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Speak Now

2010 •

Big Machine

8.8
Para celebrar seu terceiro relançamento, hoje, na SoundX, faremos uma análise profunda e crítica do terceiro disco de estúdio de Taylor Swift, seu trabalho mais autoral até hoje.
Taylor Swift - Speak Now

Speak Now

2010 •

Big Machine

8.8
Para celebrar seu terceiro relançamento, hoje, na SoundX, faremos uma análise profunda e crítica do terceiro disco de estúdio de Taylor Swift, seu trabalho mais autoral até hoje.
02/07/2023

Certo dia, em meados de 2010, Taylor Swift havia ido almoçar com Scott Borchetta, o CEO da gravadora da cantora na época. Nessa casualidade, em meio a refeições, drinks e sobremesas, Swift tocou algumas das canções que ela havia trabalhado nos últimos meses e logo em seguida, revelou o nome do álbum que pretendia lançar nos próximos meses: Enchanted. Borchetta, olhou cético para Taylor e disse: “Taylor, esse álbum não é mais sobre contos de fada e o colegial. Você não está mais neles, e não acho que ele deva se chamar Enchanted”. Swift se levantou da mesa do restaurante e saiu por alguns minutos. Quando ela voltou, ela apresentou o novo nome: Speak Now. Scott, dessa vez, pareceu mais feliz: “O mais perto possível de representar a evolução em sua carreira e seu entendimento ainda imaturo do mundo”, ele afirmou em uma entrevista naquele ano. Ainda com os seus vinte anos, vivendo como uma estrela na sombra do sucesso de Fearless, de 2008, Swift estava aprendendo que o mundo, de fato, era muito mais difícil do que um conto de fadas. 

Poucos meses antes do encontro com Borchetta, Swift passou pelo evento que seria o marco inicial para o desenvolvimento de Speak Now. Foi no Grammy de 2010, no qual Swift venceu quatro gramofones, incluindo Álbum do Ano por Fearless, e cantou “You Belong With Me”, com Stevie Nicks, que tudo mudou de rumo. Enquanto era questionado se o registro de Taylor era melhor que os outros projetos: Beyoncé, com I Am… Sasha Fierce, e Lady Gaga, com The Fame — e apenas para deixar claro, era —; não demorou para que críticas com a performance vocal dela surgissem. Rapidamente, a mídia comentou os instantes desafinados de Taylor, com o Bob Lefsetz dizendo que Swift, simplesmente, não sabia cantar. E até aqueles que tentaram defendê-lá, pisaram em ovos: o New York Times disse que é emocionante ver um talento novo fracassar, ao passo que Borchetta comentou que, por mais ela não fosse uma boa cantora em técnica, era totalmente emotiva. Essa noite, mais do que aquela do VMA de 2009, foi decisiva para Taylor, mas não pelas suas vitórias, mas por aquilo que ela ainda precisava provar para si mesma e para os demais.

Naquela época, Swift já enfrentava dúvidas sobre suas habilidades. Em conjunto de críticas que debruçaram sobre seu canto, havia também pessoas que questionavam se a cantora realmente escrevia suas próprias canções, como ela afirmava. Isso foi outro fator determinante para o processo de criação de Speak Now. Durante o lançamento do disco, Swift disse que seu terceiro álbum tinha sido escrito totalmente sozinha devido ao fato da cansativa agenda da Fearless Tour, que impossibilitou com que ela tivesse contato com outras pessoas para colaborar e, logo, seria mais fácil fazer tudo sozinha. “Eu tinha as minhas melhores ideias às três da manhã e não tinha um co-roteirista por perto, então simplesmente terminava”, ela disse ao Songwriter Universe em 2010. Todavia, anos mais tarde, ela confirmou, tanto em 2014 para a revista Time, quanto em 2019 para a Rolling Stone, que ela havia entrado na missão de provar seu valor escrevendo um disco inteiro sozinha: “Quando eu tinha 18 anos, pessoas diziam: ‘Ela realmente não escreve essas músicas’. Então, meu terceiro álbum, escrevi sozinha como uma reação a isso”, disse Taylor para a Rolling Stone. Esse era um tipo de comentário que, assim como de Borchetta, levaria-a para um lugar melhor.

Enquanto Swift ainda estava na turnê de Fearless, ela voltou para o estúdio. Por mais que ela pudesse pagar pelos melhores locais, equipamentos e profissionais, ela preferiu seguir com Nathan Chapman — com quem ela já tinha uma relação de maior confiança — e seu Pain in the Art Studio, em Nashville. O processo de gravação começou com uma demo: Swift gravou os vocais e tocou guitarra, e Chapman cantou os vocais de fundo e tocou outros instrumentos. Depois, ambos abordaram engenheiros e outros músicos para ajustar alguns elementos. Pela produção ter sido idêntica a de Fearless e pela visão artística de Swift, Chapman contatou músicos de Nashville para substituir as versões dele por gravações acústicas e ao vivo dos instrumentos. Justin Niebank, responsável pela mixagem do álbum, fez seu trabalho em três semanas, e teve um papel fundamental na adição de reverberação nas canções, reproduzindo um estilo dos anos 1950 e 1960. O resultado foi um disco não apenas catártico, mas culturalmente carregado, que facilmente estabelecia conexão entre cantor e seus fãs.

Taylor tinha vinte anos quando Speak Now foi lançado, em outubro de 2010, e vendeu mais de um milhão de cópias em sua primeira semana. Para época, ainda, um recorde estratosférico, já que fazia dois anos desde que um disco não atingia esses números — o último foi Tha Carter III, de Lil Wayne — e a indústria mudava rapidamente: as cópias digitais tomavam conta do mercado e as revistas de charts não davam conta e tinham suas dificuldades de como converter e unificar esses números. Os lançamentos seguintes de Swift, Red e 1989, foram sucessos maiores, mas Speak Now foi seu álbum de sucesso orgânico não planejado: suas canções quebram com os esperados três minutos de duração, com versos alongados e refrões complexos, confiando fortemente em descrições imagéticas. Diferente de Red, um disco de transição de identidade artística, Speak Now foi um álbum em que Swift fez sua metamorfose pessoal: ela deixava de ser uma jovem cantora country para ser uma verdadeira estrela a estourar no grande mundo. Ela sabia que tudo aquilo era assustador, mas sabia que era, ainda mais, recompensador. 

Para Speak Now, como dito, Taylor confiou a Nathan Chapman para co-produzir todas as canções do disco. Os dois vinham trabalhando juntos desde a estreia da cantora em 2006, com seu autointitulado, e seguiram juntos até Red, quando, no disco seguinte, Swift atirou-se totalmente no pop e as dedilhadas country de Chapman não cabiam mais. Speak Now foi escrito em cima dos moldes country, com toques de pop e rock. É importante salientar que, desde o final dos anos 2000, na virada para a última década, o country vinha sofrendo profundas alterações em seu DNA, incorporando cada vez mais elementos da música pop. Além disso, é interessante notar que uma grande parte do círculo de Swift estava inclinada para o pop, ao passo que Taylor se tornava cada vez mais uma figura da cultura pop. Mas isso, no entanto, não afastou ela do country, visto que ela via nesse gênero a capacidade suficiente de canalizar as emoções da forma que elas tinham que ser transmitidas. 

De fato, Speak Now é conhecido, por fãs e especialistas, por sua composição, antes de tudo. É pertinente ressaltar que essas letras conseguem, enquanto aparatos narrativos, ser cativantes. Ou seja, ao passo que os versos e refrões dessas faixas são extensos e excessivamente descritivos, eles também são de fácil assimilação. “Mine”, música que abre o registro e primeira canção do disco que foi finalizada, traça seus momentos como um filme: “Do you remember, we were sittin’ there by the water? / You put your arm around me for the first time”, ela canta no refrão. Porém, muito mais do que cenários, os personagens ganham profundidade: um rapaz de uma cidade pequena se apaixona pela filha cuidadosa de um pai descuidado. Na faixa-título do álbum, um casamento é interrompido por Taylor e não é difícil criar uma comédia romântica do final dos anos 1990 em sua cabeça. “Sparks Fly”, no que lhe concerne, é a representação de uma escrita mais metafórica: “The way you move is like a full on rainstorm and I’m a house of cards”. Nesse instante, a caneta de Swift percorria mais caminhos de testemunhos do que ela havia vivido, do que narrativas que não eram propriamente delas — mas nem sempre isso era dado de forma direta ou visto da forma mais literal. 

Durante toda sua carreira, Swift foi conhecida como aquela garota que escreve apenas sobre garotos e términos de namoro. Embora isso não seja verdade, sua fama advém do fato dela ser mestra na composição desse tipo de música. Speak Now, no entanto, foi o primeiro disco em que essas deixaram de ser simples canções e passaram a ser grandes obras narrativas. “Back To December”, uma canção inegavelmente de inverno, mostra Swift em remorso pela forma que lidou sua última relação: “You gave me roses and I left them there to die”, ela canta. “Dear John”, um pouco mais a frente, com seus quase sete minutos de duração, usa da anedota das cartas enviadas pelas companheiras dos soldados da Segunda Guerra Mundial para escrever seu diário conturbado de memórias do seu relacionamento com John Mayer. Sua construção é trágica (“Wondering which version of you I might get on the phone tonight”), mas seu desfecho é melodramático (“But I took your matches before fire could catch me”). No entanto, ambas as faixas não são tão fortes quanto “Last Kiss”, segunda música mais longa do álbum, em que a cantora vê-se presa no passado. Sua ponte é, talvez, o instante mais emotivo de todo o álbum: 

So I’ll watch your life in pictures like I used to watch you sleep
And I feel you forget me like I used to feel you breathe
And I’ll keep up with our old friends
Just to ask them how you are
Hope it’s nice where you are
And I hope the sun shines and it’s a beautiful day
And something reminds you you wish you had stayed
You can plan for a change in the weather and time
But I never planned on you changing your mind

Todavia, não foram apenas as composições de Swift que se tornaram mais intensas, mas sua produção também. O processo de construção das melodias e arranjos foi parecido com o que havia sido feito em Fearless, mas essa sonoridade não conseguia segurar o potencial das novas escritas da artista. “Sparks Fly”, por exemplo, conta com uma bateria violenta incansável, acompanhada por uma guitarra eufórica. “The Story of Us” também soa maior do que as canções mais fervorosas de Fearless ou Taylor Swift (2006), com suas cordas e percussões ecoando de forma ampla, violentamente desordenados. “Better Than Revenge”, uma canção de Taylor disse arrepender-se de ter feito, é uma fusão de country com punk, composta basicamente por uma guitarra agressiva que capta o “sangue fervendo” da letra. “Haunted”, por fim, adota uma sonoridade mais orquestral, quase teatral, dirigindo um drama de forma épica. Todas essas canções, sem os aperfeiçoamentos de pós-produção ou se tivessem sido mantidas em configurações mais limitadas, como inicialmente propostas, teriam perdido todo seu poder. 

Maturidade, também, foi outro fator estrutural para Speak Now. De fato, Swift já vinha cantando sobre envelhecer desde seu primeiro álbum — um destaque principal para “Fifteen”, de Fearless —, mas Speak Now é o registro em que a maturidade sobre a qual ela sempre cantou realmente brilhou. Lampejos do que poderia acontecer, tornam-se presente: assumir suas falhas em relacionamentos (“Back to December”) e enfrentar o que for necessário para conseguir o que você acredita ser o certo (“Speak Now”) são apenas pequenos vislumbres de quem Swift estava tornando-se naquele tempo. Mas há duas canções onde isso torna-se mais presente: “Never Grow Up” e “Innocent”. Na primeira, dedicada à filha da modelo Jamie King, Swift envia uma carta para uma pequena criança, com conselhos doces, mas que carregam significados mais frios: “And you’re mortified your mom’s dropping you off / […] / But don’t make her drop you off around the block / Remember that she’s gettin’ older, too”. Na segunda, a tão esperada resposta para Kanye West, uma sombra toma conta da atmosfera, enquanto a trajetória decadente de alguém é desenrolada: “Left yourself in your war path / Lost your balance on a tightrope”. Mas em todos esses casos, ela sai como uma pessoa melhor, não por fazer a coisa certa, mas sim por aprender. 

“Enchanted” e “Long Live” são as duas melhores músicas do disco — bem como, estão dentro das cinco melhores canções da longa discografia de Taylor. “Enchanted”, canção essa que quase deu nome ao disco, é um conto de fadas moderno, em que espaços podem refletir o cotidiano, ou um tempo distante. Para além da composição honestamente sutil e doce, a construção sonora é épica, soando como a trilha sonora de clássico filme da Disney. Na ponte, quando ela diz: “Please, don’t be in love with someone else / Please, don’t have somebody waiting on you”, com toques amenos de cordas, é fácil reconhecer sua genuinidade. “Long Live”, em seu papel, é uma música de conexão entre Swift e seus fãs, na qual uma narrativa de um livro infantil de heróis, dragões e muralhas torna-se um contrato de lealdade entre ídolos e seguidores. Sua ponte é um dos momentos mais memoráveis da carreira da cantora:

Will you take a moment? Promise me this
That you’ll stand by me forever
But if, God forbid, fate should step in
And force us into a goodbye
If you have children some day
When they point to the pictures
Please tell ’em my name
Tell ’em how the crowds went wild
Tell ’em how I hope they shine

“Mean” é uma faixa perdida no meio de Speak Now, mas talvez seja uma das mais importantes. Taylor sempre viu esse como um disco de canções sobre todas as coisas que ela gostaria de dizer para certas pessoas, mas nunca teve oportunidade. “Mean”, logo, é direcionada para o crítico que disse que Swift não sabia cantar, o responsável pela ignição mais importante da carreira dela. Pense nisso: quais caminhos ela teria seguido se nunca tivesse sido criticada de todos aqueles jeitos na noite do Grammy de 2010? Bom, o resto é história. Uma década depois do lançamento de Speak Now, Taylor lançou folklore (2020), constantemente visto por muitos como seu melhor álbum, um disco cheio de narrativas fantasiosas e fictícias. Mas, antes de contar outras histórias, é preciso contar nossa própria primeiro. 

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