Pressure Machine
2021 • ROCK • ISLAND
POR LEONARDO FREDERICO; 20 de AGOSTO de 2021
7.3

Nephi é uma cidade pacata no interior do estado de Utah, nos Estados Unidos. Com uma população estimada de pouco mais de 6 mil pessoas, o lugar não é palco de nenhum evento que saia do escopo do cotidiano de qualquer outro município calmo, monótono e vagaroso. Segundo Brandon Flowers, o vocalista do The Killers, que passou parte de sua infância e adolescência morando na cidade, esse é um local sereno, de gente bondosa, simples e caridosa que possui uma grande montanha como quintal, mas que devem tomar cuidado para não entrarem nas estatísticas de pessoas atropeladas pelo trem que corta a cidade.

Nephi é a grande inspiração para o sétimo álbum do The Killers. Após mais de um ano em quarentena devido à pandemia da COVID-19 e o lançamento do sexto álbum da banda, Imploding the Miracle, no ano passado, o sentimento de isolação conduziu Flowers a revisitar sua cidade natal. Essa varredura nostálgica resultou em Pressure Machine, um dos melhores álbuns do grupo formado em Las Vegas, mostrando as histórias e as vidas dos moradores da pequena cidade. Utilizando de gravações de entrevistas com os residentes, Flowers, em cada faixa, encarna diferentes perspectivas ou narra, com uma composição calibrada, suas narrativas diversas. “‎Quando percebi que elas (histórias) iam acontecer aqui (Nephi) e que seriam verdadeiras, tudo realmente caiu em nossos colos”, Flowers, que agora soa incrivelmente mais maduro, disse em uma entrevista com a Rolling Stones. 

Durante uma parte de Pressure Machine, o The Killers consegue transportar você para a pequena Nephi. Na abertura, por exemplo, ao lado de uma instrumentação suave e simples, mas elegante, Flowers narra sua própria experiência na cidade. Ele começa: “I was born right here in Zion, God’s own son / His Holy Ghost stories and bloodshed never scared me none”, e completa depois: “If this life was meant for proving / I could use more years to live / But fifteen in a guardhouse / That’s more than I’m willing to give”. Em uma matéria do Apple Music, Flowers disse: “‎Quando você é criança, você está tendo novas experiências o tempo todo, então quando algo chocante ou trágico acontece, isso realmente ressoa. Essas experiências estavam me puxando”. Em Pressure Machine, The Killers mostra os dois lados dessas experiências, tanto como crianças quanto adultos.

O álbum é fortemente influenciado por Bruce Springsteen, com quem o The Killers recentemente se uniu em uma nova versão de “A Dustland Fairytale”. Essa influência é refletida nas gaitas que predominam em algumas das melhores canções dos discos e na simplicidade das cordas secas e empoeiradas. Isso pode ser facilmente visto em “Quiet Town”, uma faixa que se volta com um olhar carinhoso para as pessoas de Nephi. Todavia, apesar dessas das diversas qualidades estéticas e inspirações em Springsteen, a canção está longe de atingir o patamar de “The River”, de 1982, “Hometown”, de 1984, ou qualquer coisa que Bruce tenha feito em Nebraska. Já “Terrible Thing”, por outro lado, evidencia inspirações na composição de Neil Young, que apesar de não ter sido oficialmente confirmada, podem ser observadas nas formas que as linhas são detalhadas e construídas, além de também mostrar a inércia dos livros de Sherwood Anderson e John Steinbeck.

Porém, conforme o álbum avança, parece que Flowers e a banda se distanciam cada vez mais e mais da cidade. Isso se deve pela sonoridade que o disco adota na segunda metade, largando as cordas e percussões mais cruas para optar por sintetizadores que enriquecem e enfeitam as guitarras e baterias. Em outras palavras, eles começam a soar mais como um grupo de jovens que acabaram de chegar em uma grande cidade do que uma banda que ainda está em sua cidade natal. Isso fica claro, por exemplo, em “Cody”, que, apesar de ter uma das melhores composições do trabalho, tem uma sonoridade que nem sempre soa concreta e firme, além de possuir um solo de guitarra que, por mais que seja ótimo, não combina com todo o conceito que o grupo estava implicando no disco.

E, infelizmente, a grande parte das faixas daqui para frente são todas relativamente boas — algumas ótimas —, mas elas nunca conseguem se encaixar no cenário ou ter o efeito catalisador de te transportar fortemente para o ambiente que a banda deseja que você veja. “In The Car Outside”, por exemplo, conta com sintetizadores oitentistas que parecem sair de algum disco pop do ano passado. Enquanto isso, “Sleepwalker” é facilmente remanescente dos trabalhos de bandas pop-rock alternativo do início dos anos 2000, “Desperate Things” até consegue voltar a seguir a linha do projeto, mas a produção complexa nos vocais e nos instrumentos não satisfazem o desejo de algo mais rústico.

Na reta final, e em alguns momentos ao longo do disco, Pressure Machine vai e volta para Nephi. Em “Runaway Horses”, por exemplo, até consegue seguir a narrativa que eles pretendiam, mas Phoebe Bridgers, que colabora nessa canção, raramente consegue um espaço para respirar. Enquanto isso, “In Another Life” mostra questionamentos sobre uma vida que poderia ter acontecido e a faixa-título consegue soar bem no disco com uma produção e uma letra afiadas ainda que não se encaixe perfeitamente dentro de todo o cenário. Contudo, é só em “The Getting By” que a banda volta para dizer adeus, soando um pouco como Lord Huron. Nos segundos finais, uma mulher, que parece velha, fala sobre seus netos que correm para ver o trem passar: “When it comes through, they run out and they look down the road / Because they like to see it go by”. Diferente do trem que passa e não volta, The Killers revisita seu passado algumas vezes. Não é tão fácil quanto ver um trem, mas eles fazem bem quase sempre.