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Cave World

2022 •

Year0001

8.8
Em seu mesmerizante terceiro álbum, a banda liderada por Sebastian Murphy joga com análises psicológicas e comentários ácidos ao lado do som mais visceral que eles já lançaram.
Viagra Boys - Cave World

Cave World

2022 •

Year0001

8.8
Em seu mesmerizante terceiro álbum, a banda liderada por Sebastian Murphy joga com análises psicológicas e comentários ácidos ao lado do som mais visceral que eles já lançaram.
10/11/2022

Para o terceiro registro do Viagra Boys, Cave World, o vocalista Sebastian Murphy passou grande parte dos dois últimos anos se afogando em documentários e pesquisas sobre evolução da espécie humana. O ponto de partida foi sua própria percepção atual da sociedade, e como, em diversos aspectos, parecemos estar em retrocesso constante, em vez de sedimentar um movimento adiante. “A de-evolução do homem”, Murphy disse sobre o tema central do disco. “Minhas inspirações foram como todos estão divididos, as ideias das pessoas sobre por que as coisas estão acontecendo e loucura geral”, ele completou. Em Cave World, a banda sueca de Estocolmo concentra visceralmente esse sentimento, tanto em som, quanto em letra. 

Se o último disco deles, Welfare Jazz, de 2021, foi uma evolução orgânica da estreia lançada em 2018, Street Worms, introduzindo uma sonoridade ainda mais catártica, imagética e ousada em prol de comentários sociais, Cave World esmera ainda mais esse viés, apresentando o projeto mais completo, audaz e coeso do grupo até então. Fundindo diversas narrativas de personagens diversos e complexos e produzido por Pelle Gunnerfeldt — acompanhado de DJ Haydn —, essas são canções que usam de um certo sarcasmo e ironia para esboçar comentários ácidos socialmente cirúrgicos. Com forte presença do post-punk, new wave e, até mesmo, toques de country e eletrônica, o registro paira sobre moldes arquetípicos e é o álbum mais visceral que eles já lançaram.

Por mais que os dois outros LPs lançados pelo Viagra Boys não sejam totalmente pessoais e intimistas, Cave World dá um passo ainda mais longe dessa característica. Na maioria das canções desse novo trabalho, Sebastian deixa de lado seus motivos pessoais — ainda que traga muita bagagem da sua vida pessoal para essas novas temáticas — e passa a se internar ou analisar terceiros. Na abertura, “Baby Criminal”, um comentário da namorada de Murphy é resgatado, tal como uma história (qualquer) real, para construir a história de um jovem que, enquanto criança era bem-visto, mas, chegando na sua maioridade, torna-se marginalizado pela própria mãe por problemas psicológicos (“But Jimmy started drawing things that Momma thought was crazy”). Em “Troglodyte”, o termo científico remete a um homem armamentista que é fortemente inspirado por massacres em escolas, e “Punk Rock Loser” encena quase perfeitamente um homem imprestável que acredita ter uma certa onipresença. 

Porém, essas são músicas que estão longe de serem limitadas, mas sim multifacetadas. Enquanto elas traçam pontos narrativos em esferas pessoais, seus planos de fundo também debruçam-se sobre cenários carregados de fôlego crítico. São peças que conseguem fazer refletir os pontos micro para seu universo macro. Em “Troglodyte”, novamente, os traços do personagem (“He says he don’t believe in science / He thinks that all the news is fake / And late at night he sits on his computer / And writes about the things he hates”) são um espelho para os comportamentos de conversadores. Na canção de encerramento, “Return to Monke”, uma das melhores da carreira deles, eles entregam um hino sobre o desejo de voltar para um estado de simplicidade natural e recusar as estruturas capitalistas da sociedade, as paranoias, os medos, o fanatismo e alienação dos dias atuais. “Well everybody’s worried about the future / Don’t take that vaccine man, they’ll / They’ll turn you into a computer”, Sebastian canta.

Para além disso, outro ponto em potencial é como a ironia é um dos pilares principais do álbum. Implantado na concordância com comportamentos absurdos ou, ainda pior, enraizando-se nessas pessoas de atitudes duvidosas, esse humor implícito se torna eficaz tanto pela entoação da performance de Sebastian, quanto pela composição que dosa bem o ridículo, o senso e a preocupação. Em “Creepy Crawlers”, isso fica claro quando Murphy pinta um homem anti-vacina que acredita fielmente que o governo implantou chips nos imunizantes, o que faz com que caldas estejam nascendo em crianças. O pertinente é como parece ser impossível alguém pensar dessa forma, o que ressalta o humor, mas o trágico é que, no final, é apenas uma representação da realidade. 

Outrossim, toda produção é igualmente inventiva quanto às suas composições, ainda que não deixem de lado uma certa acessibilidade popular. Ao passo que “Baby Criminal” chuta a porta com uma bateria violenta e distorções em trompetes, “Troglodyte” conta com riffs rotativos e hipnotizantes de guitarra e batidas industriais. Por outra lente, isso é totalmente cativante e groovy. Todavia, o ponto curioso fica pela série de três interludes produzida por  DJ Haydn, que, infelizmente, não é bem aproveitada. De sons de ratos sendo mortos em laboratórios futuristas (“Cave Hole”) para selvas de metais (“Globe Earth”), são peças de potencialidade e qualidade, mas que, da mesma forma que os interlúdios de Welfare Jazz, acabam sendo excessos que poderiam ser retirados em um corte mais preciso.

Nos minutos finais de “Return to Monke”, uma cena de assassinato é retratada (“A new carpet is installed / A murder takes place in Japan / Someone’s head is cut off in an office”). Mas, o ponto é como o materialismo sobressai a vida humana, com as pessoas preocupadas com a sujeira, com a movimentação e como isso se torna um estresse em suas vidas do que propriamente com a própria vida humana (“Everyone is quite pleased with themselves / They kept their cool in a stressful situation”). Minutos antes, em “The Cognitive Trade-Off Hypothesis”, Sebastian explicita o que houve quando evoluímos, deixando uma questão que acaba sendo a mensagem final desse disco: “We lost all of our cognitive abilities / But what’s all of this got to do with me?”. 

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