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Dirt Femme

2022 •

Pretty Swede Records/Independente

8.2
Em seu primeiro disco independente, Tove Lo mostrou que, mesmo após lançamentos estrondosos como Lady Wood e Blue Lips, ainda é possível se surpreender com uma obra synthpop envolvente e emocionante.
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Dirt Femme

2022 •

Pretty Swede Records/Independente

8.2
Em seu primeiro disco independente, Tove Lo mostrou que, mesmo após lançamentos estrondosos como Lady Wood e Blue Lips, ainda é possível se surpreender com uma obra synthpop envolvente e emocionante.
12/11/2022

Tove Lo sempre apresentou uma facilidade em transitar por temas considerados polêmicos para a maioria da população mundial — mesmo que comuns na construção da cultura pop em geral. Desde seu início de carreira, sexo, drogas e a revolução na imagem da mulher na sociedade foram temas centrais, tendo o eu lírico de suas composições, na maioria das vezes, incluído nessas realidades mais libertas de dogmas sociais ao se expressar sobre os diversos temas, como solidão, romances e dependência emocional. Mesmo existindo esse conceito em todos os trabalhos lançados pela cantora e compositora sueca, podemos classificá-lo como marca registrada de Tove, e não algo que a limita. Isso pois, apesar da temática similar em diversos discos, ela consegue mostrar diferenças significativas em suas composições, produções e até mesmo assuntos abordados nas letras. 

Apesar do Dirt Femme ser o primeiro álbum independente da artista, ela trouxe vários elementos de suas obras anteriores, principalmente o Lady Wood, de 2016 e sua continuação, Blue Lips, de 2018. Assim como nestes discos, a produção ficou sob responsabilidades da dupla sueca The Struts e Tim Deluxe, DJ e produtor inglês. Tove Lo é a compositora principal de todas as faixas, o que é louvável, já que o disco tem as melhores pontes e refrões desde seu single de lançamento, “Habits (Stay High)”. A junção da produção junto ao conteúdo lírico resumem o álbum em uma só frase: O melhor do synthpop e dancepop junto a um vocal poderoso, bem composto liricamente e emocionalmente elevado, seja no instrumental ou no vocal.

O disco se inicia com “No One Dies From Love”, transmitindo com sucesso a dor do abandono, do amor, da necessidade da ocitocina e dos picos emocionais por ela causados. Já na primeira faixa, percebemos a estética visual e sonora do álbum. A capa, o vídeo musical e até mesmo o vídeo de letra divulgado oficialmente no lançamento do single trazem elementos mesclados do futurismo com o passado digital dos anos 2000. Os vídeos e imagens são, propositalmente, em baixa resolução. Ainda assim, o uso de robôs e objetos futuristas nos trazem essa hilária mesclagem que, sem dúvidas, é a característica mais marcante no visual do single e de todo o disco. A produção fonográfica também nos apresenta ao restante da obra: picos emocionais causados por sintetizadores nas pontes da música, vocais poderosos trabalhados com sintetizadores dão uma sensação metálica porém muito humana à track, sentimento presente em quase todos os 39 minutos e 47 segundos do álbum.

Continuando com “Suburbia”, percebemos um encontro do eu lírico livre, desligada dos conceitos patriarcais e rebelde, com os dogmas sociais de família e monogamia. A resposta não poderia ser diferente: Tove Lo expressa não aceitar o comum, o precocemente proposto, o padrão.

O momento onde o conceito futurista com o passado digital anos 2000 fica mais evidente é na terceira faixa, “2 Die 4”. Tove nos traz conceitos mais modernos, dos relacionamentos atualmente digitais graças às redes sociais, como em “You don’t look like in your photo / you’re prettier than that” declarando sua admiração por seu romance usando conceitos mais atuais, como a percepção da aparência e autoestima prejudicada por selfies e a preocupação dos usuários com a fidelidade de suas fotografias comparadas com a realidade. O passado é transmitido com o sample da canção “Popcorn”, de Gershon Kingsley, que ficou muito conhecido na versão remixada lançada pelo famoso Crazy Frog (ou Sapo Maluco, em português), personagem que ganhou a internet nos anos 2000 com vídeos animados de música eletrônica.

A faixa subsequente, “True Romance” é o clássico sofrimento shakespeariano de uma paixão exagerada, que confunde se é amor verdadeiro realmente. Aqui, o dancepop fica de lado, e a canção — apesar do uso de sintetizadores — ganha um ritmo de balada romântica e de sofrência. Músicas como essa são importantes em discos como esse, que, embora sejam mais frenéticos, animados e dançantes, precisam demonstrar um lado mais sentimental e uma capacidade vocal e emocional mais forte por parte da artista. E, sem dúvidas, ela consegue fazer isso com maestria. É comum Tove inserir, em suas obras, músicas com esse ritmo, como “True Disaster”, em Lady Wood.

Ainda que iniciando com um instrumental mais animado e voltando ao dancepop, a faixa seguinte, “Grapefruit” aborda temas mais complicados e demonstra uma vulnerabilidade psicológica da própria artista. Relatando seu sofrimento com a bulimia, com a aceitação de seu corpo e com a pressão estética muito comum em artistas femininas pelo histórico machista da sociedade, que lhes demanda — além de talento e vocação musical — um corpo esbelto, comercialmente mais vendido para a mesma sociedade problemática que consome aquele tipo de arte. 

A colaboração com First Aid Kid chega como uma transição de algo menos emocionalmente instável para algo mais frenético e animado. A letra não tem tantos elementos complexos, o que não a deixa pior ou melhor. O local onde as artistas se encontram é no isolamento da realidade ocasionado por uma conexão única, olhares que perfuram a alma e nos fazem ignorar a realidade à nossa volta. Apesar de sintetizadores nos vocais de Tove Lo e do duo First Aid Kid, o principal instrumento musical usado foi o violão, causando um contraste enorme quando inicia “Call On Me”, parceria com o artista inglês SG Lewis — trazendo mais evidentemente o synthpop e o dancepop, no nível astronômico e animado, como nos últimos lançamentos do cantor norte-americano The Weeknd ou “Physical”, single da artista inglesa Dua Lipa.

Assim como na primeira faixa e no meio do disco, a presença dos sintetizadores fica mais forte e evidente, trazendo uma expectativa enorme para a canção que segue “Call On Me”. As expectativas são superadas de modo fenomenal. É impossível não dançar com “Attention Whore”, colaboração com Channel Tres. É divertida, animada, metálica, psicodélica e em muitos momentos, excitante (sim, sexualmente falando). É surpreendente como uma música que relata a necessidade doentia e exagerada da atenção social causa no ouvinte a necessidade de dançar, freneticamente e sentindo cada batida sintetizada pulsando nas veias. Frequentar uma boate que toque Tove Lo após esse lançamento deve ser uma dádiva, momentos que merecem ser sentidos. O que causa ainda mais alvoroço, é que, em “Pineapple Slice”, também colaboração com SG Lewis, essa emoção continua, mesmo que desacelerando um pouco e criando uma dança mais lenta. Ademais, nesse momento do disco percebemos como estamos presenciando um álbum muito bem feito. Pensado, arquitetado e produzido para causar as emoções mais puras do ser humano. E é incrível, como qualquer um (maior de idade), quando falamos de Tove Lo, consegue dançar ao som de uma música sobre os sentimentos causados por um sexo oral, como aqui, fazendo analogias a fatias de abacaxi, literalmente.

Após toda animação e dança causadas pelas músicas do meio do álbum, começamos a chegar no final. “I’m to Blame” se inicia, assim como em “True Romance”, mais sentimental e lenta. Apesar de ser uma ótima produção, o local onde foi inserida na lista de faixas é um erro. No meio das músicas mais animadas da obra, o ouvinte tende a pular a canção caso esteja em uma vibe animada, dançante e excitante. Porém, de fato, nos momentos mais sinceros, interpessoais e de reflexão é uma ótima música para tornar trilha sonora, relatando assuntos complexos como a inveja, ansiedade e culpa.

“Kick in The Head”, a décima primeira, traz novamente os elementos animados vistos no início do disco assim como “How Long”, que apesar de inicialmente ter sido lançada como canção promocional para a série norte-americana Euphoria, casou-se perfeitamente no disco por trazer toda temática e instrumentalização já presente.Assim como em Blue Lips, Tove Lo conseguiu repetir seu feito em Dirt Femme. É uma obra tão bem pensada e produzida que consegue ser, além de mais um álbum dançante para tocar em momentos mais animados, um encontro fidedigno entre o ouvinte, seu corpo e seus sentimentos. É para dançar, sofrer, sentir. É perceber, junto aos movimentos involuntários, a sensação de liberdade que Tove Lo tanto recita e prospera. É entender, livre de tabus, a importância da sexualidade, da autoestima, do respeito a si próprio. É respeitar sua realidade, onde está, onde quer chegar e fazer isso respeitando a regra mais importante da vida: divirta-se no caminho. No final de tudo, estamos todos — ou quase todos — somente com muitas fraquezas a serem resolvidas e muito, mas muito tesão para ser aliviado.

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Apesar de não trazer nenhuma novidade para a indústria e para sua discografia, “Borderline” é uma ótima forma de estender a vida útil do álbum “Dirt Femme” e se manter atual ao mercado fonográfico
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