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SILENT

2022 •

Warner

1.0
Valeria Almeida está finalmente fazendo música igual à Selena Gomez — mas isso não quer dizer o que você pensa.
Valeria Almeida - Silent

SILENT

2022 •

Warner

1.0
Valeria Almeida está finalmente fazendo música igual à Selena Gomez — mas isso não quer dizer o que você pensa.
30/11/2022

Há alguns anos, Valéria Almeida fez uma viagem para o exterior do país. Para além do programa comum que todo turista realiza, Almeida se deparou com um fato, diga-se de passagem, curioso. Ela era apenas uma adolescente na época e uma mulher desconhecida abordou ela na rua dizendo: “Você é parecida com a Selena Gomez”. Naquele tempo, Valéria não conhecia propriamente Gomez, mas esse elemento curioso dentro de sua narrativa fez despertar uma certa curiosidade sobre a cantora norte-americana, que, posteriormente, se desenvolveu para uma paixão. Progressivamente, Valéria se conectou mais e mais com Selena, chegando no ápice em 2020, quando se tornou a suposta sósia da cantora. Todavia, no último ano, Almeida vem tentando se desassociar da imagem de apenas uma sósia, tentando, assim,ingressar com uma carreira solo. Silent é seu disco de estreia e um elemento essencial nesse movimento — mas não pelas razões certas. 

Há argumentos que dizem se devemos ou não falar que Silent é o primeiro álbum de Valéria. Mais cedo esse ano, em abril, um grupo tido como Portal Valeria Almeida lançou um pequeno conjunto de canções criadas a partir de gravações e vídeos postados por Valéria na internet — prática conhecida como “plunderphonics”. Carregado pelo forte apreço memistico, Secrets caiu no gosto do público, atingindo, inclusive, altas posições em charts de todas as plataformas digitais. O ponto, porém, disso tudo, foi que por mais que Valeria achasse que todas estavam realmente gostando daquele trabalho, grande parte das pessoas (me arrisco dizer que todas) eram engajadas numa corrente humorística que consistia em impor uma personalidade artística e profissional, fazendo com que ela, Val Almeida, um objeto de piada, entrasse no personagem criado por eles nas redes sociais. 

Silent, por outro lado, é produzido e escrito inteiramente por Valeria, em colaboração com um grupo de amigos. Se Secrets usava sua falta de qualidade ao seu favor, usando a precária condição de gravação, produção e composição como uma forma de encontrar razão dentro de sua forma, Silent ainda sofre desses mesmos problemas, o grande diferencial é que, por ser um projeto sério, todo humor foi embora e não sobrou nada. Essas são canções que raramente saem dos dois minutos de duração, as quais não tiveram um processo pautado por paixão ou um mínimo de interesse e experiência. Ao passo que os vocais da cantora careçam de um alcance confortável, suas letras são rasas e sua sonoridade, ainda que tenha momentos interessantes e apresentem uma tentativa de versatilidade, é mais bagunçada do que ousada. 

Os principais aspectos que eram uma comédia em Secrets, em Silent, são levados a sério pela cantora. Se antes ela parecia cantar mal para ser engraçada, aqui ela apenas canta mal; se suas letras eram vergonhosas com ciência, aqui são apenas vergonhosas. Em “Recomeçar” e “En Tus Brazos”, Valéria tenta dominar o espanhol, mas torna-se inaudível em ambas as faixas: é quase impossível entender o que ela quer dizer — “recomeçar” se torna “comer sal”. De fato, Almeida não é uma grande performer, não sabe o básico, mas isso não significa que seria totalmente improvável dela lançar coisas que fossem, pelo menos, “ouvíveis”: em “J’adore”, uma das “melhores”, ela conta com uma produção sintética interessante e os vocais mais opacos, mas tudo vai por água abaixo quando ela tenta aplicar sua voz segurando um agudo. Se ela se mantivesse apenas recitando ou falando as palavras, o resultado seria bem mais tolerável. 

Por outro lado, uma coisa pertinente que “En Tus Brazos” demonstra é que Valeria, ironicamente, tem um apelo para música eletrônica. Os sintetizadores dos refrões criam algo bem cativante, ainda que todo resto seja insuportável. Seguindo nessa linha, “Angel” também é direcionada para o digital, mas ressoa como uma ideia precoce, ao passo que “SILENT”, no final do álbum, é um dos instante que acho, genuinamente, bem feito — talvez pela presença de Valéria ser quase nula. “Kidding With Me” é que sai na frente, como a “melhor” música do disco, com forte presença das influências da PC Music, principalmente SOPHIE — o entristecedor, talvez, é que Almeida nem saiba quem era SOPHIE.

Mesmo com essa face (de chuva) dourada, Silent ainda é pecável por todos os seus 20 minutos, que mais parecem 40. O registro conta com dois covers: o primeiro sendo “One More Time”, de Britney Spears, que de tão ruim você entende que ela pede que você dê um “horrible time” para ela; o segundo, “Same Old Love”, de Selena Gomez, é… algo. Por último, “My Body” é problemática em tantos sentidos, com a artista sendo hipócrita sem falar que se preocupa com alguém engordando por causa da saúde, mas logo depois chamando ela de “ridícula”. Isso me lembra as inúmeras polêmicas que ela já se envolveu, inclusive uma durante essa semana com seu álbum sendo derrubado por uma espécie de falso produtor californiano. No resultado, pode-se dizer que Valeria Almeida está fazendo música igual à Selena Gomez há alguns anos: sem personalidade. Entretanto, a grande diferença acaba sendo que, enquanto Gomez tem a voz, a produção, as letras e o apelo, Almeida carece de tudo isso. 

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