No seu trabalho mais maduro e honesto até agora, Sabrina prova o quão o seu talento ofusca qualquer drama infantil.

EM 18/07/2022
emails i can’t send
2022 • POP • ISLAND RECORDS
POR GERSON MONTEIRO; 18 DE JULHO DE 2022
7.2

Sabrina Carpenter foi uma figura controversa ao longo do último ano. Presa num triângulo amoroso em que o público, principalmente infanto-juvenil, caracterizou ela como a “blonde girl” (alusão à canção “drivers license”, de Olivia Rodrigo) e ser o “motivo” pelo qual Joshua Basset e a dona do estrondoso SOUR terminaram o seu suposto relacionamento, são acontecimentos que fizeram a vida da cantora obscura. No seu novo álbum, emails i can’t send, a artista abre o seu coração e aborda os seus transtornos durante essa época, de uma maneira confessional e, ao mesmo tempo, demonstrando o quão o seu talento supera qualquer polêmica ou drama imaturo. 

Na faixa “because I liked a boy”, temos talvez a abordagem mais direta em relação ao impacto que a controvérsia teve na vida diária de Carpenter. No refrão, temos a cantora a falar sobre as ramificações de ser pega no meio do famoso rompimento: “Now I’m a homewrecker, I’m a slut / I got death threats fillin’ up semitrucks / Tell me who I am, guess I don’t have a choice”. Sabrina compara a inocência do relacionamento dela e de Joshua com a reação brutal da audiência, tudo porque ela gostava de um garoto. A produção da música é uma das mais intensas do projeto, com uma base sinistra no refrão e uma atmosfera melodramática que contrasta com o conteúdo lírico. Em várias outras canções durante o projeto este tópico é citado, mas de uma forma menos acentuada no drama e mais na saúde mental da celebridade, tal como as consequências que provieram de receber ódio do público e a negligência emocional do ex-namorado.

O single “Vicious” é onde encontramos uma versatilidade em Sabrina que nunca foi vista antes. A segunda faixa de emails i can’t send começa com uma batida simplista mas cheia de carisma, lembrando algo que Selena Gomez faria em “Bad Liar”, e a razão disso é precisamente Julia Michaels, mesma produtora nas duas canções. Os vocais de Carpenter resplandecem aqui, variando de tons mais baixos e suaves até um crescendo explosivo que se transforma num completo vício, entoando francamente os altos e baixos do seu ex-relacionamento (“You don’t feel remorse, you don’t feel the effects / ‘Cause you don’t think you hurt me if you wish me the best”). 

No entanto, nem sempre as influências musicais de Sabrina funcionam a seu favor. Dois exemplos disso são “how many things” e “Nonsense”, as músicas mais fracas do álbum. A primeira é uma alusão ao lado mais vulnerável da cantora, abordando como ela se sente inútil aos olhos de seu parceiro, “caindo em suas prioridades”, porque ele não mostra mais nenhum afeto por ela. A canção parece algo que Taylor Swift faria na sua época de estrela em ascensão, mas com uma letra que não se compara, criando metáforas que não são tão inteligentes como pensa (“You used a fork once / It turns out forks are fucking everywhere”). A segunda música assemelha-se a uma coisa que Ariana Grande executaria em Positions, mas sem um charme que macule uma identidade própria, mesmo com a agilidade vocal da ex-Disney.

Em emails i can’t send, a cantora abre o seu coração de uma forma nunca vista, tornando-se o seu trabalho mais sincero e genuíno. O projeto mescla gêneros que acasalam perfeitamente com a voz e carisma de Carpenter, tais como disco, pop e R&B, transbordando confiança e uma atitude de uma futura “main pop girl”. A evolução da cantora aqui é encantadora, porém, o potencial de Sabrina faz acreditar que este ainda não seja o seu ápice artístico, e que algo ainda mais grandioso está por suceder… talvez mais rápido do que possamos pensar.