The Turning Wheel
2021 • POP/EXPERIMENTAL • SACRED BONES
POR SIMÃO CHAMBEL; 9 de JULHO de 2021
8.2
MELHOR LANÇAMENTO

Comparações feitas entre a artista californiana e a aclamada ícone inglesa do art pop, Kate Bush, não têm sido poupadas desde o lançamento do terceiro LP de Chrystia Cabral. Efetivamente, a comparação tem a sua pertinência. Os sussurros vibrantes e leves de Cabral evocam a conhecida signature voice de Bush. Em “The Future”, os vocais em sussurro lembram momentos em Hounds of Love, enquanto em “Emperor with an Egg”, estes soam como a perfeita fusão entre as vozes de Björk e Bush. Revelando uma mudança dos seus últimos projetos, Cabral parece abraçar totalmente o género do pop barroco em The Turning Wheel. Este é um disco repleto de instrumentos orquestrais que geram melodias que se cruzam, apresentando vocais emocionantes e melodias triunfantes. O disco é acompanhado por um discurso críptico, subordinado a simbolismos e conexões semióticas, ainda que ao mesmo tempo seja surpreendentemente elementar, de tal forma que por vezes aparenta ameaçar uma estrutura narrativa estável.

A roda giratória (turning wheel) representa, tal como Cabral destaca no texto que acompanhou o lançamento do álbum, o sentimento de ser imobilizada pelas estruturas e normas de uma cidadã do mundo moderno. A roda que gira ininterrupta e ciclicamente acaba por se tornar numa imagem das inquietudes e preocupações pessoais e políticas da artista – as quais dissimuladamente residem nas letras das músicas. Tanto as estruturas das melodias como a capa do álbum transmitem tal ideia de movimento e fluidez – uma sensação de inquietação bem retratada pelos versos “What a wheeling feeling / When I’m complete / I think I found my way around / This mortal coil”.

A faixa inaugural, “Little Dear”, funciona perfeitamente como tal. Esta estabelece uma dicotomia interna entre a sua melodia otimista e o tema retratado: a imensidão da vida e do seu fim. O mote de um pequeno veado contrasta com clima criado pelo instrumental grandioso e comovente, o que reforça ainda mais a dicotomia. Entre violinos majestosos e uma percussão soulful, ouvimos Cabral cantar “Little deer will marry me / Tender lovers of the earth / Turn us back into the dirt.” Mais tarde, em “In The Future”, parecemos ser transportados ao espaço. O efeito de leveza dado pela produção, os detalhes sonoros que representam um céu estrelado e o verso “Come and save me, I’m floating in space / Farther and farther away” criam uma atmosfera que faz o ouvinte sentir-se como se a flutuar entre as estrelas. Esta sensação é assegurada ainda na faixa seguinte, “Awaken”, na qual podemos ouvir Spellling ordenar “Space Command, engage the Great Return / Back down to Earth”, enquanto um aconchegador ruído de interferência nos rodeia ao iniciarmos a nossa descida à Terra. Este ruído de estática acompanha a viagem até à aterragem assinalada por estrondosos ruídos de um colossal propulsor, que termina a faixa de uma maneira marcante.

Um dos destaques no álbum, “Emperor with an Egg”, notavelmente expressa tanta delicadeza como a do ovo do pinguim que retrata. Com as suas sonoridades gélidas, melódicas e frágeis, parece-se com uma faixa esquecida do Vespertine de Björk. Nesta faixa, é representado um pinguim que tenta proteger o seu ovo do frio e do gelo. Parece haver esperança por um curto período de tempo, apenas para esta ser estilhaçada quando ouvimos Cabral fechar, cantando “I can feel a leopard seal / Oh, I can feel a leopard seal”, a principal predadora dos pinguins-emperador. Aqui dá-se a principal viragem no álbum. A encantadora e majestosa essência das faixas é agora substituída por uma atmosfera sombria e quase sinistra, logo presente nas faixas seguintes. Em “Boys at School” sintetizadores encabeçam uma melodia enternecedora, dando continuidade ao clima sombrio que se mantém na faixa “Queen of Wands” – uma música que começa com uma melodia tenebrosa, inicialmente liderada por violinos, até ver introduzida uma rítmica bateria no topo de pesados synths que conduzem a faixa num caminho distinto, até esta progredir para batidas e sonoridades de dance e eletrónica. Este assinala o momento mais próximo do seu último disco, Mazy Fly, lançado em 2019.

Outros momentos imprevistos e dignos de menção podem ser destacados, tal como o uso de um banjo em “Revolution”, antes da faixa se desenvolver em direção a um final grandioso, com um piano jazzy, sintetizadores delicados, fogos de artifício e clamores incompreensíveis. Outros momentos a realçar seriam os exuberantes riffs de guitarra em “Magic Act” ou a mística harpa e os trêmulos synths em “Sweet Talk”, que lembram o Ys de Newsom cuidadosamente fundido com o Plantasia de Garson.

Embora o álbum tenha sido meticulosamente construído e cada música não deixe dúvidas da sua pertinência no projeto, faixas como “Legacy” podem não estar ao nível do seu máximo potencial, por pouco não sendo tão memoráveis como as que a seguem, e ameaçando o álbum de ser uma experiência perfeita na sua totalidade. Mesmo assim, The Turning Wheel abrange uma panóplia de sons e instrumentos que funcionam como estímulos dos quais o ouvinte se apropria para a construção do seu próprio universo do álbum. Um universo que é certamente repleto de motivos cósmicos e místicos, capazes de provocar fortes e incontornáveis emoções. A partir deste álbum, o ouvinte cria a sua própria realidade construída, uma que poderá servir como refúgio sagrado que o fará voltar para mais…