GLOW ON
2021 • ALTERNATIVO/ROCK • ROADRUNNER
POR LEONARDO FREDERICO; 06 de SETEMBRO de 2021
9.0
MELHOR LANÇAMENTO

É realmente complicado dizer ou apontar que determinada banda atual é um dos melhores atos da história da música e que o trabalho que eles estão entregando irá entrar para a lista dos melhores discos já feitos. É difícil também imaginar como as pessoas que ouviram os álbuns clássicos que estão entre os melhores de todos os tempos se sentiram quando os escutaram pela primeira vez, e se elas pensaram que essas obras eram, de alguma forma, inovadoras, visionárias, revolucionárias ou, até mesmo, divisoras de águas. Muitas vezes, para um projeto ou artista atingir tal patamar consagrado são necessários anos para se refletir sobre a importância e influência desses.

Contudo, o novo disco da banda formada em Baltimore e liderada por Brendan Yates, Turnstile, é como esses discos clássicos que eu mencionei. É um álbum que soa único, diferente, singular, mas que também parece uma evolução orgânica e familiar de tudo que os antigos artistas e bandas construíram até aqui. GLOW ON é um projeto difícil de catalogar visto que o rock parece muito normal para eles e o punk não é o energético o suficiente para os riffs de guitarras que atingem patamares de grandes concertos de grupos de metal em arenas. É um álbum divertido, contagiante, cativante e emocionante, soando inigualável. Em outras palavras, GLOW ON é um novo clássico contemporâneo. 

A combinação de gêneros e estilos que Turnstile concretiza é um dos principais fatores que fazem GLOW ON soar como um clássico moderno, alternativo. Em nenhum momento, o disco parece conseguir se encaixar em nenhuma categoria estabelecida até hoje. É um álbum que está sempre evoluindo, quando como se estivesse criando, enquanto toca, seu próprio movimento, sua própria definição. Ou seja, GLOW ON parece criar, em sua essência, um gênero fluido que nunca se cansa de se transformar. “BLACKOUT”, por exemplo, é uma das faixas mais multifacetadas do álbum. Ela começa com riffs de guitarras que parecem ser projetados por jovens de uma banda amadora de rock — mas no bom sentido. Depois, percussões despojadas e cruas performam em tons atrativos antes das cordas explodirem como se estivessem em um show de metal pouco antes da faixa se tornar uma espécie de transição dentro da apresentação da Beyoncé no Coachella em 2018. Há muito tempo uma bagunça não soa tão boa assim. 

“BLACKOUT” é também o melhor exemplo para outro elemento crucial dentro de GLOW ON: o fato do quão energéticas, intensas e grandes algumas dessas faixas são. Em algumas vezes, inclusive, pode-se ousar dizer que algumas delas atingem o nível de algo maior que a própria vida. No caso dessa faixa, o momento mais exorbitante e carregado é quando a banda faz seu som explodir em níveis astronômicos, fazendo parecer que eles estavam tocando em um grande estádio, com máquinas de lança-chamas. Em “DON’T PLAY”, essa catarse emocional e febril também reverbera de forma intensa, seguida por um solo superabundante de guitarra aguda. Nesses instantes, o som, mais do que nunca, torna-se imagens mentais e sentimentos contagiantes. 

Por outro lado, enquanto Turnstile não está criando ápices de deleite revolucionário, eles estão conduzindo homenagens honestas e sinceras para aqueles que pavimentaram o caminho dos mais diversos gêneros anteriormente. Em “LONELY DEZIRES”, por exemplo, eles parecem tocar um som ordenado pelas influências do Green Day, mas pela lente e filtro do Bloody Valentine, enquanto sintetizadores oitentistas ofuscantes explodem em purgação. “WILD WRLD”, por outro lado, soa como uma faixa digna do Talking Heads, mais especificamente Remain in Light, de 1980, com percussões distraídas e limpas sob vozes em camadas de ecos em grandes arenas e ambientes. Ou, em uma visão mais tolerável, você pode tomar os sintetizadores simples e sutis de “HUMANOID/SHAKE IT UP” como derivados de Ok Computer, do Radiohead.

Porém, esse sentimento de que GLOW ON é muito mais do que um de uma banda que ainda está em seus primeiros passos é reforçado pela capacidade deles em entregar canções que soam como os canônicos atemporais. “ALIEN LOVE CALL” é o melhor exemplo dessa imortalidade, ecoando, por meio de reverbs, como se fosse uma daquelas músicas românticas que tocam em bailes de formatura ou que se tornam parte da trilha sonora de um filme de amor de sucesso. Enquanto as cordas reluzem na frente de batidas fortes de uma bateria, o vocalista canta: “All my glow is on / Can the will be strong? / Can’t be the only one”. Seguindo a mesma tendência, “UNDERWATER BOI” vai um pouco mais além, implementando uma voz sintética facilmente remanescente dos trabalhos de Frank Ocean, como Blonde

Por fim, não é apenas na sonoridade que a banda serve um material atemporal, apresentando composições afiadas igualmente. Um sentimento de despertencimento assombra o vocalista em “DANCE-OFF”, com ele cantando: “It was a good time / The world is changing / Or is it me who’s not the same?”. Essa sensação de ser um outsider dentro do seu ambiente é algo recorrente, mas quando Yates canta, ele parece o líder de um movimento. Da mesma forma, em “HOLIDAY”, quando ele grita com toda força: “I can never feel the cold”, e “I can sail with no direction”, você não consegue não acreditar nele. Todavia, o momento mais potente é em “NEW HEART DESIGN”, na qual essa visão e percepção de deslocado pega de uma forma mais forte. “You know you really gotta leave / But the sugar never tastes half as sweet / 18 years and ain’t it funny how it feels / When you start to find out: life’s real”, ele canta. Na primeira faixa do disco, Yates canta: “Are you gonna get it right?”. Você pode tentar, mas GLOW ON sempre vai estar um passo à sua frente.