Gêmeos
2022 • INDIE ROCK/ALTERNATIVO • BALACLAVA RECORDS
POR BRINATTI; 16 DE MARÇO DE 2022
8.0

Na década de 1990, o rock alternativo tornou-se popular nos Estados Unidos e no Reino Unido devido ao enquadramento de artistas que não se caracterizavam no que poderia vir a ser considerado como uma referência clássica. No sentido em que, mesmo estando alinhado e fazendo uma alusão ao padrão contagiante, a música possuía elementos que a distanciavam das características principais, tais como a estética e a melodia que eram, e ainda hoje, são influenciadas pela identidade musical de determinado contexto social, resultando, de forma direta, no comportamento artístico e também na denominação desse subgênero.

No Brasil isso não foi diferente, aspectos esses que são considerados importantes para a construção dessa categoria, aqui é definido pela “sonoridade de garagem”, questão marcante que passa uma pegada experimental. Nesse sentido, é perceptível o crescimento de bandas independentes que surgiram e tiveram o seu destaque trazendo essas influências artísticas de décadas anteriores para dentro de suas obras. Entre elas está Terno Rei, que desde o seu início em 2012 se abdicou de fatores que transgrediram a vertente desse gênero no país, criando uma identidade única e estabelecendo um elo entre problemas e questionamentos que dialogavam com a juventude. 

O grupo lançou seu primeiro disco, intitulado Vigília, em 2014, que foi um projeto simples, mas que ainda assim possuía a sua relevância. Diante de peças marcantes, se nota as instrumentalizações inquietantes que davam harmonia para as canções carregadas de melancolias. Essa Noite Bateu Como Um Sonho, de 2016, proporcionou algo desafiador, onde é perceptível que eles se distanciaram da estética amadora, trazendo um visível amadurecimento na sua composição. Em 2019, Violeta surgiu como um divisor de águas, fugindo totalmente dos vieses que marcaram os seus antecessores, acarretando no indie pop e provocador, fazendo com que as vozes sobrepusessem os instrumentos, algo que não ocorria anteriormente, passando a obter letras esperançosas e um sentido romântico mais aflorado.

Dando continuidade aos trabalhos, após três anos retornaram e disponibilizaram na última semana o álbum Gêmeos. Em entrevista ao POPline, o grupo explica que o título se dá em decorrência à característica controversa do signo do zodíaco, como se fosse uma provocação amigável, sendo ela uma ambiguidade interessante. Das 12 faixas que o compõe, já haviam sido divulgados três singles promocionais, dentre eles estão “Dias da Juventude, “Difícil” e “Aviões”, que alcançaram uma estrutura única e íntima, onde teve breve impressão do que estava por vir, percorrendo reflexões, perspectivas e expectativas baseadas em sentimentos que conversam entre si em meio ao sentimento de nostalgia.

Diferente do seu antecessor, nota-se agora a euforia que não eram visíveis nos versos, o que antes vinha traçar uma melancolia constante, aqui ficaram marcadas perante ao pop dançante, com um carátermais alegres e sutil, e mesmo que em momentos pontuais as características melódicas culminam na sensação de tristeza, elas acabam passando despercebidos em decorrência de ser bem estruturada.

Na faixa “Esperando por você”, a calmaria se destaca em meio a interligação dos vocais suaves explorando sensações de estar preparado para algo novo, principalmente a necessidade de levar situações como essa de forma leve, já que em determinadas ocasiões não podemos oferecer aquilo que se espera da gente. “Sorte Ainda”, é um dos maiores destaques dessa era, possuindo um jogo rítmico que se conecta profundamente com os instrumentos em meio a frases profundas e de efeito. É perceptível como a música impacta nossos próprios sentimentos, fazendo com que nossas emoções fiquem afloradas. Nesse sentido, a sua totalidade pode ser descrita por trazer fatores que colaboram com essa sensação, tanto que, nas canções “Brutal”, “Internet” e “Só Eu Sei”, por meio de batidas acentuadas, é notório os destaques que vem da sensibilidade impregnada.

Em “Retrovisor” a banda parece ter encontrado respostas que procuravam desde “Sinais” lançado em 2016. O que antes parecia ser uma busca intensa, que ecoavam através de repetições constantes: “Sinais, sinais, sinais, sinais / Espero te encontrar sinais”, aqui eles confirmam que tiveram um retorno desse pedido ao continuar com a narrativa antes exposta, declarando que acharam o tal dos sinais. A canção é uma das que visivelmente se encontra novos experimentos, na qual se constrói uma ponte com “Isabella”, onde estabelece a disposição de uma variação sonora, fazendo com que Ale Sater viesse adaptar seus vocais de maneira inteligente, se constituindo como peça fundamental para a sua construção, tendo o seu desenrolar narrado pela busca de esperança e resultados positivos. 

Perante guitarras distorcidas e uma ousadia mais manifestada, Terno Rei, em Gêmeos, mostrou ainda mais a sua liberdade artística. O seu olhar para o passado, tanto na busca por elementos que o caracterizavam, quanto para relembrar de situações que ocorreram anteriormente que compactuaram para a sensibilidade presente no disco, foram relevantes para o seu desenrolar. O seu desfecho com “Trailers” e “Olha Só” culminaram perfeitamente com a sensação de buscar ocasiões específicas que marcaram a vida de maneira positiva ou não, e que tem a necessidade de deixar descansando no passado. Pode até ser que venha remeter ao seu antecessor, mas ficou ainda mais evidente como eles fizeram questão de ir além daquilo em que estavam acostumados, realizando uma obra totalmente singular mesmo diante de diversas pluralidades.