A Beginner’s Mind
2021 • FOLK • ASTHMATIC KITTY
POR SIMÃO CHAMBEL; 05 de OUTUBRO de 2021
8.4
MELHOR LANÇAMENTO

Após os lançamentos ao longo do ano que se concretizam no projeto Convocations – uma compilação de ensaios instrumentais com efeito catártico, fruto do processo de luto de Stevens após a morte de seu pai, Sufjan regressa ao chamber-folk que o catapultou como um dos artistas mais promissores do início do século. Com a colaboração de Angelo de Augustine, o retorno às cordas de uma guitarra acústica evoca o clássico Carrie & Lowell. A principal diferença, em termos de sonoridade, entre ambos os projetos é a de que desta vez Stevens não dispensa de atmosferas eletrónicas e rastos de rock psicadélico que complementam a base acústica, como podemos ouvir nos deslumbrantes solos de uma guitarra que enchem “Back to Oz”. Apesar de frequentemente desacreditado, Convocations toma uma papel essencial na construção do que se viria a tornar A Beginner’s Mind. Esta compilação não foi a primeira experiência de Sufjan na construção de grandes paisagens eletrónicas — em 2007 já lançara The BQE, a soundtrack responsável pelos seus primeiros contactos com elas. Mesmo assim, é nas várias partes que compõem Convocations que Sufjan ensaia para os alicerces melódicos de certas músicas do álbum.

A Beginner’s Mind é um verdadeiro álbum conceptual por definição. O projeto surge a partir da rotina que ambos os autores adotaram na casa de um amigo em Nova Iorque – cada noite reviam um filme que tivesse marcado a sua infância. A manhã seguinte era dedicada a esboçar os traços da música que ilustraria cada um destes filmes. O mundo fantástico que pintam parte de, mais que uma interpretação, uma reapropriação de alguns destes clássicos, desde Clash of the Titans a Hellraiser III. A mutação impetuosa das narrativas e das personagens parece surgir como produto dos sonhos deles – elas surgem em porções desconstruídas, desalinhadas e mesmo desconcertantes. Em “Back to Oz”, o clássico The Wizard of Oz torna-se um pesadelo. Uma perspetiva diferente é aplicada sobre o filme de 1939 – a saudade e o desejo de voltar a Oz são envolvidos por um desconforto e uma desconfiança. O retorno a Oz é uma metáfora para a perda de inocência e credulidade da infância, tal como a fricção que a antiga e a nova perspetivas desse lugar geram entre si. A tentativa de um retorno ao lugar onde se fora feliz é impossível quando se dá a realização de que essa felicidade nem sequer começou por existir.

A diferença das interpretações que os artistas testemunham entre eles e as suas infâncias parte da posição distanciada que ambos tentam adotar. A ideia zen budista de Shoshin – que se pode traduzir literalmente para a mente do iniciante, ou a beginner’s mind – é o cerne de todo o projeto, evidenciando a pertinência do seu título. Esta filosofia advoga por um olhar sobre o mundo completamente livre de cinismos e preconceitos, não havendo lugar para ideias preconcebidas. Aqui, o iniciante, em toda a sua ignorância, tem vantagem sobre o mestre, cego pela sua experiência. Claramente não podemos dizer que Stevens e Augustine são iniciantes no que fazem, mas é possível evidenciar a influência desta filosofia nas letras, parte indiscutivelmente fundamental dos projetos de Stevens.

A delicadeza e fragilidade dos vocais e da instrumentação trabalham também a favor de toda a misticidade que as referências já carregam, à medida que a melodia é construída de forma a acentuar características cinematográficas. O investimento no conceito do álbum que propõem apresentar pouco mais deixa a desejar. Em “Lady Macbeth In Chains” o som acústico e metálico da vibração das cordas da guitarra, complementada pela voz sussurrante e aconchegadora de Stevens, cria uma atmosfera leve, mas simultaneamente arrepiante. No outro, a música desenvolve-se em sonoridades do folktronica, remetente às caracterísiticas de um dos seus mais aclamados projetos, The Age of Adz. Já em “Beginner’s Mind” e “(This is) The Thing”, a voz de Sufjan ecoa flutuante por cima de uma melodia liderada por um piano, assinalando os momentos enternecedores que não poderiam faltar num projeto do artista natural de Detroit. Num mesmo plano merecedor de enaltecimento, os vocais de Augustine surgem sempre como sombra dos de Sufjan, harmonizando e complementando-os, por vezes unindo-se numa só voz e, por outras, assinalando uma distinção que replete o álbum de maior substância.

“It’s been said that writing about music is like dancing about architecture (impossible and absurd)”, podemos ler no texto que acompanha o lançamento do 4º álbum colaborativo de Sufjan Stevens. Ser um cético desta afirmação parece inevitável quando tomamos o papel de quem analisa uma arte recorrendo a outra. Contudo, é difícil argumentar com a frase sabendo que poucas são as vezes em que palavras traduzem fielmente as várias esferas que a música comporta. A arte de Stevens que o prove, já que poucos são os adjetivos disponíveis para descrever o inigualável talento e versatilidade que o artista americano sucessivamente prova ter. Com o lançamento de A Beginner’s Mind, Sufjan reforça o seu nome no legado do folk, provando, mais uma vez, o seu engenho na criação da simplicidade que comporta imensidão e assegurando que o génio lírico dele se recusa a enfraquecer. O retorno do artista ao chamber-folk dificilmente seria mais adequado, e a sua destreza na criação de melodias e narrativas continua a mesma dos tempos de Illinois e Carrie & Lowell. Sufjan afirma-se novamente como um dos mais consistentes nomes da música contemporânea, e nada aponta para que isso mude brevemente.