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Marchita

2022 •

Glassnote

8.4
Marchita é, assim, uma pintura exata e precisa do que folclore pode ser nos dias atuais.
Silvana Estrada - Marchita

Marchita

2022 •

Glassnote

8.4
Marchita é, assim, uma pintura exata e precisa do que folclore pode ser nos dias atuais.
30/08/2022

Quando o som chegou ao cinema, no final dos anos 1920, ele rapidamente tornou-se popular. Os primeiros filmes que se utilizavam dessa nova tecnologia, em grande parte, tendiam a pregar sua propaganda em torno da habilidade do público em ouvir as vozes dos atores construídos pelo star-system. Indo contra essa onda, M, o vampiro de Dusseldorf, de 1931, dirigido por F. W. Murnau, usou o som de uma forma diferente, ouso dizer experimental. Nesse longa, o diretor alemão manipulou a sonoridade de forma inventiva, fazendo relações que antes eram feitas puramente pela imagem, bem como trouxe forte importância para ruídos de fundo — um assobio que é característico do assassino. Mas o ponto principal é o quão silencioso esse filme sonoro é, com as inúmeras lacunas sonorosas, estabelecendo um clima de imensidão, profundidade e, também, terror e melancolia.

O segundo registro da cantora mexicana Silvana Estrada, Marchita, segue uma linha parecida. Dentro de um contexto no qual aproveitar cada vez mais o tempo para inserir sons novos é uma máxima, Estrada se apoia sobre um sentimento de solidão e morbidez. Seu último lançamento expande as barreiras de cada instrumento, fazendo esses os grandes destaques, que brilham sob um espaço vazio que soa mais poético e significativo do que propriamente uma lacuna. Em outras palavras, ela cria uma mitologia baseando-se simplesmente na falta de som que é sentida no plano de fundo de cada faixa; na simplicidade instrumental, que quase sempre se resume a um violão e sons orgânicos; e na lírica, que naturalmente reflete não apenas questões humanas e da existência, mas também reproduz tanto um caráter melódico deprimente e uma certa ancestralidade. Marchita é, assim, uma pintura exata e precisa do que folclore pode ser nos dias atuais.

Em uma primeira vista, a produção de Marchita é crua e simples demais. Voltando no ponto comentado anteriormente sobre as produções musicais estarem se tornando cada vez mais mecanismos de tapar lacunas, registros folk como esse são honorários justamente por nadarem contra a correnteza do mercado. Um exemplo que me vem à cabeça é quando Bruce Springsteen lançou Nebraska, em 1982, que foi gravado em casa com um gravador amador, em meio de uma ascensão de produção cada vez mais sintética. Nesse sentido, Marchita se destaca justamente por ser um elemento fora da curva que adota essa estranheza por optar por dar mais espaço para honestidade. Em “Más o Menos Antes”, cada nota perdida do violão parece reverberar para um vácuo que se encontra logo depois de cada palavra sobre o passado que Estrada canta. Seguindo, “Sabré Olvidar”, surge com um violão acompanhado por vocais assombrados e “Ser Sobre Você” invoca melodias sutis e fluidas. 

Mas, mesmo quando Silvana foge dessa simplicidade, ela acaba dando voltas e voltando para o culto do intimismo. “Te Guardo”, que é a regravação de uma canção de mesmo nome lançada inicialmente pela primeira vez em 2018, tem um violão que lembra alguns projetos de Sufjan Stevens, mas se destaca pelo forte uso de uma (quase) orquestra, idiofones e sintetizadores. “Qualquer dia” traz palmas e um tambor forte que contrastam com os seus vocais crus. Por último, “Casa” destaca barulhos do cotidiano — cachorros, pássaros e ruídos domésticos —  que rapidamente se mesclam com teclas de sintetizadores cintilantes. Embora ela tente trazer uma complexidade maior para o ambiente, ela recai sobre o domínio do silêncio — o que está longe de ser algo ruim. 

Da mesma forma, as composições do disco são mínimas, mas quase sempre altamente carregadas. É quase um pressuposto que obras que se encaixam no gênero do folk trabalhem com líricas tradicionalistas, que invocam culturas do passado e se apoiem sobre costumes de outrora. Contudo, Marchita tem algo ainda mais especial, justamente por sua perspectiva feminina que não se estereotipa, mas também não cai fora do que seria tradicionalmente aceito. Em “La Corriente”, por exemplo, ela correlaciona correntes marítimas com o poder de alguém moldar sua vida: “Cambiaste mareas y corrientes, dejaste tu nombre en el mar / Volteaste la cara sonriente y yo que no supe nadar”, ela canta no refrão. Em seguida, em “Casa”, ela cria uma relação que se perde na linha entre descrever uma casa real ou um estado mental, passando por “Carta”, baseada em uma carta sobre as dificuldades do amor, chegando em “Sabré Olvidar”, com seus ditados seculares. Em todos esses casos, todavia, enquanto essas canções continuarem tocando, a cultura também continuará seguindo firme. 

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