I Don’t Live Here Anymore
2021 • ROCK • ATLANTIC
POR LEONARDO FREDERICO; 16 de NOVEMBRO de 2021
7.9

Os primeiros trabalhos da banda norte-americana The War on Drugs se baseavam nas referências mais óbvias e habituais de um grupo emergente de rock estadunidense: Bruce Springsteen, Bob Dylan, Wilco, The Rolling Stones e Nick Cave. No caso da banda formada na Filadélfia, liderada por Adam Granduciel, essas influências tinham um poder diferencial. Enquanto a escrita do vocalista era frequentemente comparada a de Springsteen negativamente, como se Granduciel estivesse, de alguma forma, apenas copiando o canônico dos anos 1980, Cave e sua banda apareciam como inspiração para mostrar que músicas podiam ir além de uma unidade finita: elas podiam adotar um caráter etéreo. 

Durante seus quatro primeiros discos, o The War on Drugs colocou suas forças no empenho de aprimorar cada vez mais seu som e composição, ambos fatores que, com o tempo, tornaram-se mais afiados e mais fáceis de associar. Enquanto sua estreia, o Wagonwheel Blues, de 2008, foi um disco relativamente morno, um primeiro passo baseado quase que inteiramente em suas influências, os trabalhos que se seguiram foram essenciais na criação da personalidade do grupo. Ao mesmo passo que Slave Ambient, de 2011, mostrou o grupo mirando em letras mais diretas e complexas, Lost in the Dream e A Deeper Understanding, mostram eles refinando e esmerando seu som, criando atmosferas bem trabalhadas em detalhes meticulosos e camadas que faziam o ouvinte se sentir, em um bom sentido, soterrado. Seu último lançamento, I Don’t Live Here Anymore, ainda que não seja seu melhor trabalho, está entre os melhores lançamentos da banda até hoje. 

Por mais que seja mais fraco que seus últimos lançamentos — provavelmente por adotar menor ousadia comparado aos seus últimos discos, visando algo mais nítido e reconhecível, deixando de lado sua ambição suspicaz —, I Don’t Live Here Anymore é a expansão do universo da banda. As influências de Springsteen e Dylan ainda aparecem pinceladas na composição, ou, em um momento mais específico, num solo de gaita aguda. Em conjunto, momentos nebulosos, embora mais ou menos potentes, aparecem aqui e ali, ainda dando espaço para que ambientação misteriosa e sufocante referente da banda possa existir, acompanhada de um lirismo que atinge um novo patamar distintivo. É um disco homogêneo, melancólico e aliviante, lindo e inspirador.

Uma das melhores características dos trabalhos da banda é sua capacidade de colocar todos seus esforços no presente. Anteriormente, seus discos foram elogiados como “preocupados com a jornada, e não com o destino final”. Isso se reflete aqui também, com grande parte das canções rodando esse sentimento de se perder no presente, e não criar uma situação de depressão ou ansiedade intencional. Até mesmo os momentos referenciados, como “memórias”, são unicamente sobre as influências disso no presente. No tempo em que outras bandas utilizavam do passado ou do futuro como matéria prima para suas obras, o grupo de Granduciel tinha uma abordagem mais vigente, que, também, podia ser mais dolorosa devido a sua característica hodierna: a dor estava aqui, com você, não era algo quete deixara ou chegaria algum dia. I Don’t Live Here Anymore é, em outras palavras, sobre o processo, e não sobre o resultado. 

Esse fator pode ser observado em grande parte das faixas do disco.  “Living Proof”, a abertura, por exemplo, entrega um dos momentos mais simples da discografia da banda, tendo seu início pautado em acordes de violão perdidos sobre o brilho ofuscado de notas soltas de um piano. Enquanto isso, a composição trabalha a ideia de você estar correndo de algo, mas sem saber exatamente do que e para onde você está indo. “But I’m rising / And I’m damaged”, o vocalista canta. Em outros instantes, essa circunstância de inquietação da alma perante uma vontade de transformação se torna mais viva. Em “Change”, por exemplo, apesar do protagonista ter um objetivo — sua amada —, seu foco ilustrativo é sua viagem. “I’m out here dying in the heat / Oh, what am I to find?”, ele canta. Mais tarde, em “Wasted”, sua perseguição pela metaformose se torna ainda mais epifânica: “I don’t need to make you mine / I don’t need to compromise” e “I’m just wasted, baby, lost and learning”. Existe uma valorização suprema sobre amadurecimento na discografia de The War on Drugs, e eles fazem disso sua máxima. 

As melhores músicas do álbum são aquelas nas quais esse caráter se intensifica ainda mais. “I Don’t Wanna Wait” é a melhor música do álbum. A faixa começa com a volta da experimentação raiz que fez a banda ser quem eles são: sintetizadores industriais se misturam em harmonia com toques de sons quase divinos. Com uma construção perfeita de versos, a crise de Granduciel perante a mudança se torna mais aguda: “I don’t wanna wait / But I’m turning to you / I’ll stop / Am I breaking you down?”, ele canta no refrão. Por outro lado, a faixa título apresenta uma composição mais afiada e um som mais pé no chão, ainda que dê continuação para o existencialismo. “Time surrounds me like an ocean / My memories like waves / Is life just dying in slow motion? / I’m getting stronger every day”, Adam canta. No final do disco, “Occasional Rain” surge com o simbolismo de mudança em essência: a chuva, o rio e a água. “It’s only some occasional rain” é a última frase do disco e estabelece uma dúvida interessante: o que é ocasional? A mudança ou um estado de sua vida?