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Delirium

2023 •

Independente

8.6
O segundo disco de Säfira é um registro ousado, mas com os pés no chão, com propósito de demonstrar toda versatilidade do cantor.
Safira - Delirium

Delirium

2023 •

Independente

8.6
O segundo disco de Säfira é um registro ousado, mas com os pés no chão, com propósito de demonstrar toda versatilidade do cantor.
22/06/2023

Embora a música eletrônica tenha seu surgimento no começo do século passado, partindo das experimentações dos irmãos Busoni e de Pierre Schaeffer, foi só na passagem dos anos 1970 para a década de 1980 que ela se tornou popular. Naquela época, os primeiros computadores pessoais estavam chegando aos grandes mercados e às casas das pessoas, ao passo que os sintetizadores das grandes gravadoras deixavam de ser analógicos para ser digitais. Nesse momento, não era mais necessário um grande orçamento para criar uma gama ampla de sons, visto que apenas um computador conseguia arquitetar melodias intrincadas — ainda que demandasse um esforço pela baixa capacidade de processamento. Como resultados, os gêneros do eletro, house e dance surgiram e ganharam mais espaço, enquanto o dance, rock e pop mesclavam seus DNAs com sonoridades totalmente sintéticas. Todavia, nessas últimas décadas de produção, a música eletrônica foi essencialmente um pilar de sustentação para comunidade LGBTQIANP+, indo além de uma forma de expressão assegurada, mas também promovendo locais e coletivos inclusivos, nos quais canções e lutas seguiam de mãos dadas. 

Säfira e seu trabalho dos últimos anos estão inseridos dentro dessa caminhada em que música eletrônica representa uma catarse emocional e social. Ele é contemporâneo paralelo com os projetos lançados por SOPHIE, Grimes, A. G. Cook, Arca e Shygirl, com rabiscos de Charli XCX e 100 gecs. Claro, há um certo amadorismo, ainda que charmoso, nos lançamentos de Säfira, mas ainda assim é uma das únicas pessoas em território nacional capaz de capturar não apenas a essência do que essa música eletrônica underground é para esses artistas estrangeiros orquestrados fora do mainstream, ao passo que consegue traçar riscos de personalidade e entregar um material de qualidade sonora. Sua produção, como espera-se dos subgêneros, é construída por explosões de sintetizadores, crescendo digitais e arpejos brilhantes, que, mesmo fora de grandes estúdios, ainda consegue canalizar bem seu propósito. 

Delirium é o segundo disco de Säfira — o sucessor de Transhuman, lançado no começo do ano passado —, e dá, essencialmente, continuidade à construção artística dele. Similarmente com o que aconteceu na estreia do cantor, esse novo disco empenha em seguir tendências futuristas e vanguardistas, ao passo que opta por canalizar não apenas as percepções da artista, mas também seu eu-lírico. “Don’t Let Me Die”, por exemplo, é o clímax de vulnerabilidade e honestidade, em que o cantor é assombrado pela síndrome do impostor, falando não apenas sobre uma inferiorização externa, mas interna também. No mesmo sentido, “Ragecore”, uma das melhores de Delirium, apresenta uma amálgama de ódio e luta por liberdade, refletindo não somente um desejo de quebrar com um cativeiro, mas também uma idealização de um destino. 

Säfira, também, está inserido na cena underground, que, no Brasil, diferente do que acontece nos outros países, polos da indústria, acaba sendo mais carente e escassa. No interior de São Paulo, por exemplo, as festas que exploram o cenário alternativo remontam os clubes noturnos londrinos dos anos 1990, que funcionavam durante a madrugada nos subsolos da cidade inglesa. Certa parte do material apresentado em Delirium também capta essa substância, como na faixa-título do disco, em que uma pista de dança vanguardista é concretizada por meio de puxões em um baixo e arpejos sintéticos resultando em um crescendo eletrônico. “Night Butterfly”, que abre o registro, por sua vez, trabalha com cordas mais brilhantes, ao passo que canta sobre uma declaração amorosa que também é uma auto-análise. 

Por outro lado, se algumas dessas canções são peças de ousadia, outras conseguem trabalhar em instâncias que refletem uma dualidade comercial: ao passo que elas não sacrificam seu teor artístico, elas conseguem ter a potencialidade de adentrar um território mais acessível. “Thinking About You”, por exemplo, carrega uma herança de Arca, principalmente da série de cinco álbuns lançados em 2021, no entanto, principalmente por sua composição mais enxuta e direta, tem o poder de conversar com um público maior e de maneira facilitada. “I Love Boys”, da mesma forma, com sutis toques das batidas de Daft Punk, é um arquétipo de canção que trabalha a favor de sua edificação artística, mas que sabe dosar bem o que manter e o que retirar para poder ter sua vendabilidade. 

Säfira produziu seu disco, como grande parte dessa nova geração emergente, artesanalmente. Tive o prazer de acompanhar alguns momentos do desenvolvimento do projeto, ainda que de longe. Sua habilidade é estupidamente impressionante, considerando o resultado e os meios pelos quais ele usou para atingi-los. Voltando para “Ragecore”, uma cacofonia sonora é o plano de fundo. Um pouco mais tarde, “Safe With You” se torna consciente do aparato técnico e opta por trabalhar os dois canais do estéreo a favor da construção de uma atmosfera mesmerizante. No entanto, não é apenas por causa disso que a produção é o destaque, mas também pela maleabilidade: o caos de “Ragecore” se torna um leitmotiv sedutor em “Domination”, visibilizando as diversas formas pelas quais Säfira revela-se versátil. Desse modo, Säfira mesmo mostra-se como leitmotiv de um movimento que, em alguns anos, pode crescer mais e mais na cena local, buscando não apenas fazer o que os estrangeiros fizeram por eles mesmos, mas também em busca de singularidade identitária.

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