Diaspora Problems
2021 • PUNK/ROCK • EPITAPH/SECRET VOICE
POR LEONARDO FREDERICO; 19 de ABRIL de 2022
8.6
MELHOR LANÇAMENTO

Quando o punk estourou nos Estados Unidos, por meados dos anos 1970, ele era um movimento cultural que tinha tudo menos o princípio de ser uma cultura. Naquela época, era um conglomerado de jovens artistas, inspirados pelo estilo DIY, que se interessavam pela agressividade, simplismo, sarcasmo niilista e, principalmente, a adoração da anticultura. Embora eles fossem vistos como mais onda juvenil rebelde, principalmente pelas semelhanças com aquelas ocorridas nos anos 1950, suas visões eram mais ambiciosas: eles queriam dar uma nova roupagem para rock n’ roll, apresentando músicas mais curtas, de poucos acordes, mais violentas e dançantes. Um dos momentos mais prolíficos na música, indiscutivelmente.

Em 2014, mais de 40 anos depois, o ex-guitarrista do Secret Plot to Destroy the Whole Universe, Ruben Polo, se encontrou com o vocalista Pierce Jordan, que havia trabalhado com o Teens and Trucks, para formar um novo projeto. Naquela época, o desejo dos dois era simplesmente elaborar uma música que fosse mais pesada, mais intensa do que tudo que eles já haviam feito. Para completar, Ethan Brennan e Justin Sokol foram convidados para participar do SOUL GLO, que obteve esse nome do filme Um príncipe em Nova York, de 1983. No entanto, o que liga o SOUL GLO ao punk vai muito além da sua definição dentro do gênero, mas sim, justamente, pelo grupo da Filadelphia ser uma das únicas bandas de punk dos últimos anos soar tão forte quanto seus veteranos. 

Diaspora Problems, o primeiro disco deles desde Nigga in Me Is Me, de 2019, é o resultado de uma escalada artística. Até agora foram outros dois LPs e quatro EPs, dos quais todos os esforços parecem culminar para concepção desse projeto. Se já soavam agressivos antes, agora são mais. Se já eram ácidos e cirúrgicos, agora são mais. Se eles já eram bons, agora eles são os melhores. Diaspora Problems, produzido ao longo do último um ano e meio em uma cabana, é um registro eletrizante, violento, visionário e ambicioso. É uma mescla perfeita entre o clássico, em uma homenagem nostálgica, e o novo, com um pensamento (quase) utópico. Há anos que algo não soa tão potente assim.

Uma das maiores qualidades do álbum é justamente esse sentimento de criar uma homenagem. No entanto, isso não é, necessariamente, algo novo já que um retorno às raízes, principalmente no punk, é algo recorrente. No entanto, SOUL GLO vai muito além de apenas uma varredura no passado: eles trazem um novo sentimento para essas canções, que, simultaneamente, ressoam em tonalidades clássicas, também trabalham em cima de moldes nunca trabalhados antes. Em uma escala mais simples, isso ocorre de duas formas. Na primeira, em um movimento mais sutil, como em “Coming Correct Is Cheaper”, na qual o instrumental denso advindo do metal se funde com rimas afiadas e ácidas do hip-hop: “My parents were contorted to build a future where / Their children get extorted / And, of course, we can’t bear / To tell them their efforts / Were consumed in fire”. Em segundo, tudo ocorre mais diretamente, por exemplo, em “Driponomics” que conta com sintetizadores atordoantes, bem como a rapper Mother Maryrose, que se mistura facilmente dentro da canção, não parecendo que ambos são de gêneros diferentes. Essas são canções que, desde sua estrutura, são infladas por perspicácia. 

“Driponomics”, todavia, revela um outro caráter substancial dessas músicas, que é, justamente, sua capacidade de também suprir as necessidades arquetípicas. Essa é uma faixa que, embora especial e mórfica, consegue ser vista como um elemento ligado ao seu gênero. E essa capacidade de conversar com o passado é algo que SOUL GLO faz tão bem quanto quando arquitetam suas crises criativas visionárias. “Gold Chain Punk (whogonbeatmyass?)”, por exemplo, carrega uma verdadeira essência rebelde ao passo que se edifica em torno dos vocais Pierce Jordan, que raramente parecem conseguir dizer tudo que queriam — ele não diz pouco, mas a sensação é que mesmo falando tudo, seu flow intenso, potente e ligeiro dá uma impressão de que ele corre contra o tempo para canalizar tudo que pensa. Essa configuração se reproduz em peças como “Thumbsucker”, que apenas funcionar em sua potência máxima dentro do disco, consegue tirar o folego; e “Fucked Up If True” que finaliza com vocais demoníacos que te puxam para uma espécie de buraco negro — o que, sinceramente, coloca Jordan entre os melhores cantores da atualidade. 

Penso que é uma tarefa difícil encontrar momentos falhos em Diaposa Problems. Honestamente, os maiores problemas que você pode ter com ele são situacionais, visto que é um disco que exige muito de quem quer ouvi-lo. Claro que, ocasionalmente, as canções parecem se perder dentro do álbum já que várias delas parecem começar com os mesmos acordes e raramente fogem das mesmas progressões. Mas ainda assim, tudo soa emocionalmente forte. Eu me lembro que quando Fetch the Bolt Cutters, de Fiona Apple, estourou no mundo em 2020, uma crítica da Pitchfork, escrita por Jenn Pelly, dizia que o disco de Apple não era bonito, mas sim livre. Essa é uma frase que ressoa para mim desde então, e acredito que são poucos os registros que são merecedores desse baita elogio. Diaposa Problems é um deles.