hikaru utada - bad mode
BADモード
2022 • J-Pop • EPIC
POR SIMÃO CHAMBEL; 07 de FEVEREIRO DE 2022
6.7

Utada Hikaru é um dos nomes mais essenciais do pop japonês contemporâneo. Dificilmente passando despercebida a entusiastas do género, a artista é considerada um verdadeiro ícone dos late 90s japoneses, carregando uns admiráveis 25 anos de carreira que acompanharam aberturas de famosos animes e se destacou em trilhas sonoras de videojogos. Este ano, atinge o oitavo álbum de estúdio com o seu lançamento mais recente, BADモード.

Trocando entre o japonês e o inglês, a voz de Hikaru reflete sobre o período pandémico; um tema que tem sido tratado até à exaustão nos últimos dois anos e que se vem a tornar cada vez mais obsoleto pelo seu desgaste criativo, apesar de ter tido o seu devido impacto nas experiências de artistas e de ser dificilmente ignorado por compositores. O bilinguismo do projeto, dado ao carácter internacional que exponencialmente engloba mais artistas antes apenas pérolas do mercado japonês, não é surpreendente, mas as colaborações em algumas das faixas certamente foram o suficiente para levantar sobrancelhas.

O novo projeto de Hikaru soa a um levantamento pouco focado dos vários cenários em que o seu trabalho pode ser encontrado, juntando num mesmo projeto um tema musical para o jogo Kingdom Hearts III, que conta com a colaboração de Skrillex, apenas uma faixa a seguir ao surpreendente “Somewhere Near Marseilles” – uma viagem de 11 minutos ao longo de uma relaxada produção do aclamado Sam Shepherd, nome por detrás de Floating Points. O choque entre um EDM maçador e um deep house descontraído e leve é desconcertante e ligeiramente inquietante. Ao tentar mostrar as suas várias facetas, Utada parece desestabilizar a harmonia que tenta provar com os apontamentos de um R&B fluido e suave, sobre o qual se esforça a impô-lo como medula do disco. Pode-se argumentar que um álbum cujas músicas, juntas, não formam uma sinestesia que as ultrapassa individualmente seria mais razoavelmente classificado como uma compilação; e é aqui que reside o maior problema em Bad Mode. Os seus remixes inoportunos e as acessórias versões de certas faixas em inglês não contribuem para apaziguar a desordem interna que já reina entre elas.

Seria injusto, por outro lado, desqualificar o projeto por parâmetros estruturais por si só, e o devido crédito deve ser dado aos momentos ilustres que surgem em toda a sua imponência. A abertura, “BADモード”, com a sua melodia cativante, instrumentação dinâmica e sintetizadores energéticos, é uma extraordinária demonstração da perfeita união entre o dance e o j-pop. Já 気分じゃないの (Not in the Mood) assenta numa batida 4/4, característica do trip hop, acompanhada por um piano que, mais tarde, se metamorfoseia num crescente coro de etéreos sintetizadores até à sua fusão.

O clímax de BADモード dá-se, contudo, no já referido “Somewhere Near Marseilles”, em que o trabalho de Floating Points notoriamente se destaca dos vocais de Utada, que passam para um segundo plano, em que ficam a acompanhar a sensacional digressão, produto do génio de Sam Sheperd. Com um tempo descontraído, uma percussão leve e oca é acompanhada por húmidos sintetizadores até uma explosão gerar um maravilhoso transe capaz de nos suspender um pouco entre sons sublimes e requintados. É este o momento catártico do álbum que não parece saber valorizá-lo tanto quanto devia. No final, os momentos mais fortes dos êxitos parecem ser abafados pelo fardo de um projeto que destitui a harmonia e abafa a coesão em prol de técnicas que almejam atingir um maior número de streams