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"Fader"

2023 •

Ninja Tune

Apesar de uma artista experiente, o novo single de Róisín Murphy soa tão alegre e revigorante como um noviço livre de convenções e normas.
Róisín Murphy - Fader

"Fader"

2023 •

Ninja Tune

Apesar de uma artista experiente, o novo single de Róisín Murphy soa tão alegre e revigorante como um noviço livre de convenções e normas.
20/06/2023

Esta canção, “Fader” — que vem a ser o terceiro single do futuro álbum da irlandesa Róisín Murphy —, chega com recepção calorosa, já que, apenas em 2023, Murphy vem surpreendendo e se superando a cada lançamento. A funky “CooCool” é estupidamente cativante e original, e trata da paixão pura e descontraída, da habilidade de permanecer bem-humorado e positivo mesmo quando se está apaixonado e desejando doentiamente ser amado de volta. Nela, Róisín mostra ser não uma senhora já calejada e ressentida pelos passados amores de sua vida, mas uma noviça que ainda deseja, brinca, é boba, mas não ingênua. Se o melhor lado de amar é se sentir bem, oras, então por que é que o amor não deveria ser como uma brincadeira saudável e mútua? No outro lado da moeda, “The Universe” é uma faixa que traceja uma atmosfera mais obscura e enigmática, contudo que percebe o “desapaixonar” do outro como confuso e inaceitável. Descrevendo-se parte de um relacionamento que se assemelha a um barco à deriva com aquele que se ama, Róisín recusa a desafetação quando percebe que seu parceiro — o capitão do barco — está partindo, sem ela: “And I was like ‘This is not happening to me right now!’”, diz ela.

Por sua vez, “Fader” soa mais como uma celebração da vida e do seu passado, principalmente retomando às suas origens e história. No clipe, liberado junto à canção, Murphy o dirigiu e tentou criar uma parada irlandesa, visualmente bastante semelhante ao carnaval de rua brasileiro, envolvendo, segundo ela, sua cidade-natal inteira, Arklow. No entanto, o que chama de fato à atenção os olhos é o filtro escolhido pela cantora para retratar tal festa: o vídeo se passa do começo ao fim em preto e branco. Não foge à imaginação refletir que isto, na verdade, se deve à natureza personalíssima e afetiva de “Fader”. O tom monocromático distancia a imagem da festa de rua inócua e puramente recreativa, ao passo que aproxima a visão cosmogônica de uma sociedade, de um povo e de sua cultura local. Temas que, especialmente para quem cresce em uma cidade de pequeno porte, são de alto valor afetivo e constituintes da personalidade humana. 

No que tange à composição, o single assinado, mais uma vez, por DJ Koze retrata, de acordo com Murphy, “a vida, a morte e tudo no meio disso” — o que soa ligeiramente como uma referência ao terceiro livro do clássico nerd O Guia do Mochileiro das Galáxias: A Vida, O Universo e Tudo Mais. Apesar disso, observo “Fader” como a celebração da felicidade mais do que qualquer coisa: “They won’t choke the life out my vein jokes”, diz a cantora de “Murphy’s Law”. É interessante notar como cada um dos três singles lançados possui um timbre de voz diferente, o que soa certo já que Róisín identifica que cantar nada mais é do que fazer uma boa mímica de outras vozes. E, enquanto “CooCool” e “The Universe” apresentam Murphy em um tom mais grave, nada mais justo que nesta nova faixa, uma das mais revigorantes dos últimos tempos, uma voz aguda repita constantemente a frase mais grudenta deste ano: “Keep on, keep window shopping, baby”. Enfim, se a vitrine a que Róisín Murphy se refere é seu próximo e altamente antecipado disco Hit Parade, tenha certeza que todos continuarão window shopping pelo que vem por aí.

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