Flux
2021 • POP/ROCK • SUMERIAN
POR KAIQUE VELOSO; 27 de SETEMBRO de 2021
7.9

Diferente dos demais artistas, para Poppy, um passo adiante é abrir mão da ousadia, a fim de tornar-se ligeiramente previsível. Isso tampouco significa a perda de qualidade ou esforço artísticos: o fato é que, tanto para quem já a conhece, quanto para quem nunca sequer a viu, sua única certeza apenas pode ser a imprevisibilidade — ou podia. Conforme exemplos de seu segundo álbum, Am I a Girl?, definido pela youtuber como um disco sobre moda, gênero e a busca pela resposta para sua crise existencial, algo que é deixa de ser em poucos instantes. A faixa “X”, por exemplo, que parece hippie e psicodélica, logo se transmuta em uma agressiva e sangrenta canção de rock. Em Flux, (quase) não se observa o mesmo fenômeno; as músicas são, portanto, mais costumeiras, pois seguem uma estrutura linear e típica de versos e refrões.

Nesse sentido, o presente trabalho mostra-se uma consciente evolução. O choque momentâneo pela mudança brusca de gêneros — característica que levou a cantora a classificar seus últimos lançamentos como “post-genre” — ora adquiriria aspecto caricato ou redundante. Afinal, se todos já esperam que você os impressione, não há surpresa nem valor algum nessas transições, certo? Por isso, a decisão mais sábia e assertiva foi produzir os itens de seu novo álbum nessa roupagem alt-rock menos arriscado, mas mais coerente. Isso, é claro, sem deixar de resgatar e aprofundar temas pessoais tratados no I Disagree, de 2020, como sua experiência com a personagem Poppy, criada e dirigida, até então, por seu ex-produtor e ex-namorado Titanic Sinclair.

A faixa-título que introduz o disco tem certos elementos que se destacam, entre eles o início experimental e abstrato que cria uma atmosfera aterrorizadora, mas logo desfaz-se em uma melodia simples e usual. O interessante dessa primeira canção é o timbre utilizado por ela: em vez de falsetes extremamente agudos, como em seus primeiros projetos, ou os rasgados gritos aflorados pela sua personalidade metal, Poppy está, de fato, cantando com forte voz de peito. Por sua vez, a mensagem de aceitabilidade da vida e de leve suspensão do juízo que “Flux” carrega vai de encontro a “On The Level”, na qual a roqueira, em sua primeira canção de amor, admite a desaceleração do ritmo e a despreocupação com a vida, já que, embora a iminência dos reveses seja real, há a satisfação da alma até lá. “When we’re dead and gone, we all decay / But love can carry us until that day”, diz a atual parceira do rapper Ghostemane.

Após o término com seu ex-namorado e cocriador da personagem, Poppy fez-se bastante clara e reveladora nas letras de suas músicas. Em diversos momentos em I Disagree, como em “Anything Like Me”, “Sit/Stay” ou a nomeada ao Grammy “BLOODMONEY”, Moriah Pereira — e desta vez, é de suma importância dizer seu nome real — elucida ao público os aspectos controladores de seu relacionamento abusivo, no qual ela era descreditada e objetificada por seu parceiro. Paralelamente, em Flux, a cantora minucia sua história, sempre destacando o caráter dominador. “Her”, “Hysteria” e “Bloom” são as principais. Na primeira, um dos singles, Pereira reencontra-se consigo mesma, e as atitudes sufocantes que seu passado tóxico perpetrou são aliviadas pela resolução no final, que diz: “The girl that you knew will never be yours”. Analogamente, “Bloom” trata de renascença e retorno, quando canta “And you took what I gave to you / I took it back from you”.

Em suma, o quarto álbum de sua discografia talvez seja o seu menos intrigante, contudo seu mais assimilável. Seria difícil uma sequência ao nível de seu último e maravilhoso EP EAT. Flux apresenta ótimas melodias, batidas cativantes, lirismo pessoal, domínio vocal suavemente aprazível, mas forte o suficiente para manter a essência do rock. Aquela que nasceu como um meme do YouTube, hoje tornou-se uma artista respeitada e admirada por muitos — principalmente por seus fãs, que a seguem como uma líder. Após sofrer diversas melhorias de software ao longo dos anos, Poppy abre mão de medos e de expectativas alheias para continuar sua genuína missão de fazer do mundo um lugar “feliz e fofo”.