estúdio em carreira solo, o autointitulado Xenia. Chamando atenção em diversas esferas do público e da indústria fonográfica nacional e internacional, cinco anos, a pandemia de Covid-19 e os projetos “As Ayabass” e “Acorda Amor” separam esse marco com o momento atual de sua jornada artística.

Num processo nada linear, que atravessou diversos desertos criativos e momentos delicados da artista, Xênia estava decidida a mergulhar em águas profundas sobre o seu próprio ser. Assim nasce (e renasce) Em Nome da Estrela, um projeto robusto, iluminado e que, em cada aspecto, é processo e resultado da ancestralidade da cantora. Como conta na entrevista concedida ao podcast “Vamos Falar Sobre Música?”, a capa do disco captura todo o seu DNA, que pode ser resumido em uma palavra: luz. Suas mãos estão cobertas de ouro, e tudo o que ela tocar também irá se transformar nesse metal brilhante. Contrastando inteiramente com o seu álbum anterior, aqui ela está completamente iluminada, solar, transformando a sua espiritualidade, suas referências musicais e culturais e sua existência e bagagem de vida em uma obra esplendorosa sem rodar em clichês ou redundâncias.

Nos primeiros segundos do disco, somos transportados a um mundo mágico, fresco e aconchegante, recepcionados por uma harpa doce e os vocais delicados da artista. “Renascer” é a escolha precisa de abertura, já que trata um panorama nítido da obra em termos narrativos e de significação. Xênia Érica Estrela França agora está em sua completude, completamente vulnerável, sincera e reflexiva, como sintetiza no refrão: “E deixar curar / Me encontrar no fundo da alma / Quiçá, feliz”. A faixa, que foi composta unicamente por França no chão do seu quarto após uma vivência espiritual no terreiro, também revela e pincela a natureza abstrata e existencialista do álbum, que é ricamente explorada ao longo das doze faixas que compõem o corpo de trabalho.

A produção do Em Nome da Estrela é complexamente construída em diversas camadas, unindo percussão, instrumentos de corda e sintetizadores  com uma polidez absurda. Tudo nos eleva a uma ambiência sublime e espiritual, nos fazendo flutuar e se fascinar com o resultado do melhor que a diáspora negra e sua excelência oferecem. “Interestelar” é a norteadora definitiva dessa experiência refinada, enquanto “Ancestral Infinito” direciona com fluidez que passado e futuro se entrelaçam e se comunicam a todo momento. A confluência desses diferentes marcos temporais da trajetória é a principal função dos interlúdios bem posicionados durante a audição, que resgatam trechos de cantigas e entrevistas com o intuito de ressignificar e trazer para o momento presente. As parcerias de Arthur Verocai e Rico Dalasam nas excelentes “Ânimus x Anima” e “Já é”, respectivamente, demonstram o diálogo que a artista faz com as identidades das outras pessoas envolvidas no projeto sem soar deslocado ou menos detentor de sua própria personalidade. Esse ponto se esclarece de vez com as regravações de “Futurível”, de Gilberto Gil, e “Magia”, de Djavan, dois tesouros quase perdidos da clássica MPB. Elas se tornaram da própria Xênia, que entendeu a tarefa difícil e engrandeceu as duas músicas através de sua interpretação e releitura em escalas quase impossíveis de mensurar.

Etéreo e contemplativo, Xênia França retorna com um trabalho que se explode em grandeza no título, na estética visual, na narrativa e, principalmente, na sua expressão artística. Ela transpassa-se em redescoberta, em autoconhecimento e constrói a autoestima necessária para reiterar o que realmente é: uma das maiores cantoras da atualidade no Brasil, dona de uma carreira consolidada, visão e talentos excepcionais e que, mesmo assim, está em constante busca de se aprimorar e de dialogar com o seu canal mais valioso, a música. E o melhor disso é que, no meio do caminho, somos agraciados com clássicos instantâneos que transbordam ancestralidade e axé — e não há maneira melhor de definir esse disco.

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