Red (Taylor’s Version)
2021 • COUNTRY/POP • REPUBLIC
POR LEONARDO FREDERICO; 22 de NOVEMBRO de 2021
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MELHOR LANÇAMENTO

O passado é sempre um lugar difícil de se visitar. Para muitos, é uma tarefa árdua seguir em frente diante de uma situação complicada, sendo essa a perda de um emprego, de um término de relacionamento, ou, até mesmo, a morte de um ente querido. Dessa forma, o sentimento — ou necessidade — de voltar para um momento em específico é um trabalho doloroso. Muitos afirmam que depressão, por exemplo, pode ser vista, em uma metáfora, como excesso de passado, argumentando que pessoas que tendem a sofrer dessa condição, geralmente, estão presas às coisas já decorridas. Isso sendo verdade ou não, é um fato: muitas pessoas evitam seu passado, em grande parte das vezes, por medo dele. 

Para Taylor Swift, contudo, essa atividade é ainda mais intensa. Com objetivo de obter os direitos sobre seus cinco primeiros álbuns, dos quais as masters estão sob o domínio de sua antiga gravadora, Swift está realizando o ambicioso projeto de regravar seus antigos trabalhos. Seu primeiro passo aconteceu em abril deste ano, com Fearless (Taylor’s Version), no qual a cantora não apenas regravou todas as canções de seu — quase — clássico álbum de 2008, mas também trouxe um apanhado de conteúdo extra, como faixas do edição bônus do álbum e um conjunto de canções que, na época da produção do álbum, foram descartadas. Como seu segundo ato, Swift lança a regravação de seu quarto disco, Red, de 2012. Anunciado com cinco meses de antecedência, Red (Taylor’s Version) apresenta uma versão ainda mais afiada do melhor disco da cantora.

Voltando na ideia pontuada no primeiro parágrafo, a regravação de Red se identifica com o processo custoso para Swift. Não digo isso pelas dificuldades óbvias causais dessa necessidade — ter de volta os direitos de sua arte, mas ter que deixar seu material original para trás —, mas sim, especificamente, pelo que Red significa para Swift. Na época, o disco foi uma espécie de escape para a cantora: Taylor havia acabado de sair de um relacionamento que se mostrou destruidor, ela também se via num momento em sua carreira de defasagem, questionado-se ainda era boa o suficiente para a indústria. Essas, e outras, crises se refletiram nas canções do disco, entregando um trabalho completo, de certa forma ambicioso, amplo, extremamente emocional e fortemente depurador.

No entanto, se Red já era um disco grandioso, Red (Taylor’s Version), com quase o dobro de faixas da versão original — um total de 30, para ser exato —, e pouco mais de duas horas de duração, consegue ser ainda mais integralizado, múltiplo e cobiçoso. Enquanto Fearless (Taylor’s Version) entregava uma edição aprimorada, com avanços claros e óbvios na produção e vocais de Swift, mas com material bônus que, em grande parte das vezes, soava como apenas uma extensão daquilo que havia sido apresentado na versão original da lista de faixas; Red (Taylor’s Version) expande o universo da cantora naquele momento, partindo de um simples álbum sobre um término, para um trabalho íntegro sobre uma vida durante o período doloroso de separação, focando não apenas em seu lado pessoal emotivo, mas sim nas preocupações externas também. Red (Taylor’s Version) entrega o relato mais arrematado de um período da vida de Swift. É, agora, seu melhor trabalho. 

Assim como em Fearless (Taylor’s Version), grande parte das músicas originais melhoraram, seja pelos vocais de Swift que ficaram mais potentes e projetados, seja pela produção, que ficou mais clara e dinâmica, ganhando um leque instrumental ainda mais amplo. Olhe, por exemplo, para abertura, “State of Grace (Taylor’s Version)”, na qual a bateria se tornou ainda maior e ganhou novas tonalidades; os acordes de guitarras se tornaram mais ricos e mistos; e a voz de Swift, agora, ecoa de forma mais ampla e soa mais emotiva. Da mesma forma, as regravações de “Red”, “Treacherous”, “All Too Well” e “Holy Ground”, as melhores do disco, ganharam incrementos, com todas soando ainda mais potentes e grandiosas, especialmente a faixa-título, que mais do que nunca ressoa dentro de uma grande arena de rock. 

Por outro lado, as faixas mais apagadas de Red utilizaram dos incrementos dessa nova versão ao seu favor, ganhando um brilho que, embora já presente, era pouco perceptível. Em “The Last Time”, com Gary Lightbody, do Snow Patrol, por exemplo, violinos surgem na ponte, misturando a tristeza casual com elegância. Já “Everything Has Changed”, com Ed Sheeran, tornou-se ainda mais dinâmica no sentido de camadas, graças especialmente a um coro de vozes extras nos refrões, o que também trouxe um caráter mais leve e positivo para a faixa. Até mesmo “Stay Stay Stay”, uma das faixas mais fracas do disco, conseguiu se tornar mais forte nessa versão, especialmente pelos avanços técnicos que deixaram a bateria mais proeminente, aplicando uma estética sonora mais interessante, apresentando a faixa como uma mescla de analógico e digital. E… “Girl at Home”… bom… é uma surpresa. 

Naturalmente, a voz de Swift amadureceu e ficou mais grave. Em 2012, pode-se dizer que Swift performava como uma mezzo, enquanto agora ela atua mais como contralto. Isso muda tanto a prática, quanto o estilo: no passado, as faixas de Swift carregavam uma certa juventude alegre, ao passo que agora soam, quase todas, tristemente adultas. Dessa forma, algumas das faixas de Red, principalmente as produzidas por Max Martin e Shellback, aquelas com tons mais alegres, em Red (Taylor’s Version), não soam mais tão jovens e festivas. Regravações de faixas como “We Are Never Ever Getting Back Together”, “22” e “Begin Again” não são tão positivas quanto soavam na versão original. Porém, isso não significa que elas sejam, necessariamente, ruins. Pelo contrário, a produção melhorou imensamente, como na última, na qual a sensação intimista da faixa ganhou ares novos com notas de sintetizadores de cordas ecoando como se fossem tocadas em grandes ambientes campinenses e montanhosos. 

Entretanto, uma das coisas mais interessantes é como Red (Taylor’s Version) expande o universo disco. Na versão original de 2012, havia uma faixa chamada “The Lucky One”, a única do álbum em que Swift fugia da temática de relacionamentos para abordar sua questão de fama. A canção é uma quase carta de amor para a rainha da Era de Ouro de Hollywood, Marilyn Monroe, mas sem o final trágico da vida real da atriz. Essa nova versão do disco, contudo, Swift desenvolve mais esse lado. Um dos momentos mais dourados das vault tracks — faixas que vieram do cofre de Swift, como ela gosta de pontuar —, é “Nothing New”, com Phoebe Bridgers, na qual ambas debatem a questão do momento da vida de uma mulher artista em que você não é atração do momento. É interessante observar como a faixa é interpretada por Swift — que teoricamente teria passado por esse filtro da vida e se encontra no lugar de alguém que, comumente, teria deixado de ser adorada — e Bridgers, que estaria prestes a passar por esse momento. “How can a person know everything at eighteen / But nothing at twenty-two? / And will you still want me when I’m nothing new?”, elas cantam, fazendo relação sobre as dúvidas existenciais em torno do desespero perante seu destino fatídico. Todavia, a linha mais dolorosa é: “How did I go from growing up to breaking down?”. 

Como essa, grande parte do material extra que Swift apresentou aqui é igualmente incrível — bem melhor do que aquilo apresentado em Fearless (Taylor’s Version), diga-se de passagem. Faixas como “Babe” e “Better Man”, cedidas por Swift a outros artistas, ganham retoques. A primeira se destaca pelo seu uso inteligente de elementos pop conjuntamente ao country, e a segunda pela melancolia de Swift e por Aaron Dessner, cuja produção possibilitou maior intensidade à canção, se comparada à versão de Little Big Town. Enquanto isso, “I Bet You Think About Me”, com Chris Stapleton, atinge perfeição das raízes da carreira da cantora, sendo um hino country positivo sobre sair de uma relação tóxica. Como em outros instantes de sua carreira, Swift, com Stapleton, transforma momentos doídos em comédia, visando um melhor contorno da situação. “The girl in your bed has a fine pedigree / And I’ll bet your friends tell you she’s better than me, huh”, ela canta antes de gargalhar. São raros os momentos em que o material extra não agrada — sim, Ed Sheeran, estou olhando para você —, mas no resultado final, não faz tanta diferença. 

Se “All Too Well” era a peça central de Red, “All Too Well (Ten Minute Version)” é o que sustenta esse disco. Segundo Swift, quando ela escreveu originalmente essa faixa possuía mais de 10 minutos, mas, visando encaixá-la dentro de Red, ela chamou Liz Rose para podar seus versos. Desde então, essa edição estendida tem sido cobiçada por fãs e críticos, sendo tida como a melhor peça que Swift já compôs em sua carreira. E, de certa forma, ela é isso mesmo. Expandindo e elevando ainda mais o nível de detalhe e intimidade da versão de pouco mais de 5 minutos, “All Too Well (Ten Minute Version)” mostra Taylor mais direta e honesta sobre sua relação e seus sentimentos. “Did the love affair maim you too?”, Swift pergunta no final da faixa, logo depois de revelar detalhes dolorosos de sua situação: “You kept me like a secret / But I kept you like an oath”. No final da canção, a voz e o instrumento de Swift vão desaparecendo, quase como se estivesse se perdendo na memória. Em prol de sua felicidade, Swift encarou isso com o esquecimento, o que para nós será um sinal eterno.