Eternal Blue
2021 • ROCK/METAL • RISE
POR LEONARDO FREDERICO; 24 de SETEMBRO de 2021
7.7

De acordo com o AllMusic, o heavy metal, popularmente conhecido apenas como metal, é um dos gêneros musicais mais controversos. Segundo a fonte, os críticos mais conservadores e tradicionalistas, os quais creem principalmente na elitização da arte, constantemente desmerecem e descartam o movimento, opondo-se contra os altos volumes, a teatralidade exacerbada, a violência corriqueira e, sobretudo, as letras consideradas malignas e “satânicas”. Além disso, vale mencionar as polêmicas, como as controvérsias relacionadas a algumas composições que podem ter influenciado jovens ao suicídio e à proibição do estilo por países do Oriente Médio que o consideram denunciável. Contudo, por outro lado, o metal continua sendo um dos mais poderosos, catárticos, libertadores e vanguardistas gêneros da história, sendo um dos poucos que conseguem se adaptar às mudanças, mas, ainda assim, manter sua essência intacta. 

Tomando as características mais fundamentais do heavy metal e as levando além, a estreia da banda de British Columbia, Eternal Blue, é veementemente impetuosa. O disco, que segundo a vocalista Courtney LaPlante, permaneceu durante dois anos em produção devido principalmente à pandemia, é uma fusão emotiva entre a substância purificadora clássica do metal com o clarão empoeirado atmosférico do pop e alternativo atual. Enquanto eles se perdem em grandes crescendos de riffs de guitarras de violência penetrante, eles também se preocupam com a construção do ambiente sonoro que envolve o ouvinte. Ao passo que os vocais de LaPlante apresentam uma variação impressionante, toda instrumentação das canções se mesclam entre algo agressivo e passivo, tenebroso e encantador, sombrio e ofuscante. 

Uma das características mais impressionantes e impremeditáveis é como Eternal Blue carrega um caráter atemporal. Digo isso, principalmente, pela habilidade do disco de conseguir fusionar as melhores qualidades que estruturam o heavy metal, com os atributos mais usuais da música mainstream. Enquanto as guitarras lampejam em brutalidade emocional, sintetizadores pulverosos salpicam tons cinzentos de atmosferas opacas e sombrosas. Essa combinação fica clara, por exemplo, na faixa-título do disco, uma canção serena apoiada por atos oitentistas da New Wave. Por outro lado, essa liga entre um gênero passivo de tanto preconceito com o pop resulta em um sentimento que, simultaneamente, soa nostálgico e futurista. Olhe para “Yellowjacket” ou “Holy Roller”, ambas as quais contam com distorções vocais proporcionadas por sintetizadores, o que é remanescente do estilo musical de Lady Gaga no final dos anos 2000 e começo da última década. Por mais que as vozes levemente sintéticas tenham sido usadas por Gaga, aqui elas não soam como uma cópia ou descarte, mas sim uma espécie de homenagem, a qual também ecoa como um desejo ambicioso de mistura de estéticas improváveis. 

Todavia, apesar do disco conseguir entregar esses momentos reluzentes, Eternal Blue, hora ou outra, parece datado. Isso se dá, principalmente, nas faixas que são totalmente voltadas para o metal, sendo a estrutura e a maneira que toda a instrumentação foi trabalhada os principais vilões para que essas canções soem mais velhas do que são. Para teor de comparação, músicas como a abertura “Sun Killer” parecem sair direto de um disco do Evanescence, lançado em meados dos anos 2000. Diferente do que acontece com a — não comprovada — inspiração em Gaga, aqui o grupo parece não ser hábil o suficiente para traçar limites entre uma homenagem não proposital e a réplica de um som que há anos não funciona — não ironicamente, Evanescence lançou um álbum que soa tristemente idêntico ao seu material antigo, porém, isso não é mais suficiente.

“Sun Killer” também revela outro fator decepcionante sobre o disco: algumas faixas são inacabadas. Como mencionado, a banda tirou proveito da pandemia para trabalhar mais em seu disco, porém, alguns cortes simplesmente não refletem isso. Novamente citando a abertura, é desapontador observar o quão abafado o baixo e bateria estão, sendo quase impossível de ouvir esses dois instrumentos essenciais em qualquer composição sonora. “Secret Garden”, por sua vez, foi uma das primeiras faixas que a banda compôs, e isso fica claro quando você observa que essa é a canção mais amadora de todo o disco por não entregar nada verdadeiramente especial. Enquanto isso, apesar de “Halcyon” trazer todos os elementos de todo o trabalho condensado em um lugar só, a faixa é simplesmente maçante, resultando em algo que parece, às vezes, desordenado, e, em outros momentos, puramente bagunçado. Contudo, felizmente, nenhum desses elementos é capaz de tirar o caráter emocional e potente de Eternal Blue. O álbum é, acima de tudo, ainda é emocionante e cativante, desde seus compostos de riffs com sonoridade pop, até suas pinceladas alternativas.