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UGLY

2023 •

Method

8.2
UGLY é o disco mais ousado e pessoal do rapper britânico.
slowthai - UGLY

UGLY

2023 •

Method

8.2
UGLY é o disco mais ousado e pessoal do rapper britânico.
10/03/2023

Dizer que o terceiro álbum do rapper britânico slowthai, UGLY, é seu projeto mais ousado e pessoal é um movimento igualmente ousado de se fazer. Enquanto seu registro de estreia, Nothing Great About Britain, de 2019, capturou o rapper em frames militantes sobre as crises políticas apoiadas em narrativas de colunas e crônicas, TYRON, de 2021, foi uma tentativa de recuperar sua imagem — depois de um episódio em que um falso cancelamento o atingiu após seu comportamento sexista no NME Awards 2020 que, segundo más línguas, deixou Taylor Swift de boca aberta —, ao passo que olhava para seu lado pessoal e intimista, mais precisamente para morte de seu irmão. Nesse sentido, concordo com o que Mehan Jayasuriya escreveu sobre UGLY: se o primeiro disco de slowthai foi uma forma de conquistar uma base e seu segundo uma forma de estabelecer, esse terceiro desafia seus próprios fãs com um registro de rock.  

Todavia, meu pensamento se diverge um pouco dos apontamentos de Jayasuriya no sentido de que, enquanto ela usa disso para desmerecer o registro, como se slowthai tivesse decepcionando seus próprios fãs com um trabalho medíocre que pende para tendências emergentes do mercado, penso que esse é, novamente, uma jogada atrevidamente arrogante que testa suas próprias habilidades artísticas. UGLY é, por essência, o ponto médio entre os dois outros trabalhos do rapper, fundindo seu lado mais pessoal com a sonoridade mais ousada e criativa que ele se permitiu semear e não, como a escritora diz: “Ugly soa como […] o tipo de música de guitarra genericamente irritada que apenas um grande executivo de gravadora dos anos 90 poderia amar.” Mas, há muito mais nessas músicas, elas apenas não estão dando atenção. 

O que Jayasuriya chama de “a melhor forma de perturbar fãs de rap” é, basicamente, a amostragem mais popular e que não se limita aos moldes que os demais trabalhos seguiram até então. Antes, o rock e o rap já haviam se mesclado, mas na maioria das vezes, essas misturas tinham uma texturização menos apelativa e mais contemplativa. Em UGLY, isso muda um pouco, como na faixa-título que trabalha em cima de todas as coisas feias do mundo sob vozes distorcidas e sintetizadores que não seriam estranhos para os amantes de shoegaze. “HAPPY”, por sua vez, tem sua potencialidade armazenada em sua simplicidade, enquanto que “Sooner” é um ótimo exemplo do equilíbrio perfeito entre batidas comuns para o rap orquestradas em conjunto a uma bateria minimalista e poucos puxões em um baixo de cordas de aço. 

TYRON era para ter sido, em tese, o disco em reconciliação de slowthai, mas sua energia foi mais próxima de um produto de alguém que estava mais preocupado em atacar de volta do que propriamente reconhecer sua culpa. UGLY é, finalmente, essa ressalva. Na canção de abertura, a alucinada “Yum”, ele reconhece seus vícios e problemas, com autoconsciência e uma certa ironia, como se incorporasse uma estrela do rock — “More coke, more weed, more E’s, more trip, naughty / More sex, less stress, head yes, what, you wanna be my empress?”. Durante os quase 40 minutos de duração do disco, slowthai é capaz de canalizar sua culpa, mas nem sempre ao ponto de parecer forçar um sentimento de próprio ódio e entende que, às vezes, mesmo quando você faz coisas erradas, um pouco de pena de si próprio é bom. 

Em conjunto, essa reconciliação vem pela própria mudança de natureza da vida pessoal de slowthai. Esse é o primeiro registro do britânico depois do nascimento de seu primeiro filho e a forma pela qual isso muda sua perspectiva e lente perante grande parte de suas composições é de se vislumbrar. “Selfish” tem, em sua base, o tratamento do rapper para com ele mesmo, mas a presença da imagem de seu filho colabora para uma preocupação maior: “It makes me sick when I look at the world / ‘Cause nothing seems real”. Já em “Wotz Funny”, os olhos se direcionam de forma mais caridosa para uma mãe solteira de três crianças que trabalha por 14 horas. Enquanto outros rappers, como Drake, estiveram vilanizando essas pessoas mais marginalizadas, a consciência de slowthai e sua nova perspectiva parental parecem levar as coisas para um lado um pouco mais carinhoso. 

No final, UGLY tem seus pontos de fraqueza, como canções que parecem versões precoces ou ideias soltas que nem sempre são concretas. Em outros, as composições que discorrem podem, também, não ser as mais afiadas. Mas, a forma pela qual tudo se conduz e flui de forma organicamente engajada se torna o que realmente importa. O mundo pode ser feio, isso só vai depender de onde e para onde você olha. 

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