Urucum
2022 • POP/RAP • SONY MUSIC
POR MATHEUS JOSÉ; 26 DE ABRIL DE 2022
7.6

Quando algum artista conhecido passa por um momento difícil em sua carreira e, depois disso, resolve lançar um álbum, as expectativas do público acabam aumentando significativamente e geram um buzz enorme em torno do que vem a ser o material apresentado. Após sua participação no reality show Big Brother Brasil, Karol Conká conquistou, negativamente, o status de cancelada. Ela sofreu tanto ódio, foi alvo de ataques sem precedentes e, para piorar, teve a sua arte ameaçada. Mas, após sair do programa — no qual ela bateu recorde de rejeição —, Karol felizmente parece ter se desviado de tudo que quase acabou com ela. Diante deste cenário, surge Urucum, o terceiro disco de estúdio lançado pela cantora desde a sua estreia.

Como sugere no nome da obra, em que o urucum, um fruto com propriedades terapêuticas, é retratado, Karol busca neste trabalho, adentrar em um novo momento da sua vida. Com a calma e toda a paz do mundo, ela faz isso quase como em um ritual de cura, se livrando de toda toxicidade e energias negativas das quais ela foi alvo desde o ano passado.

De início, quem ouve o disco na intenção de esperar respostas ou um posicionamento mais incisivo da artista depois de viver grandes derrocadas nessa fase recente de sua carreira, acaba se decepcionando. Urucum é o renascimento de Karol Conká no seu próprio circuito musical e pessoal. E ela faz isso sem necessariamente chutar o balde ou expor passagens que remetem ao que ela fez ou deixou de fazer durante a sua participação no BBB. Ela vai além disso.

Mesmo não sendo o foco principal, que é a visão de mundo positiva e que mira para os horizontes futuros de Karol, Urucum ainda traz algumas letras das quais podem ser interpretadas como um recado rápido que ela deixa sobre o julgamento que recebeu e vem recebendo desde o ano passado. Em “Mal Nenhum”, por exemplo, a ex-BBB canta: “Tô acostumada a andar na mira / Tô pelo certo, universo conspira / Quando menos perceber, o jogo vira”. Nas outras músicas, o lirismo se iguala ao que ela cantou em grande parte das canções presentes nos seus antigos projetos. Mas, felizmente, isso não é algo ruim, pois Urucum surge em um timing perfeito para ela fazer isso usando palavras estratégicas como calma e sossego. E é justamente em faixas cujo o nome são essas palavras que Karol diminui o ritmo. Entre elas, o grande destaque, obviamente, é “Slow”.

Quanto à produção, Urucum não deixa a desejar em nada. Repleto de ritmo, o disco se estende passando por um gigantesco leque de influências musicais das quais Karol consegue utilizar como ninguém. “Fuzuê” é marcado pelo toque do berimbau; “Veja o Bem”, mescla elementos orgânicos com sintetizadores que perduram até o fim da obra, que se encerra com “Louca e Sagaz”, hit previamente apresentado enquanto a artista ainda estava confinada no Big Brother.

No final das contas, se Karol tivesse usado a sua experiência que culminou em grande parte desse projeto, possivelmente veríamos canções mais simbólicas e, talvez, menos esquecíveis como algumas são aqui. Talvez, virar a página de forma com que o passado seja deixado de lado, não pareceu funcionar muito bem, uma vez que, Urucum mesmo soando como um descarrego, não parece ser propriamente algo que a mamacita faria com maior intensidade caso quisesse de fato causar um impacto com músicas de caráter arriscado, algo que supostamente, poderia ter dado muito certo.