1997

Parlophone/Capitol

OK Computer

O terceiro disco do Radiohead, OK Computer, é uma obra-prima, um retrato cruelmente fiel de uma distopia posto contra um som que é uma ode para a experimentação e para o rock clássico.

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EM 01/08/2022

Em 1995, o Radiohead entrou em uma turnê de apoio para seu segundo disco, The Bends (1995). Eles haviam embarcado em um ônibus estilo American Eagle e estavam dando continuidade à sua missão quase suicida de performances ao vivo e estúdio — apenas naquele ano de 1995, incluindo todas suas aparições, eles haviam feito um total 177 concertos. Durante essas viagens, também, os britânicos aproveitavam o tempo livre para compor novas canções. Segundo o guitarrista Ed O’Brien, embora o estresse imensurável dos shows, aqueles dias haviam sido umas das “melhores memórias da banda”. Mas houve um momento em particular que merece um maior destaque: certo ponto de março de 1996, os meninos da banda estavam matando tempo ouvindo a versão em áudio de O Guia do Mochileiro das Galáxias, livro de Douglas Adams, no ônibus quando uma frase chamou atenção. No momento em que uma voz de computador diz que não era capaz de defender a nave espacial dos mísseis, Zaphod Beeblebrox responde: “Ok computer, eu quero controle manual completo agora”. Yorke rapidamente anotaria essa frase, que alguns dias depois iria se tornar o título de um dos melhores álbuns da história do rock.

Os meses que precederam os estágios de produção de Ok Computer já pareciam direcionar a banda para algo maior e substancialmente diferente de tudo que eles já haviam feito. Se o disco de estreia deles, Pablo Honey, era repleto de instrumentação mais prensada e composições que quase sempre rondavam as angústias pessoais de Yorke, The Bends moveu em uma direção um pouco divergente. Embora ainda carregasse diversos elementos semelhantes, o segundo disco deles contou com um forte uso de teclados, bem como instrumentação em multicamadas e um lirismo encriptado que ia contra o teor intimista de Thom. Todavia, o que realmente divergia da configuração de The Bends para Pablo Honey era o sucesso que “Creep”, um dos singles do primeiro registro, havia se tornado. Como lembra Tom Footman em seu livro sobre Ok Computer, essa faixa tinha saído da bolha que as bandas alternativas de rock costumavam tocar, sendo veiculada tanto em séries de TV, como filmes. Como consequência, o processo tranquilo que foi a concepção de Pablo Honey tornou-se algo estressante na nova obra, ainda que fosse animador, visto que John Leckie, que anteriormente havia trabalhado com Pink Floyd e John Lennon, era um dos novos produtores.

Nas sessões de gravação de The Bends, um inferno foi criado. Em grande parte, todo caráter caótico que esse período assumiu se deu pela responsabilidade que as gravadoras — Parlophone, no Reino Unido, e Capitol, nos Estados Unidos — colocaram em cima dos novos lançamentos da banda. Isso porque eles queriam que essas novas canções fossem os próximos sucessos, seguindo as linhas de “Creep”. Por outro lado, isso fez com que as pressões em cima dos membros os forçasse a quebrar com sua união, com cada um deles querendo seguir uma direção diferente. Yorke, na época, disse para Leckie que sentia dor de estar no estúdio pelo que o processo de criação havia se tornado. Mas Leckie, por sua vez, conseguiu remediar a situação. Nos meses seguintes, o Radiohead estava unido para algumas datas de shows e em uma dessas foi tocada pela primeira vez “My Iron Lung”, o primeiro single do The Bends, com suas fortes influências em Nirvana e Pink Floyd e lírica que mesclava o orgânico com mecânico. Era claro que Leckie havia expandido a bagagem da banda, fazendo com que eles conversassem mais objetivamente com seus gêneros de base.

“My Iron Lung” não chegou perto do sucesso de “Creep”. Embora os executivos de ambas as gravadoras não tenham gostado dessa situação, o material que o Radiohead estava lapidando para The Bends ainda se mantinha interessante. A canção que deu nome ao álbum estabelecia uma conversa direta com o cenário que a banda estava passando: o termo configura um estado no qual bolhas de nitrogênio entram bruscamente em grande quantidade na corrente sanguínea de mergulhadores que ascendiam rapidamente. No entanto, para além dessas composições menos pessoais, como mencionado anteriormente, o som foi o grande destaque, com grande aposta em uma paleta expandida. Leckie com certeza foi o responsável por isso, levando eles a trabalhar não somente dentro da própria coleção de discos, mas também explorando um novo terreno. Isso fica claro, talvez, nas três canções mais chamativas do disco: “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” e “Nice Dream”. No final, The Bends não teve tamanha repercussão esperada, mas pelo menos teve uma recepção calorosa da crítica

Porém, se o Radiohead, por um instante, achou que a pressão imposta a eles por conta do The Bends havia terminado, ele estava enganado. Embora o disco tenha tido uma recepção morna no território estadunidense, eles embarcaram numa forte onda de shows. Em certo momento, essas apresentações estavam forçando o físico dos membros, com vários deles sofrendo de infecções e outros problemas de saúde, chegando até a crises mentais. Em janeiro de 1996, eles deram uma pausa, seguindo para fevereiro, onde começaram a planejar seu novo registro. Para ele, eles queriam um álbum que fosse mais positivo do que seu antecessor. Além disso, eles estavam mais familiarizados com o estilo de produção industrial das grandes gravadoras e com um maior número de produtores: Scott Litt se juntava junto com Nigel Godrich que voltava. Mais tarde, naquele ano, em agosto, eles abririam shows para Alanis Morissette nos Estados Unidos, nos quais teriam oportunidade de tocar canções experimentais que, posteriormente, entrariam em OK Computer — como por exemplo “Let Down” e “Paranoid Android”.

Por mais que os britânicos estivessem com suas agendas cheias, eles conseguiram espaço para dar continuidade às suas gravações. Durante março e abril de 1996, eles gravaram diversas canções no estúdio Canned Applause, que ficava perto de suas casas em Oxfordshire. Todavia, a estrutura industrial ainda não era totalmente agradável. Como resposta, St. Catherine’s Court, uma mansão inglesa, apareceu. Ela era de Jane Seymour, uma atriz conhecida por seus papéis em alguns filmes de James Bond. Embora a banda nunca tenha conhecido ela, a residência foi posta à disposição — com a condição que seus gatos fossem bem alimentados. Toda arquitetura da casa gerou variações na acústica das gravações, bem como sua solitude influenciou as composições sobre mortalidade e fantasmas. No final daquele ano, as gravações haviam acabado, seguindo para mixagem e finalização no começo de 1997. Logo depois, a banda descansou para, novamente, uma série de performances. OK Computer foi lançado em 21 de maio de 1997, chegando apenas nos Estados Unidos oficialmente em 01 de julho. 

OK Computer foi lançado em um momento complexo e definível para o rock. Naquele período, quase final dos anos 1990, o gênero passava por transformações fortes, em que nada parecia genuinamente novo, as formações de bandas pareciam datadas, forte fragmentação em diversos subgêneros, além de saturação do alternativo e do grunge, que, embora tenham sido casa das maiores bandas do começo daquela década, como Nirvana e Pearl Jam, estava começando a perder seu brilho. Ainda que, em Pablo Honey, eles tenham caído sobre esse modelo e The Bends tenha tentado dar indícios dessa libertação, foi apenas em OK Computer que eles concretizaram sua partida para longe desse padrão: eles não deixaram de lado o alternativo, mas trouxeram novas texturas, experimentações e inspirações para sua composição. Nesse sentido, dentro de seu próprio cenário, OK Computer se manifestou como uma obra pensada num suposto futuro, mas que também resgatava, por exemplo, o caráter de banda e como cada membro performou uma participação substancial.  

Conquanto grande parte das canções de OK Computer tenham surgido de fortes sessões de experimentação em Catherine’s Court, maioria delas gravadas em live, “Lucky”, a primeira canção gravada do registro, tivera sua criação direcionada de forma um pouco divergente. Foi em 1995 que Brian Eno abordou o grupo e pediu que eles fizessem uma canção para The Help Album, um disco de caridade. Naquela época, havia uma guerra na Bósnia, e Eno, junto à instituição War Child, realizou o projeto para ajudar as crianças afetadas pela guerra. “Lucky”, apesar disso, está longe de ser uma canção infantil: inicialmente ela era politicamente carregada, porém seu resultado final retrata um acidente de avião, refletindo um medo particular de Yorke com meios de transporte. 

Uma das canções mais calmas e sombrias do álbum, “Lucky” é, também, uma ode para o rock clássico, inspirado por bandas como The Eagles e Led Zeppelin, fato que mostrava que o leque de referência do Radiohead havia se estendido. Isso se torna concreto por todo o registro. Em “Paranoid Android”, por exemplo, eles exploram divisões em suítes, parecido com que o Queen havia feito em sua obra-prima de opera rock, “Bohemian Rhapsody”. Enquanto isso, “Airbag” conta com forte influência da banda alemã de kraut rock Can, como também DJ Shadow. “Subterranean Homesick Alien”, por sua vez, conversa com o material psicodélico lançado por Mile Davis décadas antes. Dessarte, OK Computer não foi um registro apenas voltado para sua experimentação, bem como uma ode para o passado. 

Por mais que OK Computer tenha se distanciado de composições intimistas, grande parte das canções era um espelho dos sentimentos e experiências da banda, principalmente do vocalista. É interessante pensar que talvez as canções não tenham parcialidade no conteúdo, mas sim assumido uma forma imparcial. “Airbag”, abertura do registro, é uma das peças mais memoráveis da história do rock. Com fortes riffs de guitarra violentos no começo, a canção se conecta com “Lucky” tanto pelo medo de Thom, que anos antes havia sofrido um acidente de carro, quanto pela questão de reencarnação humana (“I am born again / In a fast German car / I’m amazed that I survived / An airbag saved my life”). Com forte destaque para cordas, grande parte da atmosfera é composta por um viés onirico, que, misturado com sintetizadores e turbulências digitais, cria uma sensação de que  aquilo — e o restante do álbum — é, na verdade, uma simulação eletrônica.

Essa imparcialidade mencionada logo em cima se concretiza quando Yorke, embora cante em primeira pessoa, transmite sentimentos que podem ser generalizados. Dentro desse aspecto, “Subterranean Homesick Alien” é um forte exemplo, com ele cantando sobre querer ser abduzido por aliens, deixando de ter um papel ativo na história da raça humana, sendo apenas um observador (“Up above aliens hover / Making home movies for the folks back home / […] / Take me on board their beautiful ship / Show me the world as I’d love to see it”). Esse certo voyeurismo é completado por mesas digitais que ajudam a edificar a sensação de uma nave espacial. Seguindo para “Let Down”, uma das mais cativantes, ela reflete sobre o viés devastador das emoções e sobre a necessidade de, de vez em quando, curtir seu próprio tédio: “Let down and hanging around / Crushed like a bug in the ground”. Narrativas intimistas e vocalistas dando voz a um grupo não era novo na época, mas Radiohead criou uma nova forma de fazer isso, perdendo vista das barreiras.

OK Computer pode não ter tido um conceito quando foi projetado, porém há elementos que coincidem entre suas narrativas. Para além da temática de alienação e sua relação de tecnologia, que perdura os mais de cinquenta minutos de duração do registro, política tinha se tornado um tópico pertinente e como isso se transfere do macro para o micro. Na melódica e sútil “No Surprises”, um homem tenta cometer suicidio pelo cenário político de seu país, enquanto “Electioneering”, com seu cinismo, tornou-se uma das mais potentes músicas políticas contra o neoliberalismo. Porém, dentro disso, “Fitter Happier” é a mais assustadora, cantada pela voz apática de um computador e retratando a sociedade moderna do consumismo: “Fitter, healthier and more productive / A pig In a cage / On antibiotics”. É tecnicamente simples, mas esse é seu poder, resgatando a noção de tudo ser apenas uma simulação.

Em outros momentos, algumas das canções de OK Computer soavam boas puramente por sua essência. “Paranoid Android”, por exemplo, joga com palavras, de que androides não podem ser paranóicos visto que não carregam a consciência humana necessária, enquanto brinca com fortes crescendo sintéticos. “Exit Music (For A Film)”, foi a segunda canção finalizada para o registro e ela havia aparecido no filme Romeo + Juliet, de 1996. Junto de “Lucky”, essas canções eram claramente mais sombrias, no caso desta, principalmente, por sua instrumentação quase mórbida. Por fim, “Karma Police” resgata um princípio budista com um certo humor, sendo tocada na frente da sonoridade mais rebel rock do álbum: “Karma police, arrest this man / He talks in maths, he buzzes like a fridge / He’s like a detuned radio”.

Quando OK Computer foi lançado, ele foi uma espécie de filho esquecido. Enquanto a Capitol estava desacreditada contra seu poder comercial, abaixando seu investimento em até quatro vezes, a banda estava embarcando em turnês, o que dificultou sua divulgação visto que as pessoas que estavam nesses concertos muitas vezes não tinham noção desse novo registro e estavam lá por outros motivos. Nesses últimos 25 anos, claro que o disco se pagou: a obra-prima do Radiohead que retrata uma sociedade distópica com seu som futurista e igualmente saudosista é um dos melhores discos de todos os tempos — alguns afirmam que é o melhor. Mas seu processo, até para os padrões de hoje, foi conturbado, inclusive fazendo com que a banda quebrasse em vários momentos. Mas ah… isso é uma história para outro dia.

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