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SAVED!

• Perpetual Flame Ministries

• 2023

9.0

A figuração cristã acompanha Hayter desde o projeto comandado como Lingua Ignota, mas dentro desse conceito, nada chega perto da imersividade angustiante do processo de cura narrado pela alegoria da conversão evangélica de SAVED!.

SAVED!

• Perpetual Flame Ministries

• 2023

9.0

A figuração cristã acompanha Hayter desde o projeto comandado como Lingua Ignota, mas dentro desse conceito, nada chega perto da imersividade angustiante do processo de cura narrado pela alegoria da conversão evangélica de SAVED!.

PUBLICADO EM: 26/10/2023

PUBLICADO EM: 26/10/2023

“Todos saúdam Blind Willy Johnson, que escreveu essas linhas que me impactaram e que espero honrar: Eu estava doente e não conseguia melhorar / Apenas toquei a borda de Suas vestes / Eu sei que Seu sangue pode me curar”. Assim termina o texto publicado no Instagram de Kristin Hayter em agradecimento aos nomes envolvidos no disco SAVED!. Esse trecho também está presente na canção “I KNOW HIS BLOOD CAN MAKE ME WHOLE”, sendo este apenas um dos exemplos dos enxertos de hinos cristãos que a artista compila à composição. Cura e salvação rodeiam o primeiro álbum de Hayter sob seu próprio nome, com a adição do título de reverenda, surgindo Reverend Kristin Michael Hayter. Para os desacostumados com o nome de batismo, Lingua Ignota pode ser uma referência familiar. Isso porque o antigo projeto de Kristin foi encerrado após inúmeros traumas revividos e lançados como catarse musical. Ela não conseguia mais seguir com um trabalho denso que, a cada concerto, mexia e remexia numa ferida que não cicatrizava. Portanto, em novembro de 2022, um fim foi estabelecido, mas estendido para mais alguns shows realizados em 2023 — os últimos ocorreram em Londres dias antes do novo lançamento a partir de outra direção.

Ignota destacou-se por obras abrasivas. Tanto All Bitches Die, como CALIGULA — este que está presente na nossa lista de melhores discos da década de 2010 —, são registros verdadeiramente estonteantes pela maneira litúrgica com que coagula elementos do metal e da música clássica em interpretações vocais impactantes. Sua composição sempre foi muito sensível, contorcendo a carne e expondo a desumanidade e as consequências devastadoras de relações abusivas. Não é difícil de se imaginar que canções como “DO YOU DOUBT ME TRAITOR” requerem da artista um potencial esforço a cada performance, não apenas vocal, mas também físico e psicológico — vale a pena conferir a apresentação de 2019 realizada em Basilica SoundScape. Já no caminho oposto, SINNER GET READY, é o registro que mais se aproxima de SAVED!. Isso porque Ignota abaixa o tom e canta de um lugar em que sua voz não é utilizada com tanta potência, apesar de ainda ser poderosamente maleável por meio de uma produção que também busca outro espaço, saindo do noise e indo para o folk já se agarrando em elementos religiosos.

A figuração cristã acompanha Hayter desde o projeto comandando como Lingua Ignota, mas dentro desse conceito, nada chega perto da imersividade angustiante do processo de cura narrado pela alegoria da conversão evangélica de SAVED!. Ao longo de onze faixas, algumas com durações de interlúdios, a artista destrincha seu apocalipse interno com o excepcional talento e a desenvoltura da qual é reconhecida. Os momentos que revivem seus traumas aparecem sutilmente, sem tantos detalhes, como na letra do segundo single “I WILL BE WITH YOU ALWAYS”: “In the night I was beset with demons / I know all their names but cannot speak them / Their grinning teeth split the darkness and I said: I know your name, take your teeth out of me / Return my body to me, release me, release me / Rеlease me, rеlease me, release me”. Incessantemente clamando por libertação, Kristin mobiliza paradoxos desenhando um lugar confuso, ela está salva, mas perdida ao mesmo tempo. Em recente entrevista, Hayter nem mesmo soube situar sua crença com clareza: “Sinceramente, não sei no que acredito […] acho que meu trabalho está tentando se envolver com essa pergunta de maneira desesperada e insana. Eu realmente gostaria de saber no que acredito, mas não acho que tenha chegado lá ainda”.

Por isso SAVED! é fruto de um exercício formidável de execução e conceitualização. Não é envolto por quase nenhum recurso eletrônico, sendo “IDUMEA” a única canção que apresenta sintetizadores, em contraste ao predominante piano e ao banjo. Hayter intencionou fazer um álbum orgânico. Por destreza, conseguiu: o resultado é uma obra que parece perdida no tempo, antiga e ilocalizável, fruto do árduo processo criativo junto do colaborador de longa data, o produtor e engenheiro Seth Manchester. Todo o aspecto sonoro vem de gravações em fitas sem alterações digitais. Mas, além disso, os parceiros de trabalho danificaram e manipularam as gravações, fornecendo efeitos de textura deteriorada para ser possível chegar mais perto do objetivo, como se fosse um material abandonado no fundo do baú que num futuro curioso é resgatado. Enquanto distorce seu som, o progredir das faixas revela a incessante busca por identidade, passar por tantos traumas parece requerer algo no que acreditar. A ideia da dupla já é vista na primeira música, a andarilha por salvação “I’M GETTING OUT WHILE I CAN”, composta por recorrentes falhas como se o material no qual é reproduzida estivesse sem energia.

Mesmo clamando por salvação, por não se reconhecer plenamente e não ter firmeza no que acredita, SAVED! é uma extensão da característica produção assombrosa de Ignota. A sonoridade desenvolvida no antigo projeto sempre foi muito carregada, densa e difícil de ser digerida, também por sua composição, e aqui o aspecto incomodativo é mantido mediante outro recurso capaz de arrepiar a espinha dorsal: o falar em línguas desconhecidas, chamado de glossolalia. Esse estágio foi possível graças a um conjunto de condições: privação de sono, jejum e repetição de orações. Em várias canções esse elemento é utilizado, mas a mais impactante fica com a traiçoeira construção calma da última faixa “HOW CAN I KEEP FROM SINGING”. Kristin adota vocais suaves que acompanham o piano, mas ao fundo o balbuciar é gradativamente elevado até que os últimos minutos revelam uma sequência de palavras não identificadas, choro e confusão. Perturbador! Tudo é reflexo de perguntas das quais ela não tem respostas. Enquanto canta sobre salvação, Hayter dificilmente parece acreditar em uma, mesmo que em “ALL OF MY FRIENDS ARE GOING TO HELL” ela soe convicta disso quando clama por misericórdia divina: “I walked in the dark and I lost my way too / But I’m on my knees in the place where I fell / Begging God, Save my soul, please, don’t send me to Hell”.

Outro ponto elementar de SAVED! é a adição de hinos cristãos. A faixa “HOW CAN I KEEP FROM SINGING” é um desses casos. A música, conforme é comum em hinos, sofre de constante adaptação e reinterpretação, além de depender da fragmentação da transmissão oral de cada comunidade cristã, processo que também atinge Hayter. Excetuando os singles, o disco é composto quase que inteiramente por interpretações de canções gospel, estas datadas do século XVII ao XX. Algumas informações sobre a origem de cada hino — bem como possíveis compositores — podem ser verificadas no banco de dados Hymnary.org. Isso porque, além de passarem por adaptações autorais, inclusive movidas pelo contexto político, os títulos são alterados e o processo de conhecimento é tão amplo que nem mesmo mapear os autores de alguns hinos é possível. No mais, quando não foca nas primorosas reimaginações conduzidas pela angustiante produção, a artista é livre para emprestar a melodia de “War Pigs” de Black Sabbath e adicionar em “ALL MY FRIENDS ARE GOING TO HELL”, canção que a cantora diz ser inspirada em The Louvin Brothers, dupla de gospel atuante na década de 1950.

Algumas canções são mais curtas. Os interlúdios “THERE IS POWER IN THE BLOOD”, “PRECIOUS LORD TAKE MY HAND” e “NOTHING BUT THE BLOOD OF JESUS” são momentos que ganham a sonoridade contagiante do country e se estabelecem como respiros diante do sofrimento. Assim, além da produção asfixiante, a performance vocal de Hayter torna as reinterpretações ainda mais grandiosas. Sua voz transita entre momentos serenos e outros em que ela sobe o tom, não são como os gritos catárticos de CALIGULA, mas ainda assim elevados ou prolongados o suficiente para fixar sua súplica, como “MAY THIS COMFORT AND PROTECT YOU”, “THE POOR WAYFARING STRANGER” e “I KNOW HIS BLOOD CAN MAKE ME WHOLE” e seus versos finais: “I was sick and I couldn’t get well (4x) / I Just touched the hem, just touched the hem / Just touched the hem of His, of His garment / I know His blood can make me whole”. Para além da artista, “IDUMEA” vem recheada de vocais, totalizando doze vozes que se avolumam não necessariamente formando um coro uniforme, parecem sobrepostas e adicionadas para soar desconexas, formando igualmente um momento majestoso.

Nas poucas entrevistas que concede, Kristin Hayter reconhece estar num lugar melhor. Diferente dos momentos que viveu com o antigo projeto. Mas mesmo que eles tenham se tornado gatilhos emocionais, foram espaços cruciais para expor seus sofrimentos e “curá-los a partir da música”, ou ao menos amenizá-los. SAVED! é fruto de outra situação. Um espaço que tem como principal objetivo tratar o inferno pessoal a partir da alegoria da salvação. Igualmente é um projeto desafiador e incisivo de uma artista capaz de transmitir emoções únicas. E as escolhas para expressar o tormento são muito bem-sucedidas, desde os pouquíssimos arranjos instrumentais até a potente utilização de glossolalia — que faz um paralelo, inclusive, com Lingua Ignota, do latim “idioma desconhecido”. Mobilizando figurações entre salvação e condenação, Reverend Kristin Michael Hayter surge no final de 2023 com um disco marcante, reflexo de um trabalho de inspirações e experimentações ousadas. Assim, mesmo mergulhada em estética e composições religiosas, ela não quer converter o ouvinte, muito menos salvá-lo livrando da “perdição” e do pecado, mas usar o cristianismo para desenvolver sua mudança de vida, pessoal e artística, deixando bem claro que no processo de cura também há dor.

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