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Wall Of Eyes

• XL

• 2024

8.5

Sem pressa, indo do rock ao jazz, The Smile brilha explorando cada ambiente com uma pulsão conquistadora emanada de sua capacidade hipnótica aterrorizante.

Wall Of Eyes

• XL

• 2024

8.5

Sem pressa, indo do rock ao jazz, The Smile brilha explorando cada ambiente com uma pulsão conquistadora emanada de sua capacidade hipnótica aterrorizante.

PUBLICADO EM: 30/01/2024

PUBLICADO EM: 30/01/2024

Nem dois anos separam Wall Of Eyes, do primeiro álbum de The Smile, A Light For Attracting Attention. O espaço de tempo justo permite situar com pulso as similaridades entre os registros, porém mudanças de direções e escolhas mais bem acertadas são perceptíveis. A banda provavelmente nunca vai fugir de comparações com Radiohead; ela nem tenta isso. Sua formação contemplando integrantes da configuração original pesa nas similitudes, bem como a sonoridade e a composição investida. Álbuns como Kid A e o trato experimental de In Rainbows ressoam nas entrelinhas vagarosas e abstratas do novo caminho que Thom Yorke e Jonny Greenwood constroem junto ao baterista Tom Skinner. 

O segundo disco chega a partir de uma construção mais encorpada e reduzida, somando um total de oito músicas. The Smile enxuta a lista de faixas em relação ao anterior, mas permite que a musicalidade vibre com intensidade ao alongar a minutagem delas. Esse é o principal vacilo do álbum de estreia: sua estrutura alongada empobrece as canções finais por cair em maneirismos repetitivos — sem desconsiderar a qualidade delas. Por outro lado, Wall Of Eyes aciona uma instrumentação muito bem orquestrada, direcionada e conhecedora do seu espaço. Gravado no Abbey Road Studios, o registro conta com a colaboração do conjunto de músicos da Orquestra Contemporânea de Londres — a mesma que acompanhou Radiohead no último trabalho do grupo, A Moon Shaped Pool (2016) — garantindo grandiosidade e dramaticidade ímpares. 

O passo inicial da banda é um material muito bem recebido, apesar de seus vícios que tornam a condução final maçante. Reconhecendo esse trajeto, Wall Of Eyes trabalha com criatividade para trilhar um caminho oposto, mais expandindo e digno de experimentações enriquecedoras que contrastam à timidez de A Light For Attracting Attention. O que garante a esse novo registro seu apreço e reconhecimento se denota por sua ambição, flexionando gêneros complexamente e investindo em estruturas sonoras e progressões intrigantes. Irradiando a bossa nova solar da música que o inicia — que também é a faixa-título — o álbum desbrava o rock, o pop, o jazz e o folk. E, sinceramente, The Smile se sai melhor operando essa estranheza sonora que cativa com sua atmosfera assustadora e nebulosa. 

Canalizando a sonoridade excêntrica, o lirismo do registro vaga na obscuridade e na incerteza. “Wall Of Eyes” se apoia numa relação com o cotidiano digital e a completa vigilância, um sentimento de exposição e julgamento extremos; transpondo-se facilmente para fora das redes também. Nesse cenário, “a parede de olhos” embute questionamentos sobre moralidade e comportamento, complexificando as relações humanas. Desde o início, o ambiente espantoso é muito bem firmado pela aura cinematográfica alucinante que paira no álbum — não por acaso o material é acompanhado por um filme compilando videoclipes dirigidos por Paul Thomas Anderson, parceiro de longa data de Yorke. O disco se comporta como uma viagem desorientada em busca de reconhecimento e de significado no mundo. Assim, traços na composição indicam um segmento específico que guia até a suicida “Bending Hectic”. A última linha da faixa-título evoca essa jornada: “So strap yourself in (One, two, three, four, five)”, uma contagem que dispara rumo adentro do turbilhão sentimental conflitante.

Esse arcabouço lírico reverbera em outros momentos, como o refrão repetitivo de  “Under Our Pillows” encontrando relação com “Wall Of Eyes”: “Nowadays everyone’s for sharing”. Esta faixa que, entre seus inúmeros espaços variantes — como o início mais limpo em contraste ao vocal de fundo esparso que desemboca no final excessivamente ruidoso e desconcertante — seus acordes iniciais relembram “Thin Thing” do disco passado, como se adicionados em alguns tons acima. A monumentalidade é aparente com “Bending Hectic”, música que, sem rodeios, é a melhor da banda até então. Emprestando a simplicidade da anterior “I Quit”, a adição fantasmagórica do violino cativa gradativamente, produzindo uma angústia sufocante que preenche o espaço até extravasar na explosão de guitarra em seu final. A viagem proposta no começo do álbum desperta ares conclusivos com uma reflexão mais afiada e direta: “The ground is coming for me now / Wе’ve gone over the edge / If you’ve got something to say / Say it now”. O piano tranquilo de “You Know Me!” propõe o encerramento da jornada divagante, esboçando como reflexo das ações anteriores um completo desconhecimento e imprevisibilidade da persona retratada, seja por subestimá-la ou não: “Don’t think you know me / Don’t think that I am everything you say”. 

Outros realces não podem escapar, como os sintetizadores de “Teleharmonic” e sua construção gradativa, contando com o vocal de Yorke mais destacado e a belíssima adição de flauta. “Read The Room” é outra faixa que relembra o disco passado, mas destaca-se por sua reverberação psicodélica, acompanhando o vocalista investido numa performance mais alongada e dissipada, quase que uivante, especialmente ao final. O piano de “Friend Of A Friend” trabalha uma balada relatando tempos pandêmicos e o cantarolar nas varandas da Itália, como vários vídeos que viralizaram no período dos lockdowns: “All the window balconies, they seem so flimsy as our / Friends step out to talk and wave and catch a piece of sun”. Os versos destacam-se por explorarem uma simplicidade contida em contraste à grandiosidade acelerada do refrão e seu pós, realçando também a presença do sofisticado e majestoso saxofone.

Excetuando “I Quit” e “You Know Me!”, o restante do álbum já era conhecido pelos ouvintes nos concertos do grupo, faixas que foram apresentadas ao público entre 2022 e 2023 que agora tomam forma em uma sinfonia cataclísmica exuberante. O que antes soava apenas como um desinibido projeto paralelo ao Radiohead, ganha espaço e destaque para trilhar sua própria narrativa; mesmo que comparações sejam inevitáveis e que os mais saudosistas ditam essa iniciativa como uma gravação de b-sides de uma das maiores bandas de todos os tempos. Cada faixa de Wall Of Eyes tem espaço para condicionar seu próprio desejo e crescer a partir dos vocais caóticos de Yorke, das cordas sublimes de Greenwood e da bateria expressiva de Skinner — assim como a monumentalidade da Orquestra Contemporânea de Londres. Sem pressa, a produção se lança em espaços abertos e convulsionais, manuseando com destreza a introspectividade e a exaltação. Nessa relação, a banda brilha explorando cada ambiente com uma pulsão conquistadora emanada de sua capacidade hipnótica aterrorizante.

MAIS CRÍTICAS PARA

O disco de estreia de The Smile é o trabalho “mais Radiohead” lançado pelos membros da banda de Oxford fora de seu eixo principal.
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