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UTOPIA

2023 •

Epic / Cactus Jack

8.0
Com UTOPIA, Travis Scott tenta nos fazer enxergar a existência da perfeição em nossas realidades a partir de sua ótica fantasiosa.
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UTOPIA

2023 •

Epic / Cactus Jack

8.0
Com UTOPIA, Travis Scott tenta nos fazer enxergar a existência da perfeição em nossas realidades a partir de sua ótica fantasiosa.
14/08/2023

Tido como uma das figuras mais interessantes a surgir na década passada, Travis Scott, artista estadunidense de 32 anos, finalmente retomou suas atividades contratuais com a gravadora Epic e Cactus Jack e lançou o tão antecipado UTOPIA, seu quarto álbum de estúdio. No passado, quando o lançamento do novo disco de Scott não passava de alguns rumores e especulações, os fãs do rapper já expressavam o seu desejo em ouvir um projeto musical cuja qualidade fosse equivalente (ou, até mesmo, maior que) a de outros trabalhos do músico, como Rodeo (2015) e ASTROWORLD (2018) — obras estas que marcaram momentos muito importantes na música em seus respectivos tempos e cuja influência na cena do hip-hop e trap são colossais. Finalmente chegada a hora de conferir o seu mais novo projeto, todos acabaram se deleitando de satisfação ao encontrar algo genuinamente bom e digno do talento de seu autor.

 Logo nas primeiras faixas de UTOPIA, nota-se um caráter mais sombrio e introspectivo, aspecto este que se revela uma instigante diferença em relação aos trabalhos anteriores de Travis Scott. Nesse projeto, o músico reuniu produções antigas — as quais o público já estava bastante familiarizado — e as repaginou de forma que parecessem coerentes com as demais faixas do disco, como “GOD’S COUNTRY” e “TELEKINESIS” — cujo antigo dono, até então, era Kanye West —, mas também trouxe uma quantidade bastante generosa de canções inéditas.

 Dentre as faixas inéditas de UTOPIA, está a faixa que o introduz a nós: “HYAENA”. Utilizando o sample de Maggot Brain da banda de soul e R&B Funkadelic e também de Proclamation dos Gentle Giant (grupo musical britânico de rock progressivo), a canção se prova uma digníssima introdução para o álbum de Scott, ao apresentá-lo por meio de versos carismáticos com uma potência impressionante e modificar muito bem as sonoridades contrastantes dos trabalhos desses artistas em momentos espetaculares de epifania numa instrumentação típica de hip-hop.

 Em seguida, ouvimos “THANK GOD”, com a surpreendente participação do artista estreante KayCyy, mais um protegido de Kanye West. Nessa canção, os dois prestam seus agradecimentos a Deus pelas suas vidas e por ainda estarem vivenciando-a, com uma escrita bastante simples, mas eficaz. No refrão, o convidado canta: “Goodbyes, that’s life / Fun times for life / For life, from down my eyes / Thank God I breathe tonight”. Pela sua estruturação ser muito convencional do hip-hop e trap, a faixa poderia ser facilmente esquecível, porém a produção de West, Allen Ritter, BoogzDaBeast, WondaGurl e FNZ conseguiu fazer a música escapar um pouco da obviedade, desenvolvendo uma instrumentação eletrônica interessante e cheia de nuances e texturas sonoras diversas.

 Mais adiante, nos encontramos com “MODERN JAM”, outro destaque do álbum. Novamente vemos o nome de Kanye West marcar presença nos créditos, todavia, dessa vez, se dando pela utilização do sample de “I Am a God” como base para a construção da batida no início das gravações — mas acabou por tomar para si a percussão de “Black Ice (Sky High)” de Goodie Mob no final das contas. Entretanto, da mesma forma que antigamente, Travis Scott e os seus colegas conseguem dar unicidade à canção ao incorporar elementos típicos da discografia do músico, como as passagens de voz altamente modificadas sob as batidas, por exemplo, e torná-la algo de seu pertencimento.

 Até então, pudemos notar e ouvir alguns dos aspectos que fazem de UTOPIA um lançamento tão interessante por parte de Travis Scott, como a grande experimentação encontrada nas batidas de “MODERN JAM”, porém é apenas a partir de “NO EYES” que percebe-se, majoritariamente, o teor mais introspectivo e pessoal do projeto. Nesta faixa, Travis Scott toma para si um espaço para falar de forma aberta sobre as dificuldades que passou durante a sua vida e no quão isso o afetou depois de crescido. Para o ajudar a estabelecer o ambiente melancólico e reflexivo, a produção inclui os vocais de luxo de Justin Vernon no pré-refrão, onde ele canta “When I stare in your eyes / You’ll be there forever / To watch our life (To watch our life together) / You just like going to Heaven (My heart)”, juntamente aos do renomado Sampha no segundo verso. E, após a fixação desse âmbito soturno, acontece uma mudança rítmica muito surpreendente, na qual notamos o característico uso de elementos de trap.

 Quando perguntado acerca do conceito de UTOPIA, Travis Scott disse que o álbum é sobre o avistamento da tão almejada utopia em nosso mundo, mesmo ele se situando em uma realidade tão pacata. Com esse projeto, o artista quer trazer um exercício muito importante para nós: o de sempre valorizar aquilo que temos. Na quinta faixa do disco, “GOD’S COUNTRY”, o músico fala mais sobre isso. Na produção dessa canção, há uma mistura sensacional de psicodelia com as batidas de trap, que acompanham Travis ao longo de toda a duração. Liricamente, Scott propriamente discorre sobre tal assunto de maneira bastante despojada, falando que, apesar de os tempos terem mudado e de ter ficado rico, ele ainda se encontra voltando periodicamente para a sua família a fim de achar paz e conforto.

 Após “GOD’S COUNTRY”, prosseguirmos para as faixas remanescentes do disco que, nesse ponto, ainda são muitas. Logo em seguida, temos “SIRENS”, que conta com uma produção bem energética; capitaneada pelo próprio Travis Scott, juntamente de outros produtores, como MIKE DEAN e Jahaan Sweet. Em seu final, conseguimos ouvir uma breve conversa entre ele e uma mulher, que o questiona o porquê de eles estarem num quarto de hotel e não na suposta “utopia” que ele prometeu. E, em resposta, o rapper diz: “Yeah, it looks perfect to me”— reiterando, dessa forma, o tema principal do álbum. Depois, ouvimos a bem falada colaboração de Travis com Drake, “MELTDOWN”, onde o convidado foi bastante elogiado por finalmente ter entregue uma performance carismática e consistente. E, em seguida, “FE!N”, a música mais caótica de todo o UTOPIA. Nessa, Scott se junta novamente a Playboi Carti e também a Sheck Wes — por meio da utilização de uma de suas performances na produção — e cria algo bem apoteótico, com diversas transições, alterações vocais e mudanças na percussão. Posteriormente, escutamos a magnífica voz de Beyoncé na maravilhosa “DELRESTO (ECHOES)”; a profunda “I KNOW ?”; “TOPIA TWINS”, com a participação de 21 Savage e Rob49; “CIRCUS MAXIMUS”; “PARASAIL”, cuja sonoridade foi apontada como uma das mais fracas do projeto, “SKITZO”; “LOST FOREVER”; a estupenda e enlouquecedora “LOOOVE”, cujo refrão é cativante, “K-POP”,uma das maiores decepções de 2023; “TELEKINESIS”, na qual a cantora SZA mostra as caras no terceiro e último verso e rouba completamente a cena e, finalmente, “TIL FURTHER NOTICE”.

 Por mais que Travis Scott tenha trazido uma coletânea muito interessante, com muitos dos maiores e melhores artistas do mainstream atual, a quantidade exorbitante de faixas sobressalentes inclusas ao montante não deixa de ser um enorme problema. É possível entender a razão por trás dessa decisão de Scott e suas gravadoras — quanto mais canções num álbum, mais números, e isso acarreta num ganho diário. Porém, não é como se isso fosse uma estratégia da qual o rapper realmente necessitasse. Travis é um dos músicos mais famosos e importantes do mundo. Independentemente se houvesse muitas ou poucas canções em UTOPIA, o álbum iria acabar sendo um sucesso do mesmo jeito. Se, convenientemente, o artista diminuísse o tempo de duração e cortasse, por exemplo, “K-POP”, que além de incrivelmente entediante e sem personalidade não combina nem um pouco com a sonoridade do projeto, o disco ficaria mais fácil, prático e, consequentemente, melhor em todos os aspectos.

 Então, terminado de ouvir UTOPIA, basta apenas dizer que o mesmo conseguiu dar uma continuação digna a sua carreira. O quarto álbum de estúdio do artista, por mais que falho, consegue acertar suficientemente para se firmar como um bom lançamento do gênero e ser lembrado pelo público como um ótimo disco. Presenciamos várias discussões sobre se, de fato, este projeto seria tão bom (ou, até mesmo, melhor que) quanto Rodeo e ASTROWORLD, porém isso é algo que apenas o tempo poderá nos dizer. Entretanto, algo que já se estabelece como uma verdade incontestável, é que o músico continua sendo ótimo e extremamente perspicaz em seu trabalho.

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