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Noitada

2023 •

Sony Music Entertainment Brasil

8.0
Pabllo Vittar mergulha no experimentalismo de gênero e faz do funk a sua maior fonte de inovação. Goste você ou não, Noitada é um álbum vanguardista.
Pabllo Vittar - Noitada

Noitada

2023 •

Sony Music Entertainment Brasil

8.0
Pabllo Vittar mergulha no experimentalismo de gênero e faz do funk a sua maior fonte de inovação. Goste você ou não, Noitada é um álbum vanguardista.
16/02/2023

Como qualquer fenômeno cultural, Pabllo Vittar está longe de agradar ou de ser 100% compreendida. A drag queen, que viralizou na música brasileira causando a ira dos conservadores, estabeleceu dezenas de debates que hoje são, de certa forma, extremamente importantes para a compreensão de algumas pautas em torno da comunidade LGBTQIA+. Não somente isso, Vittar foi um dos nomes mais revolucionários do cenário nacional durante a década de 2010. Seu álbum Não Para Não, evocou a cultura nortenha e, entre hits como “Buzina”, “Seu Crime” e “Problema Seu”, trouxe de volta o tecnobrega e influenciou nomes que vão de Duda Beat à Gloria Groove. Noitada, o mais recente lançamento da artista, é mais uma de suas revoluções à parte.

Concebido após o estrondoso sucesso de Batidão Tropical, de 2021, Noitada é diferente, ousado e, talvez, difícil de ser entendido, seja pelos fãs, ou pelo público geral. Isso porque o álbum é totalmente embargado pelo funk e suas diversas e desconhecidas vertentes. Pabllo cruza o lirismo do brega — pelo qual ela é conhecida — com as batidas aceleradas que entoam o sentido deste gênero ser, ainda, muito crucificado pelas pessoas. Esse nível de experimentação, que mistura duas culturas de massa, é algo inédito e que, de fato, causa estranheza. Mas, a fim de defender-se das futuras críticas, Pabllo contou com um time genuinamente especializado na arte de reproduzir os 150 BPM do funk brasileiro.

É neste sentido que as críticas à duração, ou, até mesmo, à produção de Noitada, acabam configurando um problema recorrente daqueles que pouco se baseiam para compreender uma obra de cunho popular: a intolerância. De um certo ponto de vista, é intolerável, para algumas pessoas, Pabllo Vittar tecer tamanha ousadia e ter, a partir disso, um saldo positivo. Elas enxergam no vultoso resultado técnico do álbum — tomado de sentidos regionais e feito por pessoas experientes na área — um motivo de justificar argumentos, às vezes, vazios demais. Aquela estranheza, citada no início, pode ser interpretada de uma forma bem mais simples do que parece. Segundo o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco, a intolerância com certos aspectos artísticos da cultura de massa, expõe uma raiz aristocrática que se revela, não apenas, pelo desprezo do produto gerado, mas sim, por quem consome e quem produz. 

Existe, também, uma postura de distinção social entre quem acha uma cultura superior a outra. O funk — que quase foi considerado crime no Brasil—, explorado em Noitada, nada mais é fruto daquilo que alguns espaços, principalmente periféricos, consomem intrinsecamente, por isso o disco não soa tão “estranho” para quem tem a realidade exposta na devida representação cultural da artista. Em outras palavras, o pagodão baiano de “Penetra”, parceria com O KANNALHA, enquanto para uns é um tremendo som disposto a ser apreciado, para outros, não passa de uma música barulhenta, desajustada e com um lirismo vergonhoso. O mesmo acontece com “Cadeado”, peça genial que explora o brega funk como deveria ser explorado quando ganhou popularidade: música brega com ritmo de funk. Pabllo, nesta faixa, vai além do som característico. Ela impõe, com razões próprias, a simbologia deste subgênero.

Em outros momentos, a artista desafia ainda mais as regras normativas de se fazer música unindo culturas regionais. “Apetitosa”, com a participação de MC Tchelinho e DJ Tonias, é puramente ajustada aos espaços do mandelão no álbum, contando, inclusive, com a duração curta, e que também se estende para “Culpa do Cupido”, onde Pabllo desenvolve a letra menos afeiçoada e mais autoexplicativa do registro: repetindo “cu” como parte de um trocadilho divertido com as palavras referidas na música. Interessante notar que, para esse lançamento, cujo conceito principal é permear uma noite de curtição, foram aceitos termos que dizem respeito a uma abordagem mais explícita, algo comum para quem se vê inserido meio queer, do qual a drag queen sempre direciona os seus trabalhos, mas que sugere uma visão menos apreciativa de alguns grupos.

Justamente por isso que Noitada, assim como outros álbuns de Vittar, possui um caráter de respeito definitivo. Ainda que faça parte, milagrosamente, do mainstream, a artista sempre incorporou elementos pouco difundidos pela música comercial e que, em seus trabalhos, ganham um olhar de assertividade. Foi assim que o tecnobrega e os outros diversos gêneros re-popularizados por ela se tornaram tendências de mercado. Ao trazer o funk neste modelo, com as suas ramificações, Pabllo abre portas para que este estilo seja reproduzido com fervorosidade no futuro.

É desse ponto que surge o melhor momento do álbum. Há algum tempo, vem se discutindo a ideia do funk brasileiro atingir um status de música inteligente, já que o mesmo possui raízes eletrônicas e é, devidamente, um esforço de vanguarda, correspondendo a uma espécie de experimentação acessível. Em sua passagem pelo Brasil, Björk se viu fascinada com algumas músicas que dizem respeito a essa indagação, como, por exemplo, a faixa “Deixa Tua Amiga Saber”, do DJ SORRISO BXD. Nesse mote, o chamado hyperfunk, cruzamento entre o hyperpop e o funk, é ainda mais representativo. Em Noitada, os resquícios dessa vertente se fazem mais presentes como em nenhum outro projeto mainstream nacional nos últimos anos.

Criada pelo DJ RaMeMes (O DESTRUIDOR DO FUNK), a canção “Calma Amiga INTERLUDE”, que antecede “Balinha de Coração”, ambas com a presença de Anitta, parte de batidas graves situadas em ruídos e distorções — uma demonstração pura do hyperfunk. Ao fazer essa contribuição, Pabllo Vittar expande o universo da experimentação de gênero em solo brasileiro. Ainda que faça referência ao hyperpop/PC Music, na conjuntura nacional, esse tipo de coisa surge com a devida subversão que choca e muda paradigmas. Em um país com o histórico da Tropicália, que aconteceu após a estruturação de gêneros com guitarra elétrica no exterior, não seria exagero considerar o hyperfunk como parte de uma abordagem musical disruptiva.

Todas as melhores particularidades de Noitada, refletem também nas músicas menos ousadas, mas igualmente bem aproveitadas, como é o caso de “AMEIANOITE”, com Gloria Groove; e “Descontrola”, que mescla funk, house e um verso sem igual de MC Carol. Para um disco experimental da música pop brasileira, é estranho ver essa obra ter uma recepção menos calorosa em relação aos projetos anteriores de Pabllo Vittar. É fato que o funk e os outros ritmos presentes aqui incomodaram os ouvintes. Retornando ao pensamento de Umberto Eco, as pessoas tendem a achar a cultura de massa inferior não só por ela atingir um público heterogêneo maior, mas também porque ela deixa de seguir alguns modelos e regras que vigoraram na música durante muito tempo. Embora tenha tido normatizações, como parte do rap e até mesmo do funk — sem considerar o proibidão —, o trabalho efetuado por Pabllo está longe de ser consenso entre essa normalização. Mas, goste você ou não, Noitada é um álbum vanguardista.

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