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My 21st Century Blues

2023 •

Independente

7.9
Em seu álbum de estreia, RAYE se mostra ainda mais grandiosa e promissora do que parecia ser.
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My 21st Century Blues

2023 •

Independente

7.9
Em seu álbum de estreia, RAYE se mostra ainda mais grandiosa e promissora do que parecia ser.
09/02/2023

Uma potência refém da coerção de homens brancos, ricos, heterossexuais e cisgêneros. Assim podem ser definidos, logo de cara, os primeiros anos de carreira da jovem RAYE. Antes contratada pela Polydor, a britânica viu o tempo passar com sua liberdade criativa sendo completamente aniquilada, tornando-a uma mera intérprete de hits pasteurizados de EDM que nada refletiam suas verdadeiras aspirações artísticas. Enquanto isso, o tão aguardado álbum de estreia sequer via a luz do dia. Agora, sob um selo independente, a cantora pôde, finalmente, contar sua história da maneira que pretendia; ou melhor, histórias. Isso porque o My 21st Century Blues, primeiro disco da artista, reúne uma série de acontecimentos, traumas e sensações que permearam sua vida. 

Pelos singles lançados previamente, do dance-pop soturno de “Black Mascara.” à psicodelia que se faz presente no arrebatador sucesso “Escapism.”, já era de se esperar que o projeto traria bastante densidade em sua composição e, por isso, talvez não fosse de fácil absorção. E, de fato, passa longe de ser. São tantas informações, sonoridades e nuances no registro que a escuta, em diversos momentos, se torna caótica. Não se trata de um demérito, mas de uma peculiaridade que ocupa o corpo da obra quase que por inteiro, sem que as faixas pareçam desconexas ou sem sentido. Do início ao fim, RAYE tem pleno controle da mensagem que quer transmitir aos seus ouvintes e, dessa forma, tudo acaba conversando muito bem. 

Segundo a cantora, o álbum é tão honesto que nem mesmo alguns de seus amigos mais próximos sabiam de tudo o que foi exposto ali. E ela não hesita em tocar em assuntos espinhosos. Em “Ice Cream Man.”, a música mais vulnerável do projeto, uma situação de abuso sexual é narrada escancaradamente. “Should’ve heard what he was saying / Tryna touch me, tryna fuck me / I’m not playing / I should have left that place as soon as I walked in it / How Goddamn dare you do that to me, really?”. A transparência de RAYE também pode ser observada em outras canções; a começar pelo título, como é o caso da ótima “Body Dysmorphia.”, uma das melhores faixas da obra e que fala sobre transtornos alimentares. “How can I expect you to romance me, touch my body, baby? / I don’t even want to take it off for you / So turn the lights off”. 


Ademais, um dos grandes atributos do registro é ser sonoramente diverso sem deixar de lado a coesão, o que só evidencia ainda mais o quão criminoso foi limitar a criatividade da artista anteriormente. Influências de jazz, blues e até gospel preenchem o disco com músicas que fazem um contraponto perfeito com o pop-rap e o R&B contemporâneo em outras. E, nessa miscelânea, se destacam “Oscar Winning Tears.”, “Hard Out Here”, “Mary Jane.”, “The Thrill Is Gone” e “Buss It Down” como a síntese do que pode ser encontrado de melhor no projeto. Ainda é cedo para fazer grandes proposições sobre a carreira de RAYE, que somente agora teve uma estreia digna, mas não seria exagero dizer que ela tem potencial para se tornar um dos nomes mais completos da atualidade. My 21st Century Blues é um disco ambicioso, furioso e potente, fazendo jus a todas as expectativas que foram colocadas sobre ele.

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