Red
2012 • POP/COUNTRY • BIG MACHINE
POR LEONARDO FREDERICO; 07 de NOVEMBRO de 2021
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Existe um livro do poeta chileno Pablo Neruda chamado Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada. Escrita quando ele tinha apenas 19 anos, dentro de um contexto em que o autor tentava fugir do modernismo que permeou seus primeiros trabalhos, a obra traça um paralelo entre o erotismo do corpo da mulher com paisagens da natureza, adotando um vocabulário simples, apesar de ainda seguir os moldes complexos do romantismo. Na época em que foi publicado, na década de 1920, o livro gerou controvérsias devido a sua temática adulta esculpida e polida por alguém tão jovem. Apesar da obra ser baseada na vida romântica do autor, no decorrer dos 21 poemas — dos quais, apenas um tem nome —, ele não se direciona para apenas uma pessoa, mas utiliza da junção das características de várias pessoas para criar uma ideia “puramente poética de seu objeto amoroso”.

Quase um século depois, Taylor Swift usaria uma das frases do vigésimo poema do livro de Neruda para definir as direções de seu quarto álbum de estúdio, Red. “O amor é tão curto, e o esquecimento é tão longo”, foi o trecho adotado pela cantora. Segundo ela, existia uma segurança esquisita no significado dessas palavras. “É um verso que sempre relacionei aos meus momentos mais tristes, quando eu precisava saber que mais alguém se sentia exatamente da forma como eu estava me sentindo”, disse Swift no prólogo lançado junto ao álbum. Isso se dá, porque, para ela, “os momentos que nos lembramos não são os piores. São os instantes em que você vê faíscas que na verdade não estavam lá ou em que sente as estrelas alinhadas sem ter prova algum”. De acordo com ela, esquecer esses instantes específicos é a parte mais dolorosa de dizer adeus. 

Mas o caminho que Swift percorreu até Red foi tão essencial para a construção do álbum — senão mais — do que a citação de Neruda. Ela emergiu como uma garota de 16 anos, escrevendo música para garotas adolescentes sobre ser jovem, estabelecendo uma conexão que não era concretizada há anos entre um artista e seu público — “He’s got a one-hand feel on the steering wheel / The other on my heart”, ela canta em “Our Song”. Swift, como uma madrinha, conseguiu dar voz para os sentimentos dessas meninas, por mais bobos e fúteis que eles parecessem. ”Tenho 17 anos, nunca me casei ou tive um filho, não vou escrever músicas sobre isso. Mas escreverei sobre o que passei”, disse ela em uma entrevista ao Sudzin Country, em 2007. Essa persona, que era mais honesta do que planejada, garantiu uma ascensão para Taylor, que em seus próximos dois discos, Fearless, de 2008, e Speak Now, de 2010, apenas se aceitariam. 

Mas, se por um lado, o country tinha se tornado a porta de entrada de Taylor para uma marca histórica que só seria alcançada anos depois, o gênero  também estava se tornando defasado, de certa forma. Durante a turnê para seu terceiro álbum, Swift e Nathan Chapman continuaram escrevendo músicas, contudo, a partir de um certo momento, aquelas peças pareciam apenas uma releitura, ou uma nova roupagem, para o que foi apresentando em seus discos passados. Foi aí, então, que Taylor desencadeou a mudança mais importante em sua carreira: ela começou a misturar o DNA de suas músicas country com o pop, além de convidar novos produtores para trabalhar com ela ao lado de Chapman. Nesse novo time, havia Max Martin, Shellback, Dan Wilson, Jeff Bhasker e Jacknife Lee. Essas mudanças apareceram logo nas faixas que antecederam Red, como “Safe & Sound”, feita para o filme Jogos Vorazes, de 2012, que fugia de tudo que Swift havia apresentado anteriormente. Era ela em sua progressão mais orgânica. 

É interessante observar o cenário do pop na época em que Swift começou a ansiar por uma mudança em sua sonoridade. O pop, o novo terreno da cantora, estava se tornando mais complexo, misturando-se com EDM e dubstep, adotando um visual mais futurista, indo além de apenas batidas digitais. Olhe para álbuns do ano anterior, como Femme Fatalle, de Britney Spears — que foi produzido por Martin and Shellback —, e Born This Way, de Lady Gaga; ou ainda, Warrior, de Kesha, de 2012. Todos esses projetos traziam uma aposta diferente para o pop, algo mais ousado e ambicioso do que simplesmente faixas com ganchos cativantes. Funcionando ou não, era uma mudança natural que Swift também usaria ao seu favor, e ninguém faria tão bem como ela. No final das sessões, 30 músicas haviam sido escritas, sendo 16 incluídas em Red, o melhor álbum de Taylor. 

As faixas que resultaram da colaboração entre Swift e seus novos produtores, principalmente Martin e Shellback, são, potencialmente, as faixas mais populares de Red. O primeiro single do álbum, “We Are Never Ever Getting Back Together”, foi a primeira faixa da cantora a atingir o primeiro lugar da Billboard Hot 100. Ainda ao lado de cordas, mas agora também acompanhada de sintetizadores crescentes, Swift coloca o ponto final em uma relação. “You would hide away and find your peace of mind / With some indie record that’s much cooler than mine”, ela canta, em consciência. Enquanto isso, “22”, uma das faixas mais influentes da cultura pop da última década, eleva esse caráter, colocando não só Swift independente de seu ex, mas também debochando de si mesma — “Who’s Taylor Swift, anyway? Ew” —; e “I Knew You Trouble” começa com toques de uma guitarra, crescendo até o ponto da explosão de um dubstep. “You never loved me / Or her, or anyone, or anything”, ela canta na ponte. Isso era Swift, procurando um som que fosse tão forte quanto suas composições. 

Assim como o livro de Neruda, Red não segue uma linha narrativa e, por pouco, não é sobre uma pessoa só. Indiretamente seguindo os moldes da obra, Swift implanta aqui seu ideal de objeto amoroso — ou melhor, seu ideal de término. Não é sobre a jornada de passar por um fim, mas sim sobre todos os sentimentos que você pode sentir da forma rara quando você deixa alguém — ou é deixado. Da mesma maneira  que os sentimentos pulsam de formas ainda inexplicáveis, Red não precisa seguir um fio condutor ou fazer com que suas sonoridades etéreas colidam em uma fusão perfeita, mas sim que consigam ser catárticas o suficiente para explorar e transgredir sentimentos fortes e ardentes. É uma mensagem sincera de um sentimento que não se preocupa com nada, se não com o fato de ser sentido. Swift disse em um áudio disponibilizado no pre-save do álbum, no Apple Music, que Red “se assemelhava a uma pessoa de coração partido”. É “bagunçado, um mosaico fraturado de sentimentos que de alguma forma todos se encaixam no final”, completou ela. De modo mais substancial possível, o disco é isso em essência — e essa é sua graça. 

Red, mais do que qualquer outro álbum de Swift, é pautado por mitologias. No caso desse disco, a principal é relacionada com as cores. Muito mais do simplesmente o nome da obra, a cor vermelha está nos detalhes do disco, em cada canção. Vermelho é a cor do batom de Swift em uma festa de aniversário desesperançosa, do semáforo em uma troca selvagem de olhares, das bochechas envergonhadas por fotos antigas em um balcão da cozinha, e de sapatos sujos de lama e um cachecol. Mas, além de apenas uma representação visual nas memórias, o vermelho é associado aos sentimentos, a uma catarse orgânica: à frustração, à raiva, ao romance, ao desapontamento e à nostalgia. Sentimentos esses que, melhor do que ninguém, Swift sabe catalisar precisamente, revivendo-os ao invés de simplesmente lembrá-los. 

Há uma outra mitologia na discografia de Swift que só tomou forma em Red. Essa é relacionada com carros. Segundo o The Take, esses veículos são uma maneira de demonstração de status social no ensino médio, período o qual grande parte dos primeiros trabalhos da cantora se passam. Essas primeiras fábulas são arquetípicas, pintando uma clássica história de amor de uma pequena cidade do interior com um final feliz para aqueles com quem você se identificou. Contudo, conforme o amadurecimento de Swift, ela não tomou uma posição superior àqueles que quebram seu coração: se antes ela se sentia inferior aos garotos que quebraram seu coração e dirigiam grandes carros — “I hate that stupid old pickup truck you never let me drive”, ela canta em “Picture to Burn”, de 2006 —, agora ela estava “reduzindo-os ao nível de um namorado do colégio”. Além disso, porém, os carros deixam de ser apenas objetos de cenas de romance ou ódio, mas passam para um nível etéreo e metafórico, surgindo como simbolismos: ao passo que na abertura de Red, Swift relaciona o movimento de uma vida agitada com a passada de um carro pelos sinais da cidade; na faixa-título, ela assume que se apaixonar produz a mesma sensação de um acidente automobilístico — “Loving him is like / Driving a new Maserati down a dead-end street”.

Seguindo a mesma linha, vê-se que Red é o primeiro álbum realmente maduro de Swift. Pela primeira vez, a cantora quebrou com as canções de contos de fadas que terminavam sempre com o casamento, tais como “You Belong With Me”, “Love Story” e “Mine”. Essa persona nas músicas de Swift não era ela fugindo de sua realidade, mas sim colocando uma nova roupa em seu dia a dia como uma garota de 17 anos. Mas, em Red, ela retira essas fantasias, mostrando sua realidade mais nua e crua. Em canções como “The Last Time”, com Gary Lightbody, não há cavalos brancos, príncipes e castelos, mas a dor de enfrentar a tristeza sem essas coisas. “This is the last time I’m asking you why / You break my heart in the blink of an eye”, eles cantam. Já em faixas como “I Almost Do”, por outro lado, Swift utiliza de sua imaginação para criar uma provável realidade dolorida. “I bet this time of night, you’re still up / I bet you’re tired from a long hard week”, ela canta, “Sometimes you wonder ’bout me”. 

Red é, também, o álbum mais visual de Swift. Essas canções são as mais palpáveis de sua carreira. São faixas com cordas e pianos texturizados de uma forma tão tátil que ela só conseguiria repetir isso em seus trabalhos mais novos, especialmente evermore, do ano passado. “Sad Beautiful Tragic”, uma das peças mais preciosas do álbum que é, ao mesmo passo, uma das mais apagadas, mostra Swift sob um filtro preto e branco melancólico, congelada no tempo, com horas parecendo meses, experienciando a dor do término em cada lugar de seu corpo. A faixa é dolorosamente triste, mas também elegantemente distinta de grande parte do material de Swift para esse álbum. Em uma analogia, a canção mostra Swift quase assinando um contrato com uma gravadora alternativa, tornando-se mais uma dentro de um mercado que coloca seu estilo antes das prioridades capitalistas. Enquanto o arranjo apertado e simplista do piano soa empoeirado, as cordas são facilmente remanescentes do trabalho de Adrianne Lenker, especialmente nos últimos trabalhos dela, songs e instrumentais, de 2020. 

Pouco mais de quatro décadas antes do lançamento de Red, Joni Mitchell lançava seu lendário Blue, álbum o qual é influência evidente na carreira de Swift, mas principalmente em seu quarto álbum. Muito além das duas obras compartilharem cores como nome, e as capas serem semelhantes — tanto Mitchell quanto Swift mostram apenas uma parte de seu rosto —, o estilo de escrita é refletido na forma como Swift começa a entender suas relações: nem toda história começa de um lugar bom, e nem toda narrativa tem um encerramento feliz. Isso é visto em peças como “Treacherous”, em que Taylor se joga de cabeça em um relacionamento mesmo esse não sendo saudável para ela — “Nothing safe is worth the drive”, ela canta. Já em “Begin Again”, por mais doce que seja o final, o começo vem de um lugar amargo, um relacionamento potencialmente tóxico — “He didn’t like it when I wore high heels, but I do”. 

“State of Grace” e “All Too Well” são as duas melhores músicas de Red. A primeira é como um carro correndo veloz por uma rodovia, sendo uma das canções mais selvagens de Swift. Direcionando toda sua energia em prol de ser honesta, Swift canta à medida que solos de guitarras misturam-se com seus vocais eletrizados em camadas: “And I never saw you coming / And I’ll never be the same”. Além disso, essa faixa carrega um lema que seria essencial nos próximos trabalhos de Taylor: “Love is a ruthless game unless you play it good and right”. Enquanto isso, “All Too Well” é a peça central do álbum e da carreira de Taylor. Tendo a melhor composição e progressão e a sinceridade emocional mais forte, a canção mostra Swift relatando e revivendo diversas cenas de seu último relacionamento. “Cause there we are again in the middle of the night / We’re dancing ‘round the kitchen in the refrigerator light,” ela canta. Mas, muito mais do que isso, a música apresenta o caráter da atemporalidade: um cachecol que Swift deixa na casa da irmã de seu namorado reaparece no final, sendo um adereço, evidenciando como algumas coisas nem o tempo pode apagar. “But you keep my old scarf from that very first week / ‘Cause it reminds you of innocence and it smells like me”, ela canta.

Muitos afirmam que Red não é o álbum mais coeso, bem direcionado e estruturado de Swift, mas, de certa forma, essa é sua beleza. O disco não é sobre arte, mas sim sobre o sentimento por trás disso. Na linha final de seu último poema de seu livro, Neruda diz: “Ah mais além de tudo. Ah mais além de tudo. / É a hora de partir. Oh abandonado.” Da mesma forma, no final de Red, Swift parte, mas isso não significa que ela estaria indo para um lugar ruim. Dois anos depois de Red, com 1989, Taylor atingiria, provavelmente, seu ponto mais alto da carreira, mas foi aqui que ela entregou o seu melhor.