Ugly Season
2022 • ALTERNATIVO/EXPERIMENTAL • MATADOR
POR LEONARDO FREDERICO; 22 de JUNHO de 2022
8.4
MELHOR LANÇAMENTO

Se você colocasse o disco de estreia de Mike Hadreas sob o nome artístico de Perfume Genius, Learning, de 2008, ao lado de seu registro de 2020, Set My Heart on Fire Immediately, você veria que eles andam paralelamente. Claro, as diferenças entre esses dois são gritantes: enquanto o primeiro foi gravado amadoramente por Hadreas, conduzido majoritariamente por um piano e captando até mesmo as pisadas do cantor no instrumento; o segundo emergiu como uma obra-prima em potencial, com produção densa, potente e algumas das composições mais intrínsecas do artista até então. Todavia, o que une as duas pontas dessa linha é justamente a essência desses álbuns: ambos são brutalmente e visceralmente honestos em sentimentalismo, narrando histórias que, apesar da vontade, nem sempre terminavam em um final feliz. Eram enredos amarrados por tragédia e, muitas vezes, morte e perda de inocência. 

Ugly Season, seu último disco, no entanto, surge como a maior mudança na carreira de Perfume Genius. Esse é um álbum lançado com canções para um projeto musical performático de dança que Genius fez com Kate Wallich, chamado The Sun Still Burns Here, em 2019. Esse feito, por si só, molda totalmente a concepção do registro. Se até agora seus trabalhos eram voltados, em grande parte, para seu interior, como uma varredura intensiva sobre suas próprias experiências, Ugly Season se arremessa para fora e atua menos forte na análise que se debruça em questões de sexualidade, traumas e vícios de Hadreas. Sob outro enfoque, esse é o momento mais ousado de sua carreira, sendo assim seu disco mais experimental e, de certa forma, visionário — o que fez dele, também, um dos menos acessíveis.

O fato deste ser o trabalho mais empírico de Perfume Genius é permeado desde sua criação: com seu planejamento não ortodoxo e canções que esbanjam ideias que se recusam a seguir traços normativos. Obviamente, as obras de Hadreas raramente se encaixaram em padrões ou gêneros com exceção do alternativo, o que por si só é contestável, visto que tanto seu som quanto sua composição pareciam sempre à frente do seu tempo. Mas em Ugly Season, as barreiras são quebradas de vez. Na faixa de abertura, por exemplo, ele funde sons de guerra escocesa (uma corneta grossa sobreposta por uma gaita de fole no início) com um terror psicológico facilmente produzido pela A24, finalizando com pinceladas de Medulla, de 2004, de Bjork. “Ugly Season”, por sua vez, se baseia em batidas de R&B, praia e industrial para se concretizar. Grande parte dessas músicas não trabalham com novos sons, mas também com maneiras inéditas de integrar essas sonoridades.

Essa experimentação, contudo, não se mantém em níveis superficiais. Em diversos instantes, Hadreas olha para momentos genéricos, extrai sua essência e ressignifica suas estruturas, trazendo um novo olhar para fórmulas desgastadas. “Pop Song”, é o melhor exemplo disso, com ele desarmando uma canção pop e usando seus elementos estereotipados para uma nova reconfiguração. Observe os sintetizadores do começo, que, em outras canções, se manteriam esquecidas no fundo, aqui ganham mais destaque. Ou então, para construção que no lugar de um refrão cantado ou repetições de harmonias saturadas, se permite catalisar com uma explosão instrumental. O mesmo se repete mais tarde, em “Eye in the Wall”, onde uma estrutura normativa popular é estendida para quase 9 minutos, mas ainda consegue ser cativante. 

Trabalhar em cima de experimentações é um risco. Por um lado, você pode apostar em tendências e formas que nunca foram feitas — ou raramente são feitas — e atingir um estado de precursor. Por outro lado, as chances de errar são igualmente maiores, o que, na prática, explica porque a maioria dos artistas mainstream ainda seguem padrões prontos de produção. Até hoje, Hadreas errou apenas em não fazer com que algumas de suas faixas fossem tão fortes quanto as outras. Em Ugly Season, em contrapartida, por sua experimentação, erros parecem mais latejantes. Para além de alguns momentos espalhados que são repetitivos e, honestamente, até monótonos, Genius solta duas canções que possuem ideias boas na teoria, mas não funcionam na prática. “Scherzo” e “Cenote” são as únicas músicas puramente instrumentais do disco. O maior problema, nesse caso, é o fato de ambas parecerem ideias precoces, constantemente carregando o sentimento de carecimento — provavelmente, a voz de Perfume com suas composições, um ponto que eu vou voltar mais tarde. No quadro da primeira, ela parece um prelúdio de algo que nunca chega, e no da segunda, a finalização de um sentimento que nunca existiu. 

Finalmente olhando para a composição, esse não é, de longe, o trabalho mais intimista de Perfume Genius. Em todas as outras obras, suas canções debatiam as angústia da homossexualidade e as cicatrizes de assédios e relações turbulentas. Nesse novo álbum, tudo ficou para trás, adotando uma temática, ainda que metafórica, mais universal. Digo isso porque essas são faixas que não parecem refletir sentimentos de nicho, mas sim procuram espaço para novas vozes. Em “Herem”, por instância, ao passo que trabalha em cima de uma sonoridade fiel às paisagens místicas naturais da letra, Mike assume um novo papel, de comandante, e parece coordenar pessoas que são, na realidade, dispositivos de signos. “Cosmas Stretched out like a reed Wait and pray”, ele canta. “Photograph” também emerge com um dos ápices místicos do disco, com ele, supostamente, declarando seu amor para alguém já morto. “On the grave / In his place / I take a photograph”, ele começa e continua: “No fantasy / You were meant for me / And I for you”.

No entanto, as duas músicas principais são as duas peças mais longas desse registro: “Eye in the Wall” e “Hellbent”. Enquanto a primeira, para além de alongar a duração, subverte os moldes de música popular, a segunda carrega a composição mais visceral do disco. “Eye in the Wall” quebra ao utilizar instrumentação mais excêntrica e com uma maior duração, mas ainda é capaz de se manter interessante por seus (quase) nove minutos — diferente de outras canções desse mesmo álbum. Para além, ela é extremamente teatral e imagética: “Your body on screen / I’m full of feeling / I’m full of nothing but love”. “Hellbent”, por sua vez, se destaca por trazer outra perspectiva para a história de “Jason”, de Set My Heart on Fire Immediately. “If I make it to Jason’s / And put on a show / Maybe he’ll soften / And give me a loan”, ele canta. Essa e as outras são histórias, de certo, folclóricas e que se mantêm, em grande parte, pela insistência de Perfume em contá-las. Sozinhas, elas continuariam vivas, mas silenciadas. Hadreas, entretanto, sempre dá espaço para elas crescerem… e elas crescem.