A Light for Attracting Attention
2022 • ROCK • XL
POR LEONARDO FREDERICO; 19 DE MAIO DE 2022
8.0

Embora o Radiohead seja uma das maiores bandas da história do rock alternativo, seus membros nunca pareceram satisfeitos apenas com ela. Em outras palavras, era como se cada um dos garotos de Oxford tivesse procurando uma forma não oficial para colocar em prática seus experimentos sonoros. Enquanto Thom Yorke, em sua carreira solo, já lançou três discos, entre eles o incrível ANIMA, de 2019; Jonny Greenwood, para além de ter realizado diversas trilhas sonoras para filmes, fez registros colaborativos com Krzysztof Penderecki.  Ed O’Brien, por sua vez, sob o nome artístico EOB, lançou Earth em 2020; seguindo para Philip Selway, com seus dois álbuns solos, e Colin Greenwood e sua participação como baixista em diversas obras, incluindo algumas de seu irmão. 

The Smile é mais um projeto paralelo ao Radiohead. Dessa vez, é a fusão de Yorke com seu parceiro de composição, Jonny, em conjunto com Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet e colaborador de longa data de  Floating Points e Kano. Segundo o vocalista, a inspiração do nome não vem de um riso positivo, mas sim do sorriso sagaz que uma pessoa faz quando ela mente para você.  A Light for Attracting Attention é o disco de estreia deles, bem como um dos trabalhos mais curiosos feito pelos membros do Radiohead fora do eixo principal. Para além, o registro é também a primeira realização colaborativa entre Thom e Greenwood fora do show central, o que faz dele ser o projeto “mais Radiohead” fora do Radiohead. 

É impossível ouvir A Light for Attracting Attention e não lembrar de algumas obras em específico, grande parte deles do Radiohead. Isso se dá pela presença dos dois membros da banda de Oxford. Inicialmente, a voz de Thom trabalha dentro dos mesmos moldes desde que o grupo começou a se adentrar no experimentalismo no final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, com Ok Computer e Kid A. São vocais sombrios e uivantes, que parecem lutar como fantasmas em um limbo do esquecimento. Em seguida, temos as guitarras e sintetizadores de Greenwood, trabalhando em conjunto com Nigel Godrich, produtor de longa data dos meninos. Esses elementos culminaram na criação de algo que poderia enganar qualquer se alguém afirmasse que esse é mais um registro do Radiohead.

Por mais que a banda, ao longo dos mais de 20 anos, tenha tentado se reinventar ao máximo, A Light for Attracting Attention parece, em alguns momentos, seguir uma linha contrária. Não estou dizendo que esse material é repetitivo, pelo contrário, é um salto nostálgico no passado e traz à tona diversos fundamentos da discografia deles. “The Same”, por exemplo, começa com sintetizadores e puxões em um baixo que parecem ressoar os sentimentos sombrios e mórbidos de Kid A. Em seguida, na mesma, a composição de Yorke reflete o certo viés abstrato que ele sempre usou como marca de sua caneta. “We don’t need to fight / Look towards the light / […] / People in the streets / Please / We all want the same”, ele canta, como se tivesse afirmando a existência de amálgama que une todos os seres humanos. Isso, na realidade, reflete a forte presença de uma característica estrutural na escrita de Thom: seu tormento é causado pelas pessoas, mas, de certa forma, sua esperança está neles também. 

Grande parte das canções segue esse molde. “The Opposite”, uma das mais táteis do álbum, tem seções de bateria que relembram as gravações acústicas de In Rainbows em From the Basement, seguidas por sintetizadores cavernosos de Kid A e solos de cordas remanescentes dos primeiros discos. Da mesma forma, “Speech Bubbles” e “Open the Floodgates” se estruturam sobre pilares de sons atmosféricos, enquanto alguns sintéticos rodeiam o canal estéreo como fantasmas; e “The Smoke”, com riffs de baixo, recria o sentimento policio de Yorke em uma música de protesto metafórica. Eu não diria que essas faixas são, propriamente, surpresas já que a maioria desse som já foi ouvido anteriormente. No entanto, elas trazem um certo gosto de saudades visto que já fazem seis anos que o Radiohead lançou uma obra totalmente original — tirando relançamentos e edições comemorativas.

Por outro lado,  “Open the Floodgates” ressalta um lado negativo de A Light for Attracting Attention: um certo excesso. Enquanto nos primeiros segundos, o disco soa especial e caloroso, nos instantes finais, ele perde sua velocidade e ritmo, recaindo sobre uma reprodução de ideias. Em nenhum momento, as últimas canções perdem qualidade, mas não parecem ir muito além daquilo que foi mostrado até ali, debruçando sobre uma certa redundância sonora e, até mesmo, lírica. Voltando para “Open the Floodgates”, no exemplo, ainda que ela tenha um caráter sonhador e sutil, não é forte o suficiente para não parecer um filler. Nessa última parte, apenas “A Hairdryer” consegue se destacar pelas cordas e sopros. No final, A Light for Attracting Attention mostra que o Radiohead tem muito para apresentar, principalmente se eles estiverem em sua formação original.