SOUNDX

Folklore

• Republic

• 2020

9.4

Hoje Folklore comemora seu terceiro aniversário. Para celebrar, daremos uma olhada crítica e aprofundada nesse que é o álbum mais singular de Taylor Swift.

Folklore

• Republic

• 2020

9.4

Hoje Folklore comemora seu terceiro aniversário. Para celebrar, daremos uma olhada crítica e aprofundada nesse que é o álbum mais singular de Taylor Swift.

PUBLICADO EM: 24/07/2023

PUBLICADO EM: 24/07/2023

Durante toda sua carreira, mais do que ninguém, Taylor Swift foi pioneira na arte de criar lançamentos bem-sucedidos para seus álbuns. Geralmente, a história é a seguinte: ela começa compartilhando dicas codificadas e truques com seus fãs, que, só depois de semanas, fazem sentido com um anúncio, esse qual é globalmente coberto pela mídia. Sua primeira canção lançada para esse novo trabalho costuma ser impopular e diferente do restante do álbum, o que pode levar a uma sensação de desânimo — essencialmente o caso das terríveis “ME!” e “You Need To Calm Down” de Lover, de 2019. Esse tipo de estratégia de sucesso, que permite uma conexão singular e inabalável entre Swift e seus fãs, é algo que ela vem feito desde seu primeiro registro: como ela mesma diz, nos encartes de Taylor Swift, de 2006, ela costumava deixar algumas letras capitalizadas, que, se postas juntas, indicariam o nome do garoto do ensino médio que inspirou suas composições. Com o passar dos anos, isso foi se intensificando, ao ponto de Taylor convidar seus fãs para comer biscoitos em sua casa enquanto ouviam o novo disco antes do resto do mundo. Mas, de um modo ou de outro, sempre havia uma grande comoção em torno de um novo lançamento de Swift.

Quando 2020 chegou e, com ele, a pandemia do coronavírus, todavia, a indústria musical precisou recalcular sua órbita e direcionamento: os lançamentos passaram por adiamentos, a produção de vinil atrasou por meses, shows e turnês foram cancelados e as vendas físicas caíram de maneira incontrolável. Música nunca pareceu tão necessária para suprir as consequências do isolamento e da perda daqueles que eram próximos, mas sua produção e divulgação nunca pareceu tão incógnita também. Swift sabia dessa carência, para o mercado e para uma documentação cultural, mas também para ela mesma; mas entendia que não podia seguir seu caminho da forma pela qual sempre fez. Um lançamento surpresa parecia o atalho mais certo. Então, Swift deu um dos passos mais ousados de sua carreira: pela primeira vez, um disco novo era lançado sem aviso, sem fanfare, sem drama e campanhas de marketing elaboradas. Definitivamente um tiro no escuro: seu último registro, Lover, não havia se saído tão bem quanto seus irmãos mais velhos, 1989 e Reputation, e era claramente uma crise artística para Swift. Para além disso, uma mudança de gênero abrupta, assumindo uma estética que há anos não figurava entre os trabalhos mais comerciais, fazia tudo ainda mais nebuloso. Folklore, porém, remendou toda a tapeçaria da carreira de cantora. 

Folklore completa seu aniversário de três anos hoje. E, como Jill Mapes comentou na época do lançamento, ele sempre será visto com o “registro alternativo de Taylor Swift”. Embora tenha sido lançado no meio do verão norte-americano, suas canções transmitem uma atmosfera de inverno, soturna e fria, porém, ao mesmo tempo, acolhedora em alguns momentos. O sentimento predominante é de solidão, e embora não seja um trabalho inovador em si, ele se destaca por ser uma adaptação singular das características do alternativo no mainstream de uma maneira que ninguém fez. As faixas do álbum têm um aspecto quase histórico e cinematográfico, oferecendo uma produção colaborativa notável com Aaron Dessner, do The National, e Jack Antonoff. Folklore é um álbum gótico-folk com foco em violão e piano, feito de maneira orgânica: não é difícil imaginar Swift sentada, escrevendo todas essas canções em uma sala com lareira. Ao deixar suas zonas de conforto para trás, Taylor Swift mergulha em lugares escuros durante a criação do álbum. Embora haja poucas referências à fama e esse é o primeiro registro que Swift não dá nenhuma risada, as músicas são emocionantes, desoladoras e emocionalmente ambiciosas, refletindo um nível de intimidade e honestidade genuíno por parte da artista. Esse é um registro de abordagem absolutamente diferente, mas parece ainda mais íntimo, justamente porque é o som de um artista sendo honesto consigo mesmo. 

Folklore é o primeiro disco em que Swift foca seus esforços narrativos em enredos que não são exclusivamente delas. Na realidade, não é a primeira vez, literalmente, se considerar seus conselhos de amadurecimento em Speak Now, de 2010, ou a rápida varredura biográfica não-oficial na vida de Marilyn Monroe em Red, de 2012. Todavia, todas essas histórias sempre pareciam ter conexão desnecessariamente essencial vinculada com a cantora, ou, na verdade, eram metáforas para pontos de vista de Taylor. Em Folklore, no entanto, essas novas narrativas são totalmente independentes. “The Last Great American Dynasty”, uma clássica moderna, percorre o trajeto de vida da socialite norte-americana Rebekah Harkness, uma das mulheres mais ricas da história dos Estados Unidos, que já foi dona da casa de Swift em Rhode Island, enquanto Swift só aparece no pós-vida de Harkness como alguém que investiga seu legado. Um pouco mais tarde, “Seven” debruça em cima de abuso infantil com metáforas sutis: “I think your house is haunted / Your dad is always mad and that must be why / And I think you should come live with me / And we can be pirates / Then you won’t have to cry”, ela canta na ponte. Essa atitude demonstra a compaixão que Swift demonstrou por si mesma, mas que agora se concentra em perceber e exaltar histórias de outras pessoas. 

No entanto, o grande suprassumo narrativo altruísta de Folklore é o triângulo amoroso em torno de três jovens: James, Betty e Augustine; que se estende para três das dezesseis faixas do disco: “Cardigan”, “August” e “Betty”. No caso, o enredo percorre o relacionamento amoroso de James e Betty, perpassando também pela traição que o garoto comete com Augustine durante um certo verão. Enquanto “Cardigan” parte da visão de Betty, cantando sobre James, seu ex-companheiro, ser uma pessoa que ela conhece tão bem ao ponto de saber que ele sempre voltaria para ela e que ela o aceitaria independente do que tivesse acontecido; “August”, a melhor música do álbum, é carregada de tristeza orquestral por mostrar sua protagonista, Augustine, com dificuldades de entender que seu relacionamento com James nunca significou nada; e “Betty”, com influências de Bruce Springsteen de Born to Run na gaita, é o pedido de desculpas, cantado por James, sobre seu maior erro com Betty. Há também “Illicit Affairs”, uma faixa sobre traição que perambula dentro e fora dessa trilogia: “And that’s the thing about illicit affairs / And clandestine meetings and stolen stares”. Essas canções edificam um universo cinematográfico concreto e bem-acabado, uma diegese firmemente estruturada e hipnotizante que demonstra uma direção evolutiva na carreira de Taylor como a melhor contadora de histórias da atualidade. 

Entretanto, Folklore também tem sua parcela de canções responsável por colocar ele como o registro mais confessional que Swift já lançou. Pela primeira vez, suas canções investigaram seu persona a fundo, indo muito além da tristeza causada por um término. Essas são canções repletas de sinceridade — as mais honestas que ela já lançou até hoje. Em “Mirrorball”, Taylor olha para si mesma como uma bola de espelho, capaz de fazer todo o quarto brilhar (“You’ll find me on my tallest tiptoes / Spinning in my highest heels, love / Shining just for you”), mas que, quando quebra, se estilhaça em milhões de pedaços. “This Is Me Trying” reflete os caminhos errados em uma jornada árdua, mas a braveza de dizer para si mesma que está tentando seu melhor (“They told me all of my cages were mental / So I got wasted like all my potential”). No encerramento do disco, “Peace”, no entanto, é uma facada final, quando Swift direciona esses comentários brutalmente cirúrgicos para sua relação amorosa, discorrendo sobre como estar com ela nunca seria um sinônimo de paz: “I’d give you my sunshine, give you my best / But the rain is always gonna come if you’re standin’ with me”, ela canta. Anteriormente, Swift já havia trabalhado em cima de sua depressão e insegurança — como visto em “The Archer” e “Afterglow”, de Lover —, mas em Folklore, essas análises soam mais concretas do que nunca. 

Falando de “The Archer” ainda, essa é talvez a maior inspiração para a construção sonora de Folklore. Essa canção é uma das melhores músicas da carreira de Swift e, quando foi lançada, logo se tornou uma das canções mais distinguíveis de Taylor: seu som foi orquestrado como um tiro sintético etéreo ecoando dentro de uma caverna onírica. Folklore, por sua vez, é uma progressão natural dessa estética. “Mirrorball” e “This Is Me Trying” parecem sonhos fúnebres: os sintetizadores e cordas captam o sentimento de um fantasma do passado, ao passo que flutuam em sintonias celestes. Enquanto isso, “My Tears Ricochet” usa de camadas de vocais para criar uivos sombrios e ilusórios, construindo o caráter de um registro que anda na linha tênue entre realidade e idealidade. Por outro lado, outras canções se sustentam em detalhes mais sutis, como “Cardigan”, composta por um piano de cauda e chocalhos no canal esquerdo, e “Exile”, faixa essa que se destaca pelo contraste bem-casado entre os vocais de Swift com seu parceiro de colaboração, Justin Vernon. Lembranças não muito distantes de “Safe & Sound”, canção de Swift para trilha-sonora de Jogos Vorazes (2012), também respigam por aqui. 

Folklore ainda é o registro mais diferente de Swift, ao mesmo tempo que parece ser o qual ela se mostra mais confortável e livre. Voltando para “My Tears Ricochet”, pela primeira vez em uma música, Swift adereça sua batalha pelos direitos autorais de suas próprias gravações. Na época, Scooter Braun ainda era o dono da antiga de gravadora de Taylor e essa canção é uma carta direta para ele: “And I still talk to you / When I’m screaming at the sky / And when you can’t sleep at night / You hear my stolen lullabies”, ela canta. Mais tarde, “Mad Woman” surge como a escrita feminista mais ousada de Swift — e se manteve até seus lançamentos mais recentes em Midnights. Em meio a metáforas, ela permite a si mesma ficar furiosa por perder o direito de sua própria arte: “And women like hunting witches too / Doing your dirtiest work for you / It’s obvious that wanting me dead / Has really brought you two together”. Por fim, “Hoax” encerra o disco de maneira mais intimista, sendo uma cortina de fumaça romântica para um relacionamento que anos mais tarde se provou repleto de dependência emocional: “Your faithless love’s the only hoax I believe in”. 

Muito mais do que um registro que prova as habilidades de compositora de Swift e um trabalho diarístico, todavia, Folklore é um documento zeitgeist cultural. Quando foi lançado, no meio de 2020, a indústria musical ainda estava se adaptando aos novos processos de produção, divulgação e consumo de música. Porém, a necessidade por canções que fossem um reflexo do sentimento interno imposto pelo autoisolamento era maior. Swift estava trabalhando unicamente como música pop há cerca de três álbuns — 1989, Reputation e Lover —, mas apenas um deles havia funcionado bem. Na inércia, seu próximo registro poderia ter sido uma progressão pop orgânica. No entanto, a cartada foi outra: Folklore surgia não apenas como um registro alternativo, mas também um trabalho fortemente influenciado pelo seu redor — muito mais do que qualquer outro álbum de Swift. Essas músicas são mais contidas, soando como um abraço caloroso, ainda que acidamente visceral. Para além disso, refletem o instante de seu nascimento. “Epiphany” mostra o desejo do triunfo após o caos, mesclando a situação de pandemia com guerras, enquanto resgata o passado do avô de Swift: “Something med school did not cover / Someone’s daughter, someone’s mother / Holds your hand through plastic now / ‘Doc, I think she’s crashing out’ / And some things you just can’t speak about”, ela canta no segundo verso. Pela primeira vez, os sentimentos ressoaram tonalidades do coletivo. 

Folklore significa, em português, “folclore” e, por definição, esse é um conjunto de histórias e lendas que são passadas de geração para geração, de maneira literária ou por tradição oral. No Brasil, especificamente, temos uma tradição mais forte e presente do folclore do que os norte-americanos. Porém, o sentido é o mesmo e Folklore capta e canaliza essa necessidade e habilidade de se manter como uma peça documental de um período. O álbum de Swift busca transmitir uma atmosfera de nostalgia, introspecção e reflexão, trazendo à tona histórias e emoções internas e externas. O resultado é um cenário quase cinematográfico — um folclore contemporâneo, no sentido mais literal. Essa abordagem rompe com suas zonas de conforto anteriores e reforça a ideia de que o folclore, seja como música ou nas tradições culturais, permanece vivo e relevante como uma forma de expressão profunda e honesta, que pode permanecer viva por muito tempo.

MAIS CRÍTICAS PARA

Com cinco novas canções e nenhuma colaboração, 1989 (Taylor’s Version) balança entre fidelidade e adições bem-vindas, apresentando-se como a regravação mais dinâmica até agora.
Para celebrar seu terceiro relançamento, hoje, na SoundX, faremos uma análise profunda e crítica do quinto disco de estúdio de Taylor Swift, seu trabalho mais pessoal até hoje.
plugins premium WordPress