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Natural Brown Prom Queen

2022 •

Stones Throw

8.4
Em seu segundo disco, Brittney Parks ressignifica as máximas sociais, apresentando um trabalho vigoroso. Esse é o seu projeto mais interessante até agora.
Sudan Archives - Natural Brown Prom Queen

Natural Brown Prom Queen

2022 •

Stones Throw

8.4
Em seu segundo disco, Brittney Parks ressignifica as máximas sociais, apresentando um trabalho vigoroso. Esse é o seu projeto mais interessante até agora.
12/10/2022

Para grande parte das meninas padrões de filmes adolescentes norte-americanos, o ponto alto de sua passagem pelo ensino médio é se tornar a rainha do baile. Na vida adulta, isso não parece muito, mas, aos seus 16 ou 17 anos, subir num palco em um ginásio e ser coroada com um diadema de plástico brilhante parece significar muita coisa. Fora do eixo estadunidense, isso já não tem muito sentido, mas, mesmo dentro da bolha de Biden, isso se torna cada vez mais idealizado. Na grande maioria, seja em filmes de comédia ou clássico do terror, essas garotas são meninas brancas, de classe média e que seguem um padrão de beleza aplaudido pela Vogue. Mesmo pensando naqueles filmes que tentam de forma falha desconstruir esse método — como aqueles que se pautam na vingança da estudante humilhada e feia que se torna bonita —, tudo é ferozmente plastificado. 

Para seu segundo disco, Brittney Denise Parks, sob o nome artístico Sudan Archive, desconstrói e ressignifica o papel da rainha do baile. Em Natural Brown Prom Queen, ela trabalha com uma gama vantajosa de sonoridades e edifica uma nova noção sobre si mesma, certificando-se de acreditar que ela é o melhor que ela pode ser e que sempre merece o melhor que alguém pode dar. Essa máxima é uma continuação do seu primeiro disco, Athena, de 2019, no qual ela, basicamente, introduziu suas principais facetas de uma fusão vanguardista entre pop, R&B, hip-hop e rap. Nessa sua segunda declaração, ela fortifica essas características, assumindo uma posição ainda mais forte, construindo um trabalho de quase uma hora que, embora seus pontos de estagnação, ainda é vigoroso. 

“NBPQ (Topless)” é uma das melhores canções do álbum e é uma das peças nas quais Parks consegue descascar e varrer as camadas sociais em seu favor. “Sometimes I think that if I was light-skinned / Then I would get into all the parties / Win all the Grammys, make the boys happy / Fuck lookin’ sassy, they think I’m sexy”, ela começa. No refrão, ela repete incansavelmente que não é medíocre como os outros, configurando dentro desse cenário no qual ela propõe uma quebra com os padrões de rainhas de bailes e uma busca pelas verdadeiras rainhas. “Selfish Soul”, por sua vez, também segue nessa narrativa, solidificando um hino de autoestima: “Stay hair, stay straight, though we feel ashamed / By the curls, waves, and natural things / Curls, waves, and natural things”. Para além dessas, as composições em Natural Brown Prom Queen são de excelência, sendo pelo seu flow ou pela sua habilidade de canalizar tanto dentro de pouco espaço. 

Mais impressionante que as habilidades líricas de Brittney, apenas sua visão para sua estética sonora. É relativamente fácil pincelar sobre as dezoito faixas que recheiam o disco e se perder nas referências ou lembrar de um disco ou projeto em específico. De modo geral, o disco em sua totalidade me lembra Sometimes I Might Be Introvert, de Little Simz, visto que ambos emergem como grandes projetos robustos. Em cortes profundos, influências de outros artistas variam entre momentos mais claros e conexões emocionais. Os tons pesados e agressivos de “OMG BRITT” são remanescentes de Tkay Maidza, principalmente de sua série de EPs, Last Year Was Weird — o que também ressalta as capacidades de Sudan de dosagem. 

Com relação ao trabalho de gêneros, ela também faz escola. Por mais que ela não conte com um conjunto grande de estilos, o jeito que ela trabalha e elabora esse enxuto grupo de gêneros, suas sonoridades soam mais amplas do que realmente são. Enquanto “Loyal (EDD)” é uma masterclass da mistura entre jazz, clássico e R&B com deslizantes sopros, “Home Maker” funde sintetizadores cintilantes com batidas misteriosas de baterias. Uma das melhores do ano, “Homesick (Gorgeous & Arrogant)”, apresenta os vocais relaxados a artista enquanto cornetas protagonizam o fundo da canção com vocais angelicais, contrastando com “Freakalizer”, uma conversão sonora da experiência de um orgasmo, principalmente pela excitação passada pelos vocais suspirantes e sedutores. 

Entretanto, fazer registros longos não é um luxo que qualquer artista pode-se dar, principalmente nesses dias em que tudo implora por durações cada vez menores. No caso de Sudan Archives, isso é verdade em partes. “ChevyS10” é uma das faixas mais interessantes do registro, com uma pertinente mescla entre palavra falada, rap e hip-hop que conduz o plano de fundo de um testemunho. O que acaba atrapalhando, na realidade, são as outras músicas que são mais curtas e mostram que a artista consegue fazer muito mais em um espaço menor. Para além disso, os interlúdios presentes nem sempre acrescentam algo, e, no meio do álbum, algumas faixas se tornam um pouco redundantes e sem brilho, como “ Copycat (Broken Notions)”, que parece uma apenas uma continuação monótona de  “ChevyS10”. No entanto, com tantos acertos e meros erros, sua nova configuração sobre quais são as verdades rainhas é inegável.

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