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Speak Now (Taylor's Version)

• Republic

• 2023

8.8

Speak Now (Taylor’s Version) é uma revitalização que não apenas faz jus à versão original, mas também constrói novas histórias.

Speak Now (Taylor's Version)

• Republic

• 2023

8.8

Speak Now (Taylor’s Version) é uma revitalização que não apenas faz jus à versão original, mas também constrói novas histórias.

PUBLICADO EM: 10/07/2023

PUBLICADO EM: 10/07/2023

Cerca de treze anos separam Speak Now e Speak Now (Taylor’s Version). Mas, mais importante ainda, separam a versão de Taylor Swift que lançou o álbum original e a Swift que relança ele. Nesse meio tempo, muita coisa mudou: quando o terceiro álbum da cantora chegou ao mundo pela primeira vez, lá em 2010, Swift estava nos seus anos mais turbulentos, esperançosos e idealistas, como ela mesma gosta de pensar. Ela estava se aperfeiçoando para provar seu talento e desenvolvendo uma camada mais impenetrável contra as duras críticas que chegavam, acompanhadas também de seus primeiros escândalos mundiais. Mais de uma década se passou, e embora ela esteja treinada o suficiente nesses aspectos, ela ainda olha com carinho para esses anos, os quais foram responsáveis por mostrar que, na verdade, está tudo bem ter seus vinte e poucos anos e ainda dormir com um abajur de tomada e que nunca é tarde demais para crescer — seja lá o que isso significa. 

Speak Now (Taylor’s Version) é a terceira parte do projeto de Swift de reganhar os direitos autorais — esse qual já foi debatido e conversado várias vezes, mas, em suma, consiste no processo de Taylor regravar e relançar os seis primeiros discos de estúdio após sair de sua antiga gravadora, que detém seus masters originais, e tê-los sido vendidos para Scooter Braun. Speak Now (Taylor’s Version), mais parecido com Red (Taylor’s Version), é uma melhoria em cima da versão original — seu instrumental nunca soou tão potente e profundo e suas composições nunca tiveram tanto espaço para ecoar sua dor —, além de expandir toda personalidade que sustenta o registo. Embora tenha suas rebarbas e pontos anacronicamente soltos, é uma revitalização que não apenas faz jus à versão original, mas também constrói novas histórias. 

Da mesma forma que aconteceu nas novas versões de Red e Fearless, o Taylor’s Version de Speak Now trouxe consigo uma grande melhoria na grande parte das canções, seja pelos vocais de Swift, que agora soam mais maduros e dinâmicos, ou pela produção, que agora é mais espaçada, dando oportunidade para que os instrumentos não pareçam competir por atenção. “Mine”, faixa de abertura, é uma releitura exclusiva de versão da canção dos Estados Unidos — e não propriamente a pop mix conforme visto no disco de 2010 — e seu ponto mais alto é a voz de Taylor, que agora mais forte, consegue criar uma interpretação mais interessante para sua composição. “Back To December”, também baseada na US version, por sua vez, conta com violinos mais afiados e um baixo mais saltado. “Dear John” e “Last Kiss”, duas obras-primas sobre coração partido, soam mais atmosférica, canalizando mais fielmente suas composições de passagens dolorosas — a Swift de “Last Kiss”, mais especificamente, nunca pareceu tão assombrada pelo seu passado. Seguindo, “Mean” e “The Story of Us” parecem, de forma geral, parecem ter finalmente recebido um acabamento — ainda que soem um pouco contidas demais em alguns momentos —, ao passo que as guitarras e os vocais de “Better Than Revenge” soam ainda mais violentos e “Superman” finalmente consegue se destacar no meio do alinhamento de faixas. Certamente há um estranhamento e tudo pode parecer fora do tom, mas o que você esperaria após ouvir uma nova leitura de um disco que você ouviu pelos últimos treze anos?

Por outro lado, seria hipocrisia dizer que todas as canções desse Taylor’s Version soam perfeitas. Nessa última década, a voz de Swift claramente amadureceu e mudou: pode-se afirmar que Taylor performava como uma mezzo, enquanto agora ela atua mais como contralto. Ou seja, na prática, no passado, as faixas de Swift carregavam uma certa juventude alegre, ao passo que agora soam, quase todas, tristemente adultas. O problema, no entanto, nem é tanto esse, mas talvez a forma que Swift tenta contornar esse entrave. Na faixa-título, por exemplo, Taylor tenta soar sutil demais, trazendo um certo aspecto quase engessado para seu canto. Na versão original, os vocais são todos sintonizados em tons mais agudos, mas aqui, isso deu uma impressão forçada. Talvez se ela tivesse optado por tentar encaixar sua voz mais naturalmente, o resultado não seria tão “off. Em conjunto, o elefante branco desse álbum, o refrão de “Better Than Revenge” que foi alterado para melhor encaixar no feminismo atual da artista, não é um problema tão grande, mas está longe de carregar o impacto e atemporalidade de: “She’s better known for the things that she does on the mattress”. Por fim, talvez uma quebra de expectativa que eu mesmo projetei, mas penso que “Enchanted” poderia ter soado um pouco mais grandiosa se tivesse adotado um pouco do reverb que foi incrementado em “Dear John” e “Last Kiss” — mas ainda assim segue sendo música mais bonita de Swift já lançou. 

Milagrosamente, esse é o único Taylor’s Version que conseguiu a maestria de ter canções que soassem estranhamente parecidas com suas versões de mais de dez anos atrás, seja em produção ou em vocais. Mas, mais curioso ainda, é o fato dessas canções serem justamente aquelas que debruçam sobre amadurecimento. “Never Grow Up”, “Innocent” e “Long Live”, por exemplo, soam ainda mais potentes já que os conselhos de Swift vem agora de uma pessoa ainda mais sabia. Já “Ours” é o que “Speak Now” deveria ter se tornado: nessa, a voz de Swift soa naturalmente doce e natural para sua idade e não tenta simular uma ingenuidade que deixou de existir há muito tempo. “Haunted”, por fim, é a música mais similar com sua versão original — fato irônico visto que a canção com o instrumental mais robusto e complexo de todo o disco. 

Vislumbrando as vault tracks — canções essas que não entraram no corte original do álbum, mas que agora são lançadas como um material bônus —, parte delas são peças bem sintonizadas e de qualidade, enquanto outras parecem um pouco perdidas no tempo. Quanto às duas colaborações presentes aqui, estão longes de serem potentes quanto às parcerias com Bon Iver, mas ainda estão muitos passos à frente de qualquer coisa que Swift lançou com Ed Sheeran. “Electric Touch”, com Fall Out Boy, tem uma energia muito agradável e saudosista do começo da última década — soa velha, mas não datada. “Castles Crumbling”, com Hayley Williams, é mais puxada para os tons alternativos de Swift — mas especificamente seus primeiros rabiscos no gênero, em “Safe & Sound” —, ao passo que sua composição mescla o fantástico das letras de Speak Now com a falta de fé em si mesma que portuária os principais lançamentos posteriores da cantora. “My foes and friends watch my reign end / I don’t know how it could’ve ended this way / Smoke billows from my ships in the harbor / People look at me like I’m a monster”, ela canta.

Com relação às músicas solo, o conteúdo é um pouco mais interessante. “When Emma Falls in Love” — provavelmente escrita para a amiga da cantora, Emma Stone —, narra a história de uma garota que, apesar de ser forte o suficiente e o tipo de moça que ninguém consegue esquecer, ainda tem seu lado sombrio. “When Emma falls in love, she paces the floor / Closes the blinds and locks the door / When Emma falls in love, she calls up her mom / Jokes about the ways that this one could go wrong”, Swift canta, brincando sobre querer igual sua amiga, quando, na verdade, sabemos que Emma é Taylor. “Timeless”, por sua vez, é a peça mais forte do material inédito, sendo um storytelling intricado sobre uma vez em que Swift entrou em uma loja de antiguidades e se perdeu nas memórias de outros e vendo o quão sortuda é dentro de seu relacionamento. Essas duas faixas parecem foreshadowing para instantes tardios da carreira de Taylor, em que suas músicas seriam enredos alheios do que apenas histórias diarísticas pessoais.  

Por outro lado, nem sempre esse conteúdo bônus e inédito sintoniza bem com o restante do disco — nos dois casos, pelo fato de parecem perdidos e mal postos na cronologia da cantora. “Foolish One”, em primeiro momento, é doce, mas parece apenas uma versão mais complexa das narrativas mais infanto-juvenis do segundo álbum da cantora. “I Can See You”, por sua vez, é a canção mais interessante e curioso lançada no conjunto de vault, pelo sua sensualidade e persona mais “ousada”. Todavia, por mais que seja um BOP, está longe de soar como algo do Speak Now — se encaixaria mais em Red, ou, com mais sintetizadores, em 1989. Ambas não são ruins, mas parecem perdidas demais no contexto. Eu leio críticas — de filmes e música — há cerca de seis anos. Dentro das mais diversas estratégias e técnicas de escrita, uma das minhas favoritas é quando os críticos tecem comentários sobre as críticas de outras pessoas, tentando solidificar ainda mais seu posicionamento. Roger Ebert é meu crítico favorito e sempre sinto animação quando ele cita Pauline Kael em seus textos. Isso posto, no dia que o Speak Now (Taylor’s Version) saiu, passei mais tempo pensando na crítica que Laura Snapes escreveu para o The Guardian. Ela superficialmente traça um trajeto de comentários que contestam o valor de todo esse caminho que Swift está trilhando, ao passo que também cai em contradição quando reclama sobre as diferenças — que nessa altura eram óbvias, como toda questão da voz de Swift —, mas também questiona se existe motivação em continuar com toda essa história se não existe um fato que traga um caráter mais singular para essa nova versão. Pessoalmente falando, questionar o propósito do projeto das regravações neste momento do campeonato é asneira e dizer que isso é apenas uma forma de lucrar é uma atitude injusta. Swift sabe que essa proposta é tão arriscada quanto certeira e com cada novo lançamento, tudo poderia ir por água abaixo. Então se tudo isso fosse uma forma de ganhar dinheiro, ela estaria lançando música nova, com a mesma consistência que Drake, por exemplo, ainda mais depois de seu término com Joe Alwyn. Penso que Mary Siroky, para a Consequence of Sound, foi mais sensata em dizer que os momentos ruins de Speak Now (Taylor’s Version) são problemáticos por Taylor não ser empática com ela mesma do passado. No final, todavia, Taylor tem 33 anos e continua crescendo.

MAIS CRÍTICAS PARA

Com cinco novas canções e nenhuma colaboração, 1989 (Taylor’s Version) balança entre fidelidade e adições bem-vindas, apresentando-se como a regravação mais dinâmica até agora.
Para celebrar seu terceiro relançamento, hoje, na SoundX, faremos uma análise profunda e crítica do quinto disco de estúdio de Taylor Swift, seu trabalho mais pessoal até hoje.
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