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Queen of Me

2023 •

Republic Nashville

3.8
Entregando canções que apenas mesclam pop e country sob narrativas sem cor que debruçam sobre as temáticas mais genéricas e apáticas do country, Queen of Me é tudo que um homem quer ouvir de uma mulher.
Shania Twain - Queen of Me

Queen of Me

2023 •

Republic Nashville

3.8
Entregando canções que apenas mesclam pop e country sob narrativas sem cor que debruçam sobre as temáticas mais genéricas e apáticas do country, Queen of Me é tudo que um homem quer ouvir de uma mulher.
20/02/2023

“Man! I feel like a woman!”, disse Shania Twain na sua clássica música de 1999, sentença essa que rapidamente viraria um símbolo para um feminismo country tardio emergente norte-americano. Era uma manifestação sutil que nem sempre se debruçava sobre os princípios da sororidade, mas era eficaz em transpor os princípios dos movimentos fora do meio country para o centro da discussão do ambiente mais conservador dos Estados Unidos. Twain, em um movimento arriscado, queria dizer para todas as mulheres submissas do machismo enraizado do Texas que estava tudo bem sair sábado à noite para beber, gritar e dançar sozinha. Era uma canção que estava longe de questionar os gêneros, mas, para seu contexto, foi eficiente em ressaltar uma emancipação que por muito tempo pareceu utópica.

Mais de vinte anos se passaram desde o lançamento de “Man! I feel like a woman!” e a música country estadunidense teve seus pontos baixos — por exemplo, o massacre que Dixie Chicks sofreram em 2003 depois de criticar a invasão americana ao Iraque — e altos — Taylor Swift e Kacey Musgraves dominando o mercado mais que os homens — referente a presença das mulheres na música country. No entanto, nada parece ter mudado em todo esse tempo, e o último registro de Twain, Queen of Me, é um trabalho de alguém que parece nunca ter tido o mínimo interesse na luta feminista. Entregando canções que apenas mesclam pop e country sob narrativas sem cor e que se debruçam sobre as temáticas mais genéricas e apáticas do country, Queen of Me é tudo que um homem quer ouvir de uma mulher.

Não vamos assumir que Shania Twain foi a maior cantora feminista do seu tempo — e muito menos do country —, mas seu alcance e forma que debateu o comportamento feminino foi inegavelmente relevante. Em Queen of Me, no entanto, tudo é jogado no lixo. Se antes a cantora pareceu preocupada em olhar para suas colegas e dizer que está tudo bem ficar bêbada, agora, suas colegas nem dão sinal de vida. Em “Best Friend”, por exemplo, Twain resume os sentimentos de amizade em simples cenas sem importância, para além de não deixar realmente claro se essas declarações são sobre amizade ou para um potencial interesse romântico. Mais tarde, “Not Just a Girl”, até remonta o sentimento noventista de Shania, mas não demonstra evolução alguma se considerar que os trechos mais ousados da canção são: “I pack my suitcases / I’m going places / I’m gonna rule the world / I’m not just a girl (Hey)”. Nem mesmo a faixa-título consegue se salvar, sendo uma união de rimas baratas de jogo de palavra (“You can’t be king of everything / ‘Cause I’m busy being queen of me”) que soam ainda piores sobre a péssima mixagem dos vocais de cantora. 

Mas fora desse cenário, não é como se Shania Twain estivesse fazendo boas músicas country para seu público majoritariamente masculino. Na maioria, as faixas do projeto são a já mencionada amálgama de pop com country: cordas orgânicas sem personalidade tentam se alinhar com bases eletrônicas e sintéticas, mas sempre falham. “Brand New”, por exemplo, celebra um renascimento pessoal, mas seu piano é facilmente uma das coisas mais tocadas nos anos 2000. “Waking Up Dreaming”, por sua vez, trabalha até mesmo com bases saturadas, com uma bateria e baixo compondo o nível mais cru da melodia, mas a associação com bandas baratas de rock alternativo amador dos anos 2000 é inegável. Por fim, “Last Day of Summer” não é apenas uma das piores do álbum, como uma das piores da cantora, conseguindo ser genérica em todos os sentidos possíveis — e eu falo sério. 

No final, há momentos de mínimo entretenimento em Queen of Me. A canção de abertura, por exemplo, é relativamente divertida, ainda que não tenha nada de especial e genuinamente bom — o que também acontece com “Got It Good”. Todavia, o fato de todas essas canções serem trabalhos sem esforço é desanimador, fazendo com que a composição horrível de “Pretty Liar” e a irritabilidade de “Number One!” saltem mais alto. Foi um sacrifício para ela se livrar das amarras de comentários sociais que não acabaram compensando, já que essas canções não têm nada de bom e nem o mercado conseguiram movimentar. “Man! She feels like a man!”

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