Fearless
2008 • POP/COUNTRY • BIG MACHINE
POR LEONARDO FREDERICO; 05 de ABRIL de 2021
8.4

O processo de criação de Fearless começou muito antes de seu sucesso comercial e crítico acontecer. Isso ocorreu quando Swift, aos 11 anos, com sua família, fez uma viagem fracassada a Nashville para tentar conseguir um contrato com uma gravadora. Na época, Swift não foi aprovada por nenhuma das grandes empresas, provavelmente por ser muito jovem e inexperiente em comparação com o resto dos artistas country, mas isso não impediu seu lado artístico de fluir. Taylor escreveria cerca de 250 canções pelos próximos quatro anos — a grande maioria em seu quarto, mas, também, algumas delas ao lado de Liz Rose e Robert Ellis Orrall — até que ela, aos 15 anos, conseguiu seu primeiro contrato, e a hora de usar essas músicas chegou.  

Seu primeiro contrato foi com a Sony/ATV Music Publishing, responsável por promover algumas de suas primeiras composições, como “Would Lie”, “Dark Blue Tennessee” e “We Were Happy”, faixas que nunca sairiam da cabeça de seus fãs mais velhos. No entanto, um ano depois, Swift mudou-se para a Big Machine Records, na qual lançaria seu álbum de estreia autointitulado, de 2006. Para isso, ela separou algumas músicas do cofre, mas ainda manteve outras salvas, já pensando em poder utilizá-las como material para seus próximos álbuns. “Estou tão feliz por ter feito isso porque agora temos um segundo álbum cheio de músicas e um terceiro álbum cheio de músicas, e eu não preciso mexer um dedo”, disse ela em uma entrevista para a CMT em 2006. 

Em 2007, ao abrir shows para artistas como George Strait e Brad Paisley, Swift começou a escrever novas canções. Ela era como uma escritora insaciável, que mesmo com mais canções na gaveta do que muitas carreiras, ela não conseguia parar. Sendo influenciada por Sheryl Crow e, agora, Paisley, Taylor escreveria algumas das canções que estariam em Fearless em alguma sala silenciosa que pudesse encontrar durante a série de shows. Naquela época, Swift havia escrito mais 75 canções para seu segundo disco, algumas delas com a ajuda de Rose, John Rich, e a da cantora country Colbie Caillat. O processo de gravação, liderado pela produção de Nathan Chapman, estendeu-se desde 2007, com Taylor ainda se formando no ensino médio, até 2008, após encerrar seus shows de abertura para outros cantores country. Algumas dessas novas canções que ela escreveu na estrada, ao lado das que ela escreveu quando tinha 11 anos, formaram Fearless, seu maior álbum até hoje.

Para Swift, a palavra “Fearless” não significa ausência de medo, mas perseverança apesar dele. Nas notas do encarte do álbum, ela explica: “Destemido é se apaixonar loucamente de novo, embora você tenha se machucado antes. Destemido é entrar no seu primeiro ano do ensino médio aos quinze anos. Destemido é se levantar e lutar pelo que você quer repetidamente… mesmo que todas as vezes que você tenha tentado antes, você tenha perdido. É destemido ter fé de que algum dia as coisas mudarão”. Tudo isso pode ser visto em Fearless, em que Swift toma toda a coragem para enfrentar seus medos, muitos deles resultados das crises existenciais que os adolescentes da idade de Taylor costumam ter. Fearless é o lugar ela constrói seu próprio conto de fadas onde os castelos são, na verdade, uma casa nos subúrbios, os príncipes são capitães do time de futebol, as bruxas são líderes de torcida e uma noite estrelada é… bem, uma noite estrelada. Mas, independentemente de quão normal e próximo da realidade de todos seja o conto de fadas de Swift, ele ainda é mágico. 

É interessante analisar a performance e o impacto do álbum dentro de seu contexto. Fearless, como Teenage Dream, de Katy Perry, e seus outros colegas, carrega o sentimento do final dos anos 2000 e início dos anos 2010. É vívida a imagem em que as pessoas ainda usam flips quando “You Belong With Me” ou “Love Story” tocam no rádio. No entanto, é ainda mais interessante quando analisamos o poder do álbum. Enquanto Lady Gaga, Perry, Beyoncé e outros apostavam em um pop que lhes permitia explorar sua sensualidade e sexualidade, Swift era uma cantora country que ainda pretendia usar um vestido branco em seu casamento. Mas, as canções “infantis” de Swift que aconteciam em sonhos de fadas foram capazes de sobressair esses outros cantores. Mesmo dentro do country, com cantoras mais velhas, com vozes poderosas, como a veterana Shania Twain ou as calouras Miranda Lambert e Carrie Underwood, Swift se destaca por suas crises de ensino médio. 

Mas o fato de que as músicas Fearless são, em sua maioria, pensamentos de adolescentes não significa que sejam ruins. Veja “Fifteen”, uma faixa que percorre a linha entre experiências vividas e uma espécie de manual de sobrevivência para calouros do ensino médio. Nessa música, que também funciona como uma espécie de anuário do Swift, ela começa: ““You take a deep breath and you walk through the doors / It’s the mornin’ of your very first day”, e termina mais tarde, “You sit in class next to a redhead named Abigail / And soon enough, you’re best friends”. Mais à frente,”Hey Stephen,” uma das mais cativantes, é a música clássica sobre a luta pelo amor de alguém. Swift canta: “Of all the girls tossing rocks at your window / I’ll be the one waiting there even when it’s cold”, e então,”All those other girls, well, they’re beautiful / But would they write a song for you?”. Mas a faixa mais interessante dessas é “You Belong With Me”, em que Swift constrói um romance adolescente de filme de comédia no qual a nerd namora o galã da escola. Ela canta no refrão: “But she wears short skirts, I wear T-shirts / She’s Cheer Captain and I’m on the bleachers”. Esta faixa foi responsável por marcar os adolescentes na época, por simplesmente transmitir algo que ninguém nunca havia feito antes. 

Por outro lado, enquanto Swift não estivesse tornando seus dias monótonos mais interessantes, ela estava criando histórias mágicas inspiradas nos grandes clássicos românticos da literatura. “Love Story” é uma releitura do romance de Shakespeare, Romeu e Julieta. De acordo com a mãe de Swift, a música foi escrita quando ela e o pai de Taylor não apoiaram seu relacionamento com um certo menino. Menos de uma hora depois de ficar trancada em seu quarto, Taylor sai e entrega a letra de “Love Story”. Ela começa a cantar: “We were both young when I first saw you”. “Romeo, take me somewhere we can be alone / I’ll be waiting, all there’s left to do is run / You’ll be the prince and I’ll be the princess / It’s a love story, baby, just say ‘Yes’”, ela canta no gancho. No entanto, o conto de fadas termina em “White Horse”, em que Swift canta sobre uma desilusão, “That I’m not a princess, this ain’t a fairytale / This ain’t Hollywood, this is a small town”. Swift, mais do que qualquer outra pessoa, estava ciente de sua realidade e escolheu como lidar com isso. 

Enquanto isso, outras canções de Fearless estão à deriva neste country pop adolescente. “Breathe”, com Colbie Caillat, é um belo dueto, com foco em Swift refletindo sobre a necessidade de alguém, mas aceitando seu destino de seguir em frente sem ele. Já “Tell Me Why” é um BOPcountry, e a dramática “You’re Not Sorry” gira em torno de uma orquestra e um piano de cauda. “The Way I Loved You”, por sua vez, tem um instrumental detalhado, apesar de possuir a letra mais boba do disco. “Forever & Always” foi uma música que Swift teve que implorar a Scott Borchetta para deixá-la colocar no álbum. A faixa foi escrita no processo de finalização do álbum, sobre a separação de Swift com Joe Jonas. Apesar do pessimismo, Swift parece aceitar isso e entende que coisas melhores virão.

É na reta final de Fearless, porém, que Swift começa a diversificar sua composição. É também neste momento que Swift começa a abandonar as suas dependências líricas na adolescência e parece avançar para a maturidade, embora esta, por vezes, pareça precoce e demasiado frágil. “The Best Day”, por sua vez, é um das canções mais pessoais que Swift escreveu até hoje. A faixa é uma homenagem à sua mãe, com ela pintando cenas da infância e mostrando o papel necessário em sua vida de sua mãe. Ela canta na frente de um violão, ““And don’t know how my friends could be so mean / I come home crying and you hold me tight and grab the keys / And we drive and drive until we found a town far enough away”. Em quase piedade com o restante, ela acrescenta: “I have an excellent father, his strength is making me stronger / God smiles on my little brother, inside and out”. A última faixa do álbum, “Change”, é uma espécie de versão inicial de “Long Live”, do Speak Now. Além do grande instrumental, o mais completo de todo o álbum, Swift apresenta as mais diversas letras, cantando sobre a aspiração ao sucesso. “The battle was long, it’s the fight of our lives / But we’ll stand up champions tonight”, canta ela, mais esperançosa do que nunca. 

Na faixa-título do álbum, porém, é onde se encontra toda a energia do disco. Não necessariamente porque é o ponto em que Taylor destaca o tema principal de Fearless, mas porque é um dos momentos mais importantes e simbólicos de sua carreira. Na música, com solos de cordas e percussões, Swift conta a trama de energia e ansiedade de se apaixonar. Mas, muito mais do que isso, quando Swift canta que iria dançar na chuva com seu melhor vestido, ela estava se referindo a si mesma não somente dentro desse cenário de relacionamentos. Ela era jovem, não sabia das coisas, mas sabia que era forte o suficiente para o que quer que viesse. Anos depois, em 2016, Swift enfrentaria o ódio global por algo que ela não tinha culpa. Em “Fifteen”, Taylor canta, “Wish you could go back and tell yourself what you know now”. Não sei se Swift contaria a ela jovem, na capa do álbum, com os cabelos ao vento, tudo o que ia acontecer, mas sabemos que independente de tudo, ela passaria por tudo. De cabeça, na tempestade, sem medo.