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I Inside the Old Year Dying

2023 •

Partisan

5.5
I Inside the Old Year Dying é um dos trabalhos mais desinteressantes que Harvey já lançou.
PJ Harvey - I Inside the Old Year Dying

I Inside the Old Year Dying

2023 •

Partisan

5.5
I Inside the Old Year Dying é um dos trabalhos mais desinteressantes que Harvey já lançou.
18/07/2023

PJ Harvey é uma das artistas mais mutáveis e intricadas da música contemporânea. Por conseguinte, é complicado tentar ponderar e rastrear sua carreira como uma totalidade. Com isso, percebe-se ela divididas entre três grandes fases. Na primeira, composta pelos seus melhores trabalhos até hoje — Dry (1992), Rid of Me (1993) e To Bring You My Love (1995) —, uma explosão de rock alternativo pautada pelo feminismo foi a maneira pela qual ela canalizou seus sentimentos de raiva e amor. No segundo instante — momento esse em que o clássico Stories from the City, Stories from the Sea é lançado —, suas canções passam por experimentações ousadas, abandonando sua composição direta e partindo para ares mais poéticos. Por fim, desde 2001, a cantora está nessa fase em que sua música é extremamente madura e refinada e, influenciada pelo clássico e medieval, trabalha em cima de assuntos políticos da maneira mais estridente. 

Essa é uma introdução bem engessada, com um rápido panorama técnico e histórico, mas logo faz-se importante como princípio norteador para tentar entender em qual lugar o último disco de Harvey, I Inside the Old Year Dying, se encaixa. Porém, mesmo com isso, é um pouco implexo tentar compreender como esse registro dialoga com os trabalhos anteriores da cantora. Especialmente desde White Chalk (2007), PJ vem tentando diferir de tudo que ela já foi. I Inside the Old Year Dying, por sua vez, soa definitivamente PJ Harvey, mas também parece ter peças faltando para se tornar uma ideia concreta. Esse é o primeiro registro da vocalista em seis anos — desde The Hope Six Demolition Project, de 2016 — e é seu segundo trabalho inspirado em peças de literatura escritas por ela própria. Nesse caso, o disco bebe diretamente de Orlam, um poema épico escrito pela cantora que investiga o significado do amor e vida. Porém, por mais que esse novo material tenha sua parcela considerável de PJ e não seja nada consideravelmente novo em sua carreira, parece solto perante aos demais trabalhos da artista. 

Nesse sentido, I Inside the Old Year Dying é um dos trabalhos mais desinteressantes que Harvey já lançou. Construído com base no poema autoral da cantora, e com forte influência de William Shakespeare, o álbum é uma obra presunçosa e de difícil acesso. Sua produção é mais soturna — se me falassem que foi inspirada em Birth of Violence (2019), de Chelsea Wolfe, eu acreditaria — e sua composição é totalmente metafórica — há uma presença grande de dialetos que grande parte das pessoas não vão saber associar. No entanto, embora seu teor mais sofisticado, PJ fez uma troca arriscada: por mais que sua música tenha atingindo picos de subtileza, o sentimento é que esse trabalho não diz nada, embora tenha muita coisa para dizer. Em outras palavras, mais simples, é o registro mais nichado e sem propósito da cantora. 

Lendo as letras do I Inside the Old Year Dying, rapidamente lembrei do estilo de escrita de Joanna Newsom: imaginários medievais complexos de subtexto e simbolismos. No entanto, a diferença entre Newsom e Harvey é latente nesse registro: enquanto Joanna sutura sua narrativa, finalmente retirando um sentido dela, PJ carece desse movimento, deixando seus enredos com pontas abertas e soltas — e até demais. Logo na canção de abertura, “Prayer at the Gate”, isso já pode ser avistado: por mais que o som da faixa consiga espelhar bem os versos da música, é um esforço muito grande tentar tirar qualquer significado. E quando isso não é o caso, a sensação é de uma narrativa sem motivo. “Autumn Term” é um pouco mais intuitiva e “Lwonesome Tonight” têm descrições instigantes de fauna e flora, no entanto, não adicionam nada — nem no disco, nem na carreira da artista.

Enquanto a lírica não é um chamariz, a produção até consegue ser um pouco mais dinâmica. Voltando para “Autumn Term”, os vocais em falsete da cantora carregam um charme, ao passo que “Lwonesome Tonight” faz um bom uso de cordas contidas e sintetizadores sutis para sedimentar sua atmosfera. Entretanto, o que realmente acontece é a carência de energia que todas as músicas do registro tem — ou, em outras palavras, a falta que o estilo punk e rock presente no começo da carreira dela. “Seem an I”, “I Inside the Old Year Dying” e “A Child’s Question, August” são os momentos “mais rock” de I Inside, e só servem para provar que Harvey funciona melhor quando está sendo ela mesma do que quando tenta ser essencialmente diferente. Definitivamente, não há um problema em fazer um disco não acessível, todavia, não espere que sua mensagem tenha um impacto — porque não terá. 

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