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Midnights

2022 •

Republic

8.6
Em seu décimo disco, o confessional Midnights, Taylor Swift retorna ao pop transpondo tudo que aprendeu nos últimos anos, entregando um trabalho misterioso, nebuloso, elegante e casualmente ousado.
Taylor Swift - Midnights

Midnights

2022 •

Republic

8.6
Em seu décimo disco, o confessional Midnights, Taylor Swift retorna ao pop transpondo tudo que aprendeu nos últimos anos, entregando um trabalho misterioso, nebuloso, elegante e casualmente ousado.
21/10/2022

Em 1981, o músico de rock e vocalistas Pete Wylie cunhou o termo rockism, que pregava uma crença que o gênero era altamente atrelado aos conceitos de autenticidade e teor artístico, o que, consequentemente, colocava-o em um patamar elevado quando comparado à música popular. Isso se deu depois de quase três décadas de uma guerra fria de uma competição velada entre o rock e o pop. Para os roqueiros, o pop, com seus vieses mais comerciais e acessíveis, era limitado, para além de uma raiva internalizada com o crescente domínio do pop a partir da década de 1980. Entretanto, só décadas depois, com a publicação do livro de Carl Wilson sobre um registro de Celine Dion, que o poptimism surgiu, pregando que a música pop, bem como o rock, deveria ter um tratamento artístico mais rico e que valia a pena.

Embora o poptimism tenha surgido há quase vinte anos, foi só na metade da última década que ele se ergueu com força. Em 2014, com 1989, Taylor Swift não só quebrou com sua fusão entre country-pop, mas também trouxe uma reformulação mercadológica amplamente. Com instrumentalismo orientado pela estética sonora dos sintéticos dos anos 1980 e composições que se apertavam para caber em versos que eram cantados mais rápidos, mas que não perdiam o calibre, o disco, que se apoiou no elitismo fictício do rockism, trouxe um respiro para o gênero pop. Rapidamente, isso se refletiu: no ano seguinte, Carly Rae Jepsen lançou EMOTION, com fortes semelhanças com 1989. Partindo até para o final da década, com álbuns de Jessie Ware e The Weeknd, também intrinsecamente baseados na ressurreição pop oitentista feita por Swift anos antes. 

Tudo isso nos traz para Midnights, o primeiro registro genuinamente pop de Taylor Swift em três anos e o seu mais ousado desde 1989. Seguindo o lançamento de seus dois álbuns pop mais fracos, reputation, de 2017, e Lover, de 2019, duas obras que, embora iguais ou até superiores a grande parte do material de outros artistas populares, tinham suas falhas e não mostravam Swift em sua potência máxima, ela se recolheu para elaborar dois dos seus melhores trabalhos, folklore e evermore, ambos de 2020. Nesses, ela se provou novamente como compositora, algo que ela não fazia desde, provavelmente, Red, de 2012, mas também mostrou uma afeição por um mercado alternativo, criando com Aaron Dessner, da banda The National. Nesse meio-termo, também, duas partes de seu projeto de retomar os direitos autorais de suas músicas, as regravações de Fearless e Red, foram lançadas, as quais permitiram que a cantora não só experimentasse, mas fizesse aperfeiçoamentos. Felizmente, isso se funde em Midnights.

O álbum foi definido por Swift como “uma coleção de músicas escritas no meio da noite, uma jornada através de terrores e sonhos doces”, as quais seriam estruturadas em cinco tópicos: auto-ódio, vingança, ansiedade pelo que poderia ter acontecido, apaixonar-se e desmoronar. No entanto, para além de uma série confessional de treze faixas, Midnights apresenta uma versão mais refinada e, em vezes, mais ousada do pop que Taylor havia trabalhado anteriormente. Enquanto suas líricas exploram novas formas de rimar (e de não rimar) e suas cadências nem sempre seguem padrões convencionais, toda parte sonoridade equilibra-se visando orquestrar um ponto preciso central, onde o som se torna atmosférico, cavernoso e nebuloso, mas não o suficiente para barrar distorções eletrônicas e as sutilidades do pop. Midnights mostra Swift trabalhando firme, mas de maneira leve, com o velho e o novo, um equilíbrio que permite agradar uma nova geração e aqueles que buscam nostalgia.

O fato da temática central de Midnights ser “as meia-noites” me lembra de discos como Nebraska (1984), de Bruce Springsteen, e, vagamente, Blue (1971), de Joni Mitchell. Esses dois registros fogem dos brilhos cintilantes dos sintetizadores de Jack Antonoff, todavia, sua essência que busca uma honestidade dolorosamente livre é partilhada pelos três registros. Mais do que nunca, em Midnights, Swift está ciente que sua obra não precisa ser calculada como no passado, que ela não está competindo com ninguém e que, mais importante, ela está livre para ser quem ela realmente quer. Enquanto Springsteen dialogava sobre mansões e carros sendo vendidos em meio a crises capitalistas, e Mitchel via-se como um fardo para o homem que amava, Swift também lida com o medo de ser amada, de amar e de todas as coisas que um dia poderiam ter acontecido. 

Partindo para uma abordagem poptista, as composições de Swift, em grande parte, ainda carregaram o brilho dos primeiros dias. Em âmago, as canções que antes pintavam quartos de adolescentes em crise ou apartamentos metaforicamente vazios, agora se tornam ainda mais maduras, ainda que nem sempre transpareçam isso. Em “Maroon”, um universo cinematográfico sépia se forma enquanto um casal se encontra em prol da felicidade, embora Swift não se preocupe em dizer adeus: “When the morning came / We were cleaning incense off your vinyl shelf”, ela finaliza: “I wake with your memory over me / That’s a real fucking legacy to leave”. Na abertura, “Lavender Haze”, apoiando-se sobre um conceito sobre se apaixonar retirado de um baú dos anos 1950, ela se perde no momento dentro de um BOP autoconsciente de sua própria felicidade: “Staring at the ceiling with you / Oh, you don’t ever say too much / And you don’t really read into / My melancholia”, ela começa. Inegavelmente, há uma veracidade aqui. 

Desde os primeiros registros, Taylor se apoiou sobre uma narrativa feminista em suas canções. No entanto, até aqui, isso se manteve em músicas que sempre lidaram com a relação externalizada e nem sempre tinham suas preocupações internas, andando sobre linhas, digamos, previsíveis. Midnights, porém, há uma mudança nesse andar. Em “You’re On Your Own, Kid”, um ambiente infantil parece limitador, mas numa varredura mais lenta, tudo se torna mais sombrio: “I hosted parties and starved my body”, ela menciona seus problemas com autoimagem, um pouco antes de conflitar com a sensação de um esforço incomum por um relacionamento: “Like I’d be saved by a perfect kiss / The jokes weren’t funny, I took the money”. Em “Bejeweled”, ela retrata o dia que a banda perguntou sobre seu namorado e ela não sabia onde ele estava, uma ambiguidade sobre independência ou tristeza. O ponto mais forte, contudo, acaba sendo “Mastermind”, na qual ela assume as rédeas de uma relação após compreender que, até então, mulheres “were born to be the pawn”. A cada lançamento, ela se torna cada vez mais e mais sua própria comandante. 

Por outro lado, há momentos em Midnights que as linhas ficam muito curtas e os versos nem sempre são estruturados da melhor forma para comportar ideias mais ambiciosas. “Anti-Hero”, o lead single do registro, conta com uma produção minimalista de Jack, com uma bateria abafada e um sintetizador circular sútil que forra o plano de fundo principal. Apesar de ser honestamente dolorosa e mostrar a artista experimentando novos formatos de composição, o refrão se perde quando tenta ser sarcástica, mas esquece de aplicar o sarcasmo: “It’s me, hi / I’m the problem, it’s me”. Indo mais fundo, “Karma”, uma das únicas peças que não é escrita exclusivamente por Swift e Antonoff, tem sua parcela e teor memorável e boa intenção de mostrar que as pessoas recebem coisas boas quando realmente são boas, mas, no refrão, se perde: “Sweet like honey, karma is a cat / Purring in my lap ’cause it loves me / Flexing like a goddamn acrobat”. 

Toda essa mudança quase brusca se expande, também, para a produção. Deixando de lado os pianos e cordas das florestas de folklore e evermore, a sonoridade do registro apresenta uma configuração mais refinada e inventiva, mas ocasionalmente solitária. Em “Midnight Rain”, um contraste surge entre uma voz totalmente sintética que tece o refrão enquanto Swift se encarrega dos versos. Além da complexidade com neblinas sonhadoras como apoio de Swift, o jogo fica interessante quando tudo fica mais silencioso em momentos chaves: “He wanted it comfortable, I wanted that pain”, canta o computador, quase totalmente solista. “Snow On The Beach”, por sua vez, ainda que seja uma das canções mais apagadas e merecia uma participação mais presente de Lana Del Rey que se limita aos vocais de fundo, carrega um instrumental contido, ainda que complexo: bateria, cordas e pianos se mesclam sutilmente. 

Entretanto, muito mais do que apenas se aventurar, Swift também repensa seu passado por uma conduta mais calibrada. Não é difícil perceber as referências à sua discografia e a de outros artistas, mas, dessa vez, ambas parecem empurrar as barreiras um pouco mais. Ao passo que “Vigilante Shit” lembra Billie Eilish, com sintéticos sombrios e ferozes e se apresentando como uma forma mais ativa e melhorada do que reputation, “Bejeweled” recria sons de brilhantes de joias em sua explosão climática, lembrando o trabalho de Hannah Diamond em Reflections, de 2019, e “Maroon” tem uma clara inspiração em Melodrama, de Lorde. Por último, “Labyrinth” usa dos sentimentos e sons sonhadores de faixas como “The Archer” e “Epiphany” ao passo que dribla o ouvinte com sua composição que, às vezes, refere-se à fama, mas outra, ao amor: “You know how scared I am of elevators / Never trust it if it rises fast / It can’t last”. 

Perante o lançamento do disco, quando Midnights vazou na internet, dias antes de sua estreia oficial, fãs rapidamente comparam os álbuns com os outros lançamentos da cantora — na maioria das vezes, comparações baratas. Midnights pode ter o apelo comercial de 1989, mas vai além de um disco que atua pela diversão e estilo e se preocupa também com seu lugar de maturidade. Em outras palavras, Midnights parece, em longa data, um novo renascimento popular, e, como ela mesma diz em “Maroon”: “That’s a real fucking legacy to leave”.

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