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Take Me Back To Eden

2023 •

Spinefarm

6.0
Take Me Back To Eden apresenta uma curiosa inventividade de Sleep Token, mas que nem sempre é bem-sucedida.
Sleep Token - Take Me Back To Eden

Take Me Back To Eden

2023 •

Spinefarm

6.0
Take Me Back To Eden apresenta uma curiosa inventividade de Sleep Token, mas que nem sempre é bem-sucedida.
31/05/2023

A banda de mascarados Sleep Token vem ganhando certo destaque no cenário metal nos últimos meses, especialmente com os singles do álbum Take Me Back To Eden. A identidade não revelada dos integrantes gera curiosidade, ainda mais pela voz grave do vocalista — conhecido como Vessel —, que acompanha a composição divagante. Tudo que envolve o grupo, passa por comparações com Slipknot — inclusive Corey Taylor, um dos vocalistas da clássica banda, tratou dessas similaridades em recente entrevista a Loudwire. Uma miscelânea entre elementos do metal e da música pop já é marca registrada Sleep Token; assim, como Sundowning (2019) e This Place Will Become Your Tomb (2021), o recente disco possui espaços visivelmente contidos transformados com imprevisibilidade em impulsões energéticas conduzidas por guitarras incisivas. 

Take Me Back To Eden, apesar de elementar, possui uma estrutura comum que se desgasta a partir da repetição. Se a construção tenta impressionar com viradas instrumentais abruptas quando o som da guitarra e da bateria são aumentados, como na faixa de abertura “Chokehold”, é perceptível, por outro lado, como essa unicidade é evadida pela constituição similar em outras canções. A intenção em sair de uma música que inicia suave e que, gradativamente cresce, é recorrente, especialmente no último refrão e na ponte, como em “Granite”, quando irrompe o trap e parte para guitarras na ponte ; “The Apparition”; e “Rain”. Uma intenção que de início impressiona pela forma como a banda utiliza seus instrumentos e os ambientes que cria a partir deles, mas que se torna previsível e comum. Pelo menos, os solos instrumentais e riffs que advém dessa virada são muito bem utilizados e preenchem a ânsia gerada pela forma como Sleep Token conduz suas músicas. A pergunta que fica, no entanto, é: mas a que custo?

Um dos pontos positivos desse registro é como a banda agrega diversidade ao metal acionando arriscadamente elementos do R&B, como em “Aqua Regia”, e do trap, como em “Ascensionism” — a complexidade se mostra visível com o percorrer do material. Essa tentativa em romper os limites do metal deve ser valorizada e como campo de experimentação são recursos que conseguem renovar como o álbum progride. A última canção citada, uma das mais longas do disco, inicia com um melancólico piano que é jogado em sequência para um trap inesperado. Mais adiante, o espaço é preenchido a partir dos vocais sussurrados de Vessel que guia o ouvinte para uma convulsão metálica estridente, posteriormente abafada, e que, finalmente, se encerra com vocais fortes. Uma viagem única que destaca o talento do grupo e como eles estão dispostos a mesclar gêneros diversos, mas, ao mesmo passo, parece soar forçada ao unir sons tão díspares em uma única canção, falta polimento nas transições sem que fique uma composição sonora desconexa.

Outro fator de estranhamento é como a voz de Vessel passa por um tratamento com excesso de efeitos que deixam tudo muito artificial. Se a intencionalidade dessa construção robótica era essa, como visto nas entrelinhas de “Ascensionism”, o desfecho acaba sendo exagerado porque o som da banda já é alto o suficiente, fazendo falta um vocal mais limpo sem tantas modificações. Além disso, há momentos visivelmente opostos no álbum. O segundo single “The Summoning”, que propiciou ao grupo um deslanche nunca visto graças ao TikTok, é um exemplo. Se a grande maioria das faixas de Take Me Back To Eden vão se alimentando pelas bordas até se mostrarem por completo nos minutos finais, essa e a visceral “Vore” são repletas de grandes momentos que não se deixam limitar à ponte ou ao último refrão. Nesses registros, Sleep Token consegue se sair muito melhor do que a tentativa de pegar o ouvinte desatento e jogá-lo para um solo de guitarra qualquer. Já músicas como a balada rock “Are You Really Okay?” e a filler “DYWTYLM” não possuem força para agregar interesse ao material. 

Quanto as composições, o álbum se sustenta em elementos religiosos. Não é por acaso que o disco tem como título Take Me Back To Eden — mas isso não é um fator único dele, os registros passados da banda também possuem conexões religiosas. A faixa “The Summoning” se sobressai a partir de uma ligação interpessoal quase que divina: “I’ve got a river running right into you / I’ve got a blood trail, red in the blue / Something you say or something you do / The taste of the divine”. Essa religiosidade implica também em relações com o corpo humano e metáforas materiais para relacionamentos que, além de aparecerem nesta canção, são vistas em “Granite”, “Aqua Regia” e em quase todo o conjunto. Algumas exceções são destacáveis, “Are You Really Okay?” expressa a ajuda do vocalista a um terceiro que se automutila; já “The Apparition” é um complemento consistente ao nome do grupo, ela discorre sobre uma aparição durante o sono de Vessel, mas um ser sem descrição real: “Why are you never real? / The shifting states you follow me through / Unrevealed / Just let me go or take me with you”.

Mesmo tentando extrair algo criativo a partir de uma união físico-sobrenatural, a lírica do disco fica cansativa quando, pela terceira faixa seguida, “um rastro de sangue” é adicionado na composição para evidenciar essas conexões. Isso torna pobre e pouco criativa a função religiosa que poderia ir além. Assim, o grupo se perde em descrições fisiológicas, algumas metaforicamente canibalísticas, como “Vore” — que apesar de bem produzida, sua letra é vergonhosa — e nos encadeamentos românticos firmados a partir destas conexões com o corpo. No geral, o conjunto lírico de Take Me Back To Eden é limitado e repete com sinônimos a mesma composição básica com encheções para soar atraente, mas repetitiva ainda se colocadas ao lado de Sundowning e This Place Will Become Your Tomb — não é trilogia, apenas repetição de fórmula.  

Evocando através da faixa-título uma busca de calmaria materializada na figura bíblica do jardim do Éden, espaço carregado de pureza original que afasta do cotidiano calamitoso de Vessel, o disco poderia ter o encerramento exato com tal canção, mas prefere partir para “Euclid”, que retorna uma composição que parecia encerrada. Assim, por mais que Take Me Back To Eden supostamente aparenta ser criativo com seu conceito e sonoridades diversas agregadas ao metal, rompendo as barreiras do gênero, sua progressão fica prejudicada pela forma como a pluralidade proposta se conjuga em uma cacofônica experiência desordenada.

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