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Tropicalia ou Panis Et Circensis

1968 •

Philips Records

10
No Tropicália ou Panis Et Circensis, foi perceptível como a obra mescla as manifestações das músicas tradicionais brasileiras e as suas inovações estéticas radicais que o movimento adquiriu naquele período.
Tropicalia ou Panis et Circenses

Tropicalia ou Panis Et Circensis

1968 •

Philips Records

10
No Tropicália ou Panis Et Circensis, foi perceptível como a obra mescla as manifestações das músicas tradicionais brasileiras e as suas inovações estéticas radicais que o movimento adquiriu naquele período.
04/09/2022

Os anos de 1960 ficaram marcados pela grande revolução no mercado fonográfico. A popularização sonora ganhou uma nova característica depois que os quatro meninos de Liverpool, The Beatles, vieram com “She Loves You”, trazendo uma sonoridade dançante, gritos eufóricos e um viés harmônico que satisfizeram e conquistaram jovens no mundo todo, fazendo com que o rock n’ roll, estilo que tinha uma tendência rebelde, passasse a ser analisado como um instrumento de manifestação política, em decorrência dos acontecimentos que marcaram aquele contexto de guerras. 

A inspiração originada no rock e seus subgêneros, naquela época, fez com que os artistas brasileiros, marcados pela jovem guarda, construíssem suas canções através da sonoridade iê-iê-iê, em que a guitarra elétrica se destacou como um fator principal. Esse elemento se tornou, então, algo marcante dentro das canções nacionais, fugindo totalmente da estética estabelecida pela bossa nova, que, durante muito tempo, teve grande influência e destaque na cena musical brasileira. Para exemplificar, “Taxman”, de 1966, do cantor George Harrison, ex-integrante dos Beatles, ganhou uma nova versão em português, produzida pelos artistas que faziam parte da jovem guarda – Albert Pavão e Meire Pavão atuaram nesse processo, o que acabou fazendo com que Meire ficasse conhecida como uma das pioneiras do rock brasileiro. Desse modo, fica evidente a forma em que era estabelecida a estrutura da época e como artistas de diferentes sociedades eram capazes de se dialogar e usavam a música — e a sua sonoridade — enquanto fator principal à luta e manifestação contra as repressões políticas ao redor do mundo. No qual foram, inclusive, um empecilho para a mudança estética musical na época. 

Ainda na década de 1960, surge o movimento Tropicália, em 1968, que estabeleceu o período da contracultura no Brasil. Já eram perceptíveis as inovações, a rebeldia e o inconformismo por parte dos artistas, que estavam insatisfeitos com o novo regime ditatorial instaurado —  no qual se tinha a existência de um viés opressor, violento, conservador e retrógrado, em que não era aceito novas regras. Assim, abrindo portas para a discussão entre assuntos que envolviam a política e a sociedade, em oposição à ideologia estabelecida pelo modelo político em vigor. Nesse sentido, eles buscavam por uma nova forma de pensar e agir, além de novos valores e comportamentos nas falas e na ação. Em consequência disso, passaram por uma transformação intensa em relação às tradições já existentes, que antes era imposta pela cena musical, a título de exemplo as invenções melódicas do jazz, as vozes baixas e sonoridades cruas. 

As principais referências estavam no cinema, no teatro, na poesia concreta e, também, nas artes plásticas. No cinema, Glauber Rocha trouxe elementos históricos não só do Brasil, mas também de toda a América Latina, construindo uma analogia ao ato de não mostrar as diferenças sociais existentes no país. No teatro, Zé Celso possuía uma cultura de resistência ao combate da Indústria da massificação e padronização do gosto. As exposições de artes plásticas de Hélio Ótica, A tropicália e a manifestação ambiental também foram um dos fatores principais, que serviram, inclusive, na influência da criação do nome deste ato. A tropicália foi fundamental para o desenvolvimento da indústria cultural, implicando no aumento de telespectadores e resgatando características artísticas, especificamente a ausência de algo formal, a liberdade de expressão, etc., levantando discussões sobre estética e política de forma inovadora.

O III Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, foi essencial para a construção desse movimento: Caetano Veloso performou “Alegria, alegria” pela primeira vez, trazendo uma sonoridade iniciada com o rock n’ roll, onde ao decorrer da canção, o ritmo lento tomou conta. Os ritmos que se assemelham ao carnaval de rua também é visível no seu desenrolar, a genialidade do artista que, durante a sua apresentação foi vaiado, no fim foi o mais aplaudido. Gilberto Gil se apresentou com “Domingo no Parque”, a mistura do violão e da guitarra fez um elo perfeito, fugindo totalmente da estética “do viés limpo” antes exposta pela própria bossa-nova. Em vista disso, houve um choque em relação aos moldes nacionalistas da bossa nova e também ao que era considerado como a música popular brasileira, já que essa passou a ser um dos pilares para a construção da identidade nacional. O choque ao ver os artistas colocarem nas canções a eletrificação e instrumentos que faziam parte não só da cena jovem brasileira, mas mundial, de fato foi um dos acontecimentos que mais marcaram o início desse movimento. 

A Tropicália teve como fundadores Caetano Veloso e Gilberto Gil, e, posteriormente, trouxeram Gal Costa, Os Mutantes e Tom Zé. Esses artistas carregam com si a sonoridade e a instrumentação nos versos através do viés irônico e humorístico. Além disso, era perceptível a miscigenação, colocando tudo o que era válido para eles para poder criar o que poderia vir a ser um novo movimento de arte brasileira. A exemplo disso, na canção “Panis et Circenses”, os mutantes destacavam a alienação como instrumento do entretenimento barato em relação à população que ficava isenta perante o que o governo fazia durante o regime militar. Essa política foi exercida no Império Romano, em que se tinha a intenção manter o povo minimamente “alimentado”, porém, distraído o suficiente para que não houvesse revolução. 

Pensando através de um olhar antropológico, podemos analisar o surgimento da tropicália através da proliferação do hibridismo. Esse conceito é um dos principais fatores que o antropólogo Bruno Latour discute em seu livro Nunca Fomos Modernos. Em sua análise, ele o caracteriza como um aspecto baseado no desenvolvimento da mistura da natureza e da cultura do homem. Ou seja, para ele, esses híbridos sempre estiveram presentes no que podemos caracterizar como modernidade, e para ela poder se estabelecer e fazer o seu discurso, ela passa a desenvolver uma constituição do viés moderno, onde é estabelecido uma nova forma de pensar, seja de maneira cultural, política ou social. Nessa perspectiva, pode-se dizer que a tropicália foi um caso exemplar.  

Nota-se que o movimento foi se estruturando de acordo com o seu contexto, já que os artistas tinham maior intenção de fazer com que a música brasileira avançasse, resultando na mistura da cultura popular, música folclórica e sonoridades marcantes em canções do mundo todo, mais especificamente o psicodelismo, a música protesto, o rock n roll e a música concreta, que evitava os instrumentos tradicionais, substituindo sons propriamente produzidos por outros objetos. O principal intuito era fazer uma conexão da musicalidade brasileira e a modernidade, além da pluralidade universal, valorizando principalmente todas as formas de expressão musical. A tropicália abriu diversas portas para a modernidade e foi fundamental para o início de diversos movimentos e correntes musicais que foram surgindo posteriormente, se configurando como um disco-manifesto.

Ainda estabelecendo um viés antropológico, partindo da visão de Claude Lévi-Strauss, a interpretação de um “mito” permite ao observador compreender os ideais de determinada sociedade, de forma que, para estudar as sociedades de narrativas, deve-se, a priori, conhecer seus mitos. Consequentemente, a irrealidade e a inverdade tornam-se adjetivos desse aspecto e a sua composição, como músicas e histórias contadas que atuam enquanto fomentadoras das ordenações mentais semelhantes. Logo, nota-se que esse elemento em si não criou determinadas normas, mas a mesma se apropriou de estruturas das sociedades de narrativas que são determinadas. 

Em acréscimo, o mito não deve ser assimilado como resultado de uma sequência linear de acontecimentos, mas sim como grupos de acontecimentos — condizente com uma canção, onde cada verso adquire sentido ao fazer parte de um todo. Ou seja, o próprio mito, em paralelo com as canções, não inventou novas estruturas à sua composição, mas partiu de configurações pré-existentes na sociedade para ocupar acordes, para apropriar-se de narrativas precedentes. Nesse sentido, compreende-se que o movimento tropicália se apropriou da estrutura que estava vigente na época a fim de trazer esse tom de “renovação” na música.  

O movimento enfrentou uma grande resistência da parte mais radical da música popular brasileira, que não aceitavam a renovação e a “eletrificação”, devido à identidade nacional que havia sido criado, por conseguinte, pode-se afirmar que essa identidade se apropriou das estruturas sociais dentro daquele contexto. A sua sonoridade era baseada no rock, no samba, no rock psicodélico e no iê-iê-iê. Também havia, em suas letras, a poesia concreta, em que era perceptível as brincadeiras com as palavras, as diferentes sonoridades e as metáforas que os artistas traziam. 

No Tropicália ou Panis Et Circensis, foi perceptível como a obra mescla as manifestações das músicas tradicionais brasileiras e também as suas inovações estéticas radicais que o movimento adquiriu naquele período. Nesse disco estavam presentes os precursores, Caetano Veloso e Gilberto Gil, onde convidaram Gal Costa e Nara Leão, que naquele tempo era considerada a musa da bossa nova. Além disso, convidaram a banda de rock Os Mutantes, da qual partiu a ideia da eletrificação das músicas; o maestro Rogério Duprat; os poetas Torquato Neto e Capinam, onde juntos realizaram esse ato juntando uma diversidade de elementos sonoros como o pop, o samba, a música clássica, a fim de obter influências e visões diferentes, respeitando principalmente as identidades visuais dos artistas. 

Em “Enquanto seu lobo não vem” nota-se a colagem sonora, onde são nítidos os sons ambientes que não apareciam anteriormente nas músicas brasileiras por ser considerado algo absurdo, mas que posteriormente tornou-se algo comum. Os aspectos minimalistas dão ritmos em decorrência de uma repetição expressiva dentro dos versos. Em “bat-macumba”, que também compõe o disco-manifesto, podemos analisar como a poesia concreta através do seu caráter experimental e visual é nítido, existindo uma sobreposição de elementos no seu decorrer e um instrumental e seções rítmicas do pop/rock. Além disso, é perceptível o uso de diferentes instrumentos musicais, como a viola caipira, sessões de percussão da música afro-brasileira que remete ao candomblé, além de estar interligado ao próprio nome da canção, que é um instrumento usado nos rituais, transformando em um processo minimalista de redução e adição de elementos considerados melódicos.  

Em “Miserere Nobis”, escrita por Gilberto Gil e Capinan, nota-se o jogo de palavras, de forma discreta, como uma forma de denúncia à repressão da ditadura militar no Brasil. Ela se inicia com os versos “Miserere-re nobis / Ora, ora pro nobis”, frase que se utiliza em rituais, tendo como significado “tenha misericórdia de nós e orem por nós”. Os jogos silábicos de “Bê, rê, a – BRA / Zê, i, lê- ZIL / Fê, u – FU / Zê, i, lê – ZIL / Cê, a – CA / Nê, agá, a, o, til – NHÃO / ora pro nobis”, se entrelaça ao refrão anterior dando o verdadeiro significado dela:  “Tenha misericórdia de nós, Brazil, fuzil, canhão, orem por nós”. Em  “Domingo no parque”, de Gilberto Gil, essa sonoridade também se faz presente, além do mais, ela adota uma noção de música assistida, onde ao desenrolar da melodia, nota-se a diferença entre elementos sonoros, similares aos de uma cantiga de roda, quando o cantor começa descrevendo dois amigos que estavam presentes na narrativa construída. Por fim, “Panis Et Circencis”, que além de compor dá o nome ao registro, é presente nas colagens sonoras, principalmente do psicodelismo, onde a liberdade formal vai sendo demonstrada ao decorrer dela. Nota-se que as estrofes não fecham, elas vão se transformando. 

Nesse contexto, o que anteriormente era visto com o viés mais nacionalista e moderno, os tropicalistas dentro do Tropicália ou Panis et Circensis resgataram as características consideradas não modernas a fim de construir essa contracultura. Assim, resgatando como em outros países o aspecto político vigente daquele período, que serviu de influência nas mudanças do cenário musical. 

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