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Diamond Life

1984 •

Sony Music

9.0
A persona de Sade se reflete nas arestas brilhantes de seu primeiro álbum.
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Diamond Life

1984 •

Sony Music

9.0
A persona de Sade se reflete nas arestas brilhantes de seu primeiro álbum.
28/01/2024

Diamond life, Lover boy”. Com esse verso, que abre a canção “Smooth Operator” em seu álbum de estreia, a nigeriana Helen Folasade Adu — a voz principal e protagonista da banda britânica Sade (lê-se: “shadei”) — apresenta-se. O verso é emblemático para além da autorreferência ao título do disco: “Lover boy descreve precisamente o personagem da faixa de abertura, e descreve também a própria história de Sade, enquanto banda e ato artístico. Essa história é marcada tanto por amores, positividade e também pelas mazelas do sentimento, quanto pelos objetos de amores tais, sejam pelas pessoas, momentos ou encontros.

Sade é inescapável. Ainda que por vezes seja lida como detentora de um tédio e um ócio característicos das críticas ao smooth-soul, a banda está num panteão próprio de atos musicais britânicos e de atos do arcaico, condescendente e sinceramente, antiquado termo noventista World Music: na infusão de ritmos caribenhos e africanos com a sofisticação do saxofone e da própria rouquidão vocal de Helen. Diamond Life é enraizado numa leva New Wave, apesar de graciosamente se afastar da sincera mesmice que flagelava o gênero britânico num pós-Remain in Light, o álbum-auge da banda inglesa Talking Heads, e a égide do wave britânico. 

É um álbum inegavelmente inglês, nas suas maquinações de som e nas suas experimentações rítmicas, que advêm da imigração de países do sul-global, muitas vezes ex-colônias ou vítimas do imperialismo do Reino Unido, para o território inglês propriamente dito, principalmente nos subúrbios de Londres e Manchester, no final dos anos 1980 e começo dos 90. Também por isso, é um álbum inegavelmente imigrante, no som, em sua voz principal, nos temas. E, por isso, é autor de um esquenta-coração singular às obras de Folasade Adu, tanto na sua descrição de amores, quanto nas superações que ela descreve.

É, também, bastante setentista em sua alma soul e smooth jazz, nos meandros melancólicos, sensuais, nas homenagens veladas, ou não, aos ícones americanos do soul, da música de raiz negra e corpo político, às instrumentações do jazz, num jam digno de George Benson, ou de Rahsaan Roland Kirk. De umas dores bastante pungentes, que latejam na eloquência rouca de Sade, de uns amores bastante agridoces, que, inflamados pelo instrumental, evocam passados ardentes, futuros promissores, presentes reais e que devem ser lidados, seja por quem canta, seja por quem ouve.

O corpo político do smooth soul é por vezes deixado de lado em decorrer de um olhar de exotismo com as influências não-estadunidenses, mas é primário em seu desenvolvimento e no seu peso cultural, vide Songs in the Key of Life de Stevie Wonder, ou What’s Going On de Marvin Gaye, ambas obras presentíssimas no imaginário popular, e nas referências do mainstream americano, e ainda assim, brilhando no seu peso político e nos seus protestos pró-Civil Rights nos anos 1970.

“Smooth Operator” é um titã, um marco do smooth soul moderno que recentemente ganhou nova leva de popularidade graças ao aplicativo TikTok. Ao mesmo tempo, a música representa o início de um trabalho que homenageia mestres do soul americano, como Al Green, Marvin Gaye e Donny Hathaway, com sua sensualidade em voz e em instrumento, abordando temas amorosos, melodramáticos, sobre as dores e delícias de amar.

Com “Hang On to Your Love” a cantora adota uma sonoridade funk, numa pegada Funkadelic e Kool & The Gang, enquanto profere versos de protesto sobre um amor que, para crescer e se fortalecer, precisa manter-se num só foco. Já em “Frankie’s First Affair”, a banda fortalece sua estética baseada nos sons do saxofone e em ritmos tropicais, com letras por vezes densas, Sade Adu canta sobre um casal que se vê envolto em traições amorosas, centrando-se em Frankie, a personagem-foco da canção.

Seguindo com “When Am I Going to Go Make a Living”, inspirada por “Innervisions” de Stevie Wonder, Sade denuncia uma situação financeira desfavorável não apenas a ela, mas também àqueles em situações semelhantes, abordando questões raciais e de gênero. Em “Cherry Pie”, traz de volta a sonoridade groove funk, numa linha de baixo deliciosamente dançante. “Sally” destaca-se como um dos pontos altos da carreira vocal de Helen Adu, com melindres melódicos que expressam a tristeza e os desafios enfrentados pela vida de Sally, a personagem retratada em seus versos, numa melancolia regada a um soul lento. 

A última faixa, “Why Can’t We Live Together”  inicia-se com ritmo de bongôs e uma linha de baixo quase tóxica de tão bem encaixada, evoluindo para um órgão elétrico e, finalmente, para a voz explosiva de Sade: “Tell me why, tell me why / why can’t we live together?” Ela protesta por meio do slow-jam digno de Marvin Gaye, antes do órgão elétrico roubar de novo a cena com seu groove.

Em resumo, Diamond Life é o início da genialidade de uma das maiores bandas da história do Reino Unido e de sua estrela, Helen Folasade Adu, que, com sua presença altiva e ribombante, permanece num lugar próprio na cultura mainstream ocidental. Aqui, também, vemos as raízes da experimentação musical que dariam frutos em Love Deluxe e Promise, seus álbuns subsequentes. Helen Folasade Adu é a joalheira de um diamante lapidadíssimo nas arestas de sua vida, desde o nascimento na Nigéria, na época ainda colônia inglesa, até sua ascensão ofuscante, nas reflexões internas de sua persona, no quilate de sua voz. É uma apresentação que possui a dureza de um diamante, mas com o brilho característico da gema.

E é claro, a carreira de Helen dará frutos até mais fartos nos anos subsequentes, mas o gosto que fica é sempre o mesmo, independente de quem analisa: pouquíssimas artistas podem se gabar de um álbum de estreia tão completo, tão único, tão seu. E é essa a pintura que Sade cria no permear dos anos, a de que seu trabalho é tão somente seu, sua histórias, dolorosas tanto para si quanto para aqueles que ouvem, seus amores, visivelmente ardentes, sim, mas queimando mais intensamente dentro de si do que em qualquer ouvido ou pensamento alheio. É a arte quem brilha aqui, e agradecem aqueles que podem testemunhar sua glória.

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