Blue Weekend
2021 • ROCK/ALTERNATIVO • DIRTY HIT
POR LEONARDO FREDERICO; 07 de JUNHO de 2021
9.0
MELHOR LANÇAMENTO

Quando Wolf Alice começou a trabalhar em seu terceiro álbum, Blue Weekend, eles lutaram para ter ideias. O grupo tinha acabado de terminar a turnê de seu segundo álbum, Visions of a Life, de 2017, e percebeu que não tinha nenhuma música escrita. “‎Não tínhamos um filtro em nenhuma ideia. Qualquer ideia era uma boa ideia naquele momento. E nós fizemos tudo realmente por acaso, mas era apenas sobre fazê-lo funcionar novamente, ter um lugar conveniente, entrar nessa atmosfera,”, disse o baixista Theo Ellis no anúncio do álbum. Mas, mesmo assim, com seu surgimento em meio ao caos criativo, o último lançamento da banda de rock alternativo de Londres é grandioso, apaixonante, alucinante e ousado. 

De acordo com a vocalista Ellie Rowsell, Blue Weekend “é para outras pessoas”. Ela disse à NME que, quando começou a escrever as músicas para o álbum, ela estava pensando em “quais músicas eu posso ouvir que serão sobre o que estou sentindo agora”. “Às vezes você ouve uma música, e isso faz você se sentir melhor, ou ouve uma música e se sente vista”, completou ela. E o álbum é basicamente isso: uma amálgama homogênea de canções que podem ser tidas tanto como um espelho da alma dos membros da banda, quanto um abraço caloroso de quem escuta o disco. Com uma composição nítida e monumental, ao lado de um som sublime, atemporal e grandioso, Blue Weekend aparece não apenas como o álbum mais forte da banda, mas como um dos melhores do ano.

Um dos pontos mais fortes de Blue Weekend é sua produção espetacular. Embora o registro não pareça ter uma grande diversidade de instrumentos, isso mostra que eles sabem lidar muito bem com o que possuem. De momentos voltados para o lado acústico e calmos a gritos efervescentes, o disco, em todas as suas facetas, entrega algo memorável e acrônico. Em alguns instantes, você pode ver Ellie e o resto da banda em uma praia nublada, ou mesmo dentro de uma caverna grandiosa, cheia de ecos, ou de uma cabana no meio de uma floresta cinzenta. O mais incrível dessa diversidade que vem da simplicidade é como todas as faixas, apesar de possuírem algumas direções sonoras divergentes, conversam muito bem entre si, criando um disco muito coeso, fluido e cativante. Veja, por exemplo, a transição entre “Smile” e “Safe from Heartbreak (if you never fall in love)”, que são claramente diferentes, mas por alguma razão, apresentam uma transição natural.

Por outro lado, a composição do álbum também é elevada. A abertura, “The Beach”, por exemplo, traz um poema com Ellie confessando seus medos a seus entes queridos. “When will we meet eye to eye? / Are we still friends if I feel afraid?”, ela canta. Mas, muito mais do que entregar letras aprazíveis, a canção também oferece um instrumental notável, marcado por construções constantes de tensão e quebras de clímax. Posteriormente, “Lipstick on the Glass” também vem com outro ponto forte, principalmente por causa de seu refrão, que coloca Ellie em uma posição de passividade  com seu parceiro infiel . Ela recita no refrão: “I take you back / Yeah, I know it seems surprising when there’s lipstick still on the glass / And the full moon rising, but it’s me who makes myself mad / I take you”. Ela parece perdida e leva o ouvinte consigo . 

Além disso, em algumas faixas, esses dois fatores, que colidem muito bem ao longo do álbum, conseguem criar uma sensação de catarse ainda mais potente. “Delicious Things”, por exemplo, soa como um hino romântico atemporal, mas, na verdade, é uma música sobre uma pessoa que se encontra no deleite de sua vida e parece não saber que direção tomar. “Could I belong here? The vibes are kinda strong here”, ela canta. Mas a cereja do bolo vem no gancho, quando os sintetizadores levam sua voz melódica a um nível transcendente. No final, ela confessa: “Feel like I’m falling, dreams slowly stalling”. Depois, “Safe from Heartbreak (if you never fall in love)” sai com algo mais suave, quase rústico e caseiro, com a vocalista associando a ideia de que ela não terá um coração partido e não sofrerá se desistir de se apaixonar, e “How Can I Make It OK?” é o ponto que representa a ideia inicial de Ellie para o álbum, mostrando-a em uma conversa com alguém que está ferido. Ela canta preocupada, sentindo-se incapaz de ajudar alguém que ama: “So how can I make it okay? / I just want you to be happy”. A dor dela é facilmente sentida aqui.

Também, é interessante analisar como o álbum atua no empoderamento do vocalista do álbum das formas mais diferentes e inesperadas. “Smile” é uma das melhores faixas do disco. Comparado com o resto do álbum, é muito mais violenta e inquieta, apresentando corda alucinante. Nessa, Ellie reúne fragmentos de frases genéricas que são usadas para ofender as mulheres na vida cotidiana, cria uma caligrafia quase perfeita e rosna cada palavra para seus agressores em um grito feminista. Ela canta: “Don’t call me mad / There’s a difference, I am angry / And your choice to call me cute has offended me / I have power, there are people who depend on me”. No entanto, mais tarde, eles vão ainda mais fundo em suas reflexões na faixa “Feeling Myself”, na qual Ellie trabalha sobre como seu ex-companheiro não poderia satisfazê-la sexualmente devido a uma simples incapacidade dos homens heterossexuais. No final, ela descobre que o prazer próprio é o melhor. Enquanto ela canta “Now I’m really feeling myself”, no refrão, as cordas e os sintetizadores atingem um nível espiritual, que pode ser uma representação do orgasmo sentido na masturbação. 

Mas, a melhor faixa do álbum é “The Last Man on Earth”, uma faixa que simplesmente deixa você sem palavras. Ela começa com alguns samples que parecem sair de uma canção infantil. A voz de Ellie fica calma o tempo todo, ao anunciar sua indignação que pode ser confundida com alívio e tristeza: “Who were you to ask for anything more? / Do you wait for your dancing lessons to be felt from God”. Com o tempo, a faixa cresce suavemente, tornando-se cada vez mais poderosa, refinada, bem produzida e bem escrita, atingindo um nível homérico. Mas o melhor é a letra, principalmente do refrão, em que  ela canta: 

And every book you take

And you dust off from the shelf

Has lines between lines between lines

That you read about yourself

But does a light shine on you?

And when your friends are talking

You hardly hear a word

You were the first person here

And the last man on the Earth

But does a light shine on you?

Por último, embora a faixa “Play the Greatest Hits” seja realmente boa, é o ponto fora da curva do disco e é relativamente desnecessário aqui. Ela é influenciada pelo pop-rock japonês dos anos 2000 e, por mais que não seja necessariamente ruim, não consegue se conectar com o resto do álbum. Mas isso não atrapalha em nada. Na reta final, Blue Weekend traz faixas intensas que te deixam energizado, mas também parecem prepará-lo para algo melhor no futuro. Em “No Hard Feelings”, ela canta, “But there’s only so much sulking / That the heart can entertain / No hard feelings, honey / Next time you come my way”, e em “The Beach II”, ela termina, com sua última linha foi, “My happy ever after / It’s okay”. Quando ela canta, você acredita nela.