SOUNDX

This Is Why

2023 •

Atlantic Records

8.4
Em This Is Why, a introspecção é inevitável.

This Is Why

2023 •

Atlantic Records

8.4
Em This Is Why, a introspecção é inevitável.
27/02/2023

Em múltiplos sentidos, o dia 7 de setembro de 2018 é uma das datas definitivas da carreira de Paramore: o encerramento da After Laughter Tour deu início a um hiato de quatro anos das atividades do, agora, trio. Desse modo, a erupção da vida pessoal dos membros se provou mais longa e ardente do que o estado inconsciente os permitiam visualizar. Nesse terreno nebuloso e inconstante, Hayley Williams, Taylor York e Zac Farro desenvolvem o sexto álbum de estúdio da banda, um fruto agridoce do passado e presente e, talvez, a obra mais genuína e panorâmica até o momento.

Com todas as músicas compostas apenas pelos integrantes e produzidas por Carlos de la Garza, colaborador fixo desde 2013, a chave desse projeto é a introspecção. Mais do que apenas instrumento, essa era a única lente como alternativa para This Is Why. O teor introspectivo está impregnado do primeiro acorde da faixa-título ao deslumbre visual do clipe de “Running Out of Time”, mas não é preciso de tanto para perceber. Os tons escuros e amarronzados, os rostos amassados pelo vidro e as gotículas na capa do disco capturam a exatidão do registro: se não tivermos cuidado, a vida adulta irá nos paralisar brutalmente. A experiência do divórcio e os diagnósticos de depressão e estresse pós-traumático da vocalista Hayley Williams a levaram a descobrir as facetas escusas da sua infância conturbada, da adolescência como estrela do rock proeminente e o emaranhado de consequências que surgiram depois. E o desembaraçar vai ser doloroso. 

As quatro primeiras faixas localizam o sistema venoso de uma saúde mental em frangalhos. As faíscas de um Paramore cheio de energia até aparecem em guitarras encorpadas e sonoridade post-punk, mas algo mudou. O contraste entre instrumentalização colorida, forte ou maximizadora (dependendo da fase de carreira que o ouvinte lembrar) e letras dolorosas não existe mais. A crueza pontiaguda vai precisar ser encarada, sem disfarces ou camadas de nuances. 

A faixa de abertura revela os anseios de sair de casa depois do confinamento pela pandemia de Covid-19. Já “The News”, música escrita durante as primeiras semanas da Guerra da Ucrânia, descreve o sentimento de frustração quanto ao desenrolar dos acontecimentos mais caóticos do mundo. “Running Out of Time” é a definição cristalina de não-pertencimento e de fuga, de não conseguir estar presente, de não ter tempo. Ou pior, de conseguir e não conseguir ao mesmo tempo. Na sequência, “C’est Comme Ça” aparece como um enigma complicado de ser totalmente entendido, dada a recepção mista — e injusta — por parte do público. É Hayley tirando sarro, tentando se divertir um pouco, com o processo de envelhecer e desacelerar. O refrão animado, com vários “nanana” e a repetição da frase “é assim que as coisas são” em francês, precisa conviver com os versos quase falados e carregados de humor autodepreciativo, com inspiração direta em Dry Cleaning.

A partir da faixa cinco, o disco toma outra forma lírica. Tentando decifrar as sequelas e sentimentos deixados pelo fim de um relacionamento abusivo e pelas cicatrizes da história da banda, aqui aparecem as influências de “Petals for Armor” e “FLOWERS for VASES / descansos”, os dois álbuns solos de Hayley lançados durante o hiato de Paramore. “Big Man, Little Dignity” e “You First” representam a cólera desmedida de desmascarar e ver seu ex-marido sofrer quanto deve, de perspectivas diferentes. “Figure 8”, na contramão, revela o dilema de confundir gentileza com fragilidade, com um refrão gritado e potente. Porém, a partir de “Liar”, a instrumentação desacelera e revela a natureza da obra em seu estado in natura. Os sentimentos positivos, como a paixão e a nostalgia, podem florescer, mas nunca estarão completamente puros. Vai existir desconfiança, negação ou receio, antes de realmente senti-los profundamente. “Thick Skull” é o encerramento perfeito, já que trata sobre se libertar de todas as mágoas e tristezas do passado, já que elas não servem mais. O melhor é externalizar e, logo depois, deixar para trás.

Completando quase vinte anos de carreira, Paramore se solidifica entre os fãs de rock e no imaginário coletivo como um dos melhores nomes do gênero que estrearam nos anos 2000, com uma evolução artística consistente entre seus trabalhos que poucos podem se gabar de ter. Sua influência ultrapassa diversas barreiras que as  cenas mainstream da época enfrentavam, transitando entre a inspiração de diversas artistas femininas que surgiram posteriormente e indo até a #ParamoreHive, a grande fã base de pessoas negras da banda. Dessa forma, o trabalho que encerra o contrato 360º de Paramore com a Atlantic Records, o primeiro da modalidade assinado na indústria fonográfica, é definitivo e muito importante. Ao passar por diversas transições de sonoridades nos últimos álbuns, como o pop rock de Paramore, de 2013, e o new wave de After Laughter, de 2017, o medo de surpreender até os fãs mais ferrenhos nunca aconteceu. This Is Why é audacioso, robusto e significativo, revelando o lado que precisávamos conhecer. Em conversa com Leila Fadel para a NPR, Hayley Williams fala que a impressão que ela deu sobre si no passado era muito borbulhante e colorida, mas que, na verdade, era justamente o oposto. Depois de muito tempo, não havia como fugir: é a sua faceta mais contida, madura, sóbria e menos estridente dando as caras, finalizando o ciclo com o sentimento de orgulho por ter sobrevivido.

Esse e qualquer outro texto publicado em nosso site tem os direitos autorais reservados. 

FIQUE ATUALIZADO COM NOSSAS PUBLICAções

Assine nossa newsletter e receba nossas novas publicações em seu e-mail.

MAIS DE

Ao passar por distintas eras durante o show, a banda, que sempre foi a maior febre entre jovens, ainda tem a sua marca e admiração entre as diferentes gerações.
plugins premium WordPress