CALL ME IF YOU GET LOST
2021 • RAP/HIP-HOP • POLYDOR
POR LEONARDO FREDERICO; 2 de JULHO de 2021
8.0

Sempre foi algo comum vincular a música a outras formas de expressão artística. Talvez como uma busca de validação baseada na arte de elite, os cantores sempre tentaram associar o seu som à pintura, à  escultura e ao teatro. Nos últimos anos, Kanye West elaborou uma breve referência a Pablo Picasso no seu álbum The Life of Pablo. Tyler, the Creator, enquanto isso, no seu sétimo álbum, CALL ME IF YOU GET LOST, menciona o escritor francês Charles Baudelaire para criação do personagem Tyler Baudelaire, que, segundo alguns jornalistas, pode ser associado ao escritor por sua incapacidade de alcançar um relacionamento dos sonhos e por sua transição de um jovem amador para um homem amoroso e sensível. De acordo com Morgan Britton, os dois “têm se fixado na luta entre romance e realismo, luxo e amor, beleza e morte, talentos e controvérsias”. Entretanto, em CALL ME IF YOU GET LOST, Tyler prova que esta conexão é apenas uma mera linha entre nomes e que o seu papel vai muito além de escrever romances.

Apresentado pelo DJ Drama, CALL ME IF YOU GET LOST é o álbum mais completo de Tyler até o momento. Eu não diria que é, necessariamente, o melhor, mas talvez seja o mais longe que ele foi até agora. Com sua composição afiada e ágil, o rapper californiano de 30 anos investiga o amor, sua ascensão à fama, o capitalismo, as questões raciais ao longo da história e exalta sua família e amigos. Mesmo não sendo o álbum mais memorável ou, talvez, o mais empolgante e conceitual dele, ainda é possível perceber a importância que o trabalho, na totalidade, tem em sua vida e carreira. É uma comparação barata, mas você pode ver CALL ME IF YOU GET LOST como o The Life of Pablo de Tyler: é uma peça única, mas não é a sua obra-prima.

Já que mencionamos o escritor e poeta francês, tomando esta linha como o nosso norte, podemos começar a falar de toda a composição do álbum, que, igual em outras obras de Tyler, aparece sendo um dos pontos mais fortes. “MASSA” é o melhor exemplo da capacidade de escrita de cantor. Na faixa, ele traça um paralelo entre a situação dos negros na época da escravidão e atualmente. Ele lembra que apesar dos vários avanços sociais, políticos e econômicos que a sociedade tem feito ao longo dos anos, ainda há espaço para o racismo. Ele começa: “Yeah, when I turned twenty-three that’s when puberty finally hit me / My facial hair started growin’, my clothing ain’t really fit me / That caterpillar went to cocoon, do you get me?”, e, então: “Massa couldn’t catch me, my legs long than a bitch”. 

Essas habilidades de escrita se expandem para várias faixas do álbum. Na abertura, “SIR BAUDELAIRE”, por exemplo, ele apresenta o personagem do álbum em detalhes. Em “CORSO”, ele volta seus olhos para sua vida social e sua influência sobre as pessoas. Ele fecha a canção dizendo: “I don’t even like using the word ‘bitch’ / It just sounded cool”, um dos momentos mais memoráveis de todo o disco. A seguir, Tyler, 42 Dugg e Frank Ocean fazem uma espécie de competição entre bens materiais em “LEMONHEAD”. Tyler começa: “I don’t lean but my house do / Off the hill with the mean view / Nice house if you look out / You can see some eagles and a few yacht”, e 42 responde: “Two-tone Patek in this bitch, goddammit / Ten bad hoes, nigga, look at that bitch / Still sellin’ dope, I be cookin’ that shit”. “LUMBERJACK”, “RUNITUP” e “WILSHIRE” também aparecem com alguns bons momentos.

Ademais, CALL ME tem outros cortes em que a imaginação de Tyler correu solta. No romântico “WUSYANAME”, com YoungBoy Never Broke Again e Ty Dolla $ign, Tyler recorre às influências de rap, hip-hop e r&b, do final dos anos 90 e início dos anos 2000, para criar um som que mistura amor com sexo, emoção com desejo físico. Posteriormente, ela apresenta uma fusão de música de elevador suave com batidas de carro pesadas em “HOT WIND BLOWS”, com Lil Wayne. Enquanto eles cantam sobre a luxúria, o que parece ser um sample de “Slow Hot Wind”, de Penny Goodwin, é emparelhado com flautas e bongos ao fundo. No entanto, um dos melhores momentos do disco é a faixa dupla “SWEET / I THOUGHT YOU WANTED TO DANCE”, principalmente o gancho da segunda parte, onde um coro caseiro canta: “So, what makes you think / I’m not in love?” e depois, no final, quando eles voltam para fechar a canção. “So don’t forget about me, ba-ba-ba-da/I’ll save a dance just for you”, eles cantam. É claro que, ao longo de todo o projeto, temos outros momentos em que há instrumentos ou passagens distintas, como samples diferenciados ou sopros inesperados. Mas, às vezes, são tão discretos, principalmente por como o som é tratado nas canções, que você nem perceberá. Em vários instantes, todos os instrumentos parecem ser abafados ou mesmo esquecidos, criando uma certa massa sônica muito homogênea.

Todavia, esta vasta ambição que Tyler tinha para este álbum nem sempre funciona. Peças como “MOMMA TALK” e “BLESSED” não são ruins, mas não acrescentam nada. É o tipo de coisa que não vai fazer diferença para um iniciante na música de Tyler, mas sim para os fãs. E talvez seja aqui que o álbum mais se aproxime do TLOP, que tem vários momentos que parecem ser apenas apreciados por aqueles que estão imersos na discografia e na vida do cantor. “MANIFESTO”, por outro lado, parece fraco porque o ódio livre e mesquinho nas mídias sociais é o que incomoda tanto Tyler quanto Domo Genesis. Ambos já cantaram sobre coisas muito mais importantes do que apenas brigas sem sentido e cultura do cancelamento, algo que nem sequer existe em primeiro lugar. Finalmente, “WILSHIRE” é a maior decepção. É uma faixa de oito minutos de duração onde Tyler conta esta história detalhada sobre seu relacionamento. O problema é que o rapper não consegue mantê-la interessante por oito minutos e a parte sônica da faixa, batidas monótonas e relativamente genéricas, não ajuda, fazendo com que toda a canção pareça uma peça enfadonha. No final, esses momentos não atrapalham o álbum que continua sendo ótimo. Claro, se você é um fã que segue Tyler mais de perto, você provavelmente gostará mais do disco, mas ele ainda tocará brilhantemente para todos.