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Caroline Polachek, Sufjan Stevens, Lana Del Rey, Ana Frango Elétrico, Jessie Ware, Mitski, DJ Ramemes, Yeule, JPEGMAFIA, Olivia Rodrigo, L'Rain, Phoebe Bridgers, Kelela, Luiza Laim (Fotos de divulgação, sem autoria ou créditos nosso)
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Os 50 Melhores Álbuns de 2023

Apresentando a lista dos melhores álbuns de 2023, contando com Caroline Polachek, DJ Ramemes, Jessie Ware, Kelela, Lana Del Rey, Sufjan Stevens e mais!
POR SoundX Staff
dezembro 12, 2023

Ouvir discos completos foi uma das formas que adotamos para perpassar pelo período da pandemia. Faz pouco mais de três anos, mas ainda é claro em nossas mentes como Fetch the Bolt Cutters, Folklore e Punisher foram obras decisivas e catárticas naquele tempo. Em 2023, agora que estamos 100% livres da pandemia, no entanto, a experiência de ouvir um registro de cabo a rabo parece ter se tornado um hábito mais forte do que nunca: diversos recordes para novos lançamentos e artistas finalmente preocupados com seus discos como um trabalho completo, em sua totalidade. Por mais que grande parte dos veteranos estejam em turnês e/ou tenham feito seus lançamentos no ano passado, esse foi um dos anos mais animadores para música nos últimos tempos, sustentado principalmente pela nova geração de emergentes. No final de tudo, música, como sempre, é o que importa e é isso que celebramos. Assim, segue a lista de 50 melhores álbuns de 2023.

50

Taylor Swift, Speak Now (Taylor's Version)

O início da Eras Tour, em março deste ano, foi grandioso em si mesmo: desde as reverenciáveis três horas de duração e mais de 40 músicas interpretadas em cada show, até os figurinos inéditos, as mensagens especiais para cada cidade e a consolidação de Taylor Swift como a maior artista de turnês de todos os tempos. Mas, um fato em particular chamou mais a atenção, quando Swift usou o espaço do palco para fazer surpresas aos seus fãs. Em uma delas, Taylor incluiu uma nova canção na lista de faixas; em outra, exibiu com exclusividade o clipe para seu remix de “Karma”, com a expoente rapper Ice Spice. Dessas novidades, a que mais se destaca é, com certeza, o anúncio da regravação de seu terceiro e inteiramente autoral disco, Speak Now (Taylor’s Version). 

Desde sempre, Speak Now foi considerado um de seus trabalhos mais notáveis, na medida em que se trata de um álbum composto unicamente por ela no início da vida adulta enquanto vivenciava a mudança do interior para uma cidade grande. Agora, nada muda: sua versão para este LP é ainda tão brilhante quanto a original e simbólica para a celebração do seu talento como compositora. Em meio a harmonias country de “Mean”, arranjos pop-rock de “Better Than Revenge” e melodias pop de “Enchanted”, Taylor constroi a ficção baseada na sua própria realidade. As histórias de princesas e dragões, de encontros e desencontros do amor e da passagem da adolescência para a vida adulta, aqui, são nada mais que reflexo da sua vida. Speak Now é um disco surpreendente para uma incrível de meros 21 anos; é, no entanto, ainda mais gratificante vê-lo ganhar novos significados 13 anos depois. — Kaique Veloso

49

Parannoul, After The Magic

After The Magic é o terceiro álbum do músico coreano de identidade desconhecida. Desde que estreou com o prolífico To See The Next Part of The Dream, o artista se destaca no cenário shoegaze atual e faz parecer tão fácil ser tão bom, aproximando-se de cânones como my bloody valentine e slowdive. Para além de toda sua grandeza, o som aqui proposto vem como raios de luz esperançosos em uma manhã fria de inverno. O coreano consegue, com destreza, tornar a vagueza dos instrumentos um som revigorante e um sentimento de conforto. Ouça “Polaris”. — Kaique Veloso 

48

Lil Yachty, Let's Start Here.

Logo no primeiro mês do ano, Lil Yachty decidiu que iria dar aos fãs uma surpresa que ninguém poderia esperar. O artista, que até então havia sempre focado na sua carreira como rapper e trapper, lançando alguns álbuns com recepções pouco calorosas no caminho, nos entregou um projeto que do início ao fim explora diferentes facetas da música psicodélica. Yachty deixa claro quais são seus pontos de referência, mas faz isso de uma maneira que não soa redundante, com momentos que com certeza irão agradar os fãs do estilo. — Matheus Henrique

47

Kesha, Gag Order

A capa de Gag Order nos mostra uma artista sufocada pela plastificação de sua imagem. De fato, a carreira de Kesha exemplifica a realidade de diversos outros artistas que são vítimas de uma indústria gananciosa. No caso da cantora californiana, as batalhas judiciais não se restringem apenas a contratos exploratórios, elas também abrangem acusações de abuso físico e psicológico, o que levou a uma série de processos, ainda em aberto, sobre os quais a justiça norte-americana decretou uma ordem de silêncio. Nesse contexto, Gag Order surge como um ato de libertação, onde Kesha simplesmente deixa seus sentimentos mais íntimos fluírem em composições autênticas e vulneráveis que desconstroem a imagem de popstar idealizada e com isso, a humanizam. Com a ajuda de Rick Rubin na produção, o disco soa despreocupado em cumprir com as convenções do pop e traz uma roupagem que beira o alternativo — e adequada para o caráter confessional das letras. Se, em outros trabalhos, Kesha parecia estar interpretando um personagem, aqui, ela é apenas Kesha. — Marcelo Henrique

46

Swans, The Beggar

Um dos trabalhos pós-rock mais fenomenais deste ano. Mesmo não sendo a obra mais ilustre da banda, é notável o quão inventivo The Beggar é como ele mostra os Swans bastante dispostos a experimentar sons diferentes. Canções como “Michael is Done” fazem uma mescla singular de dream-pop, abordagem psicodélica e darkwave, algo extremamente fantástico. Já em “The Beggar” eles operam com o rock gótico e influências do industrial e drone, que criam uma atmosfera sombria fenomenal à canção. Em um ano em que o cenário do pós-rock foi marcado por artistas que trouxeram pouco de interessante à vertente, muitas vezes apenas replicando o que já havia sido feito anteriormente por outros nomes do subgênero sem dar nenhum ar de novidade, The Beggar tem sua importância potencializada por ser um dos poucos registros desse ano no sub ritmo que conseguiu apresentar uma inovação intrigante. — Davi Bittencourt

45

Susanne Sundfør, Blómi

 O sexto álbum de Susanne Sundfør, Blómi, mergulha em alegorias musicais, oferecendo uma catarse de reflexões sobre dor, perda e romance em meio a um cenário caótico. Seu principal motif é fornecer um lampejo de esperança. Sua faixa-título negocia a dor com solos de saxofone e teclas de piano, enquanto outras, como “Alyosha”, “Rūnā” e “Náttsongr”, buscam espaço para o romantismo diante da luta contra acreditar que um futuro melhor pode existir. A estrutura única dessas baladas revela uma simplicidade que se torna montanha harmônica, sendo “Leikara Ljóð” um arquétipo quase perfeito. “Fare Thee Well” surpreende com sua sensação de eternidade, ressoando com tristeza romântica. Esse álbum captura um momento efêmero, misturando um conforto fugaz com uma reflexão atemporal sobre a existência e destino. — Leonardo Frederico

44

Geese, 3D Country

Reviver um tipo de som que alcançou seu ápice há décadas atrás geralmente traz resultados um tanto quanto duvidosos, que parecem se prender no saudosismo sentido pelo período retratado. Porém, com “3D Country”, o grupo Geese acerta em cheio no quesito de trazer um som com um pé no passado e outro no futuro. Se você tem curiosidade em saber como o som do Led Zeppelin seria caso a banda tivesse sido formada nos dias atuais, e Robert Plant soasse como à beira de um colapso nervoso, então esse disco é definitivamente para você. — Matheus Henrique

43

cabezadenego / Mbé / Leyblack, Mimosa

Mimosa é um encontro festivamente diverso entre o mineiro Luiz Felipe Lucas, trabalhando artisticamente como cabezadenego, e os produtores cariocas Mbé e Leyblack. Lançado pelo selo QTV, o projeto colaborativo é descrito como “um disco-manifesto sobre a potência dos ritmos afro-brasileiros”. Faltam palavras para descrever o quão significativas e cativantes são as experimentações do material que chegou ao público no fim de novembro, mas já como um dos registros mais importantes do ano. O trio se apoia principalmente em ritmos afro-brasileiros e os transforma em peças que celebram o funk, pinceladas pelo eletrônico e samba. Saindo dos tambores de terreiro para as pistas de dança com a energia funk afro-futurista, “Toque” é um bom exemplo que sintetiza as virtuosas conjunções que o trio evoca. Outro momento relevante é a desconstrução do samba em “Chora”, assim como o maior destaque para o eletrônico em “Quinta” e a explosão sexual de “Taca”. Acima de tudo, Mimosa é um álbum de resgates: os atravessamentos sonoros que o constituem são riquíssimos e a habilidade em interligar tantas influências produz o melhor do que se pode esperar de um disco atento ao passado, mas concentrado na vanguarda — Gustavo Rubik

42

DJ K, Panico no submundo

“DJ K não tá mais produzindo, ta fazendo bruxaria” anuncia uma voz feminina no início de Pânico no Submundo  e é verdade. O lançamento de Kaique Alves Vieira, o DJ K, não podia ser mais estelar: saído de Diadema, na Grande São Paulo, o artista  e seu trabalho  ganharam de supetão manchetes mundo afora: quem é aquele DJ, e mais importante, que sons são esses? Kaique está disposto a responder ambas as perguntas: o nome é K, o som, bruxaria, a produção, um feitiço. Afinal ele não tá mais produzindo, ele está fazendo bruxaria. Num turbilhão de sons, Pânico consegue definir seu propósito e experimentar com as mais diferenciadas fontes sonoras, sejam vocais de funk já conhecidos, sejam alarmes ou a contagem de tempo no limite do reconhecível. Tudo ali está sob controle, ainda que por vezes não pareça: é a bruxaria de Kaique que não perde sequer um segundo do ouvinte, ao deixar o cérebro imerso, a lupa no rosto, o umbrella na mão. Nessa escuta somos todos cobaias do feitiço do funk, e veremos onde iremos parar. – Pedro Piazza

41

dadá Joãozinho, tds bem Global

Curto e acessível, tds bem Global trabalha a pós-MPB de maneira singular. Mais do que uma releitura da MPB clássica, é a adaptação de seus conceitos para a realidade moderna, seja por meio da produção digital e psicodélica, mas ainda tropical, ou da lírica de caráter social que reflete a mudança do cantor fluminense para São Paulo e as implicações das lógicas capitalistas dessa nova realidade na sua rotina particular. Sem dúvidas, além de uma das grandes descobertas do ano, é um registro que expande os horizontes artísticos da música nacional contemporânea sem precisar incorporar tendências de fora e mostra que dadá Joãozinho é um artista digno de atenção nesse cenário. — Marcelo Henrique

40

Taylor Swift, 1989 (Taylor's Version)

O lançamento de 1989, há quase dez anos, marcou não apenas um dos pontos mais altos na carreira consolidada de Taylor Swift, mas também representou uma mudança significativa em sua identidade artística. Seu relançamento é apenas a reafirmação desses fatores: Swift segue no topo e sua artisticidade está mais maleável do que nunca. Com cinco novas faixas e várias modificações notáveis, 1989 (Taylor’s Version) destaca-se por sua dinâmica em oferecer tanto fidelidade ao original, quanto combinar os aprendizados dos últimos anos. Enquanto algumas mudanças nos instrumentais e interpretações são bem-sucedidas — as excelentes adições de sintetizadores em “Out of The Woods” e “Style” —, outras não se encaixam perfeitamente — a estranha nova mixagem de “Shake If Off” parece “limpa demais” — e algumas das novas músicas do cofre são BOPs, mas parecem um tanto deslocadas em relação ao álbum original — “Say Don’t Go” soa inegavelmente Red. Contudo, esse relançamento evidencia a ambição de Swift em preservar seu trabalho, apontando para a singularidade de suas canções e sua provável dominância artística e mercadológica — e no final de tudo, 1989 still banggers, anyways. — Leonardo Frederico

39

Kali Uchis, Red Moon In Venus

Em Red Moon In Venus, Kali Uchis percorre pelas emoções fortes em relação ao amor causadas por uma lua de sangue de forma excelente, explorando diversas questões amorosas de forma intrigante ao longo da obra. Além disso, não apenas liricamente Red Moon In Venus é encantador ao ouvinte: seu som é bastante lustroso. O neo-soul sofisticado do álbum junto aos vocais doces e que facilmente encantam o ouvinte de Kali Uchis tornam escutar o projeto uma experiência sonoramente fantástica. — Davi Bittencourt

38

underscores, Wallsocket

Prosperado no Soundcloud, underscores, projeto de April Harper Grey, é fruto de imensa criatividade e atenção com as possibilidades ilimitadas da música. Desde seu prematuro surgimento na plataforma de áudio, a artista foi implementando sua sonoridade ao agregar inúmeras influências que confluem para a existência de Wallsocket, seu segundo disco. O resultado das experimentações condensa-se em um álbum que perpassa o eletrônico, o folk, o punk e o melhor, consegue ser atrativamente pop. Enredado por uma história ficcional de uma cidade chamada Wallsocket, a trajetória acompanha três meninas adolescentes numa jornada conflitante que pode ser resumida em “Geez louise”, canção que reflete traumas geracionais e a tentativa de sair de um círculo vicioso. 

Além de ser preenchido por um lirismo robusto, a produção é tão interessante quanto, sendo eletrizante e divertida. Wallsocket se comporta como um caleidoscópio sonoro por suas junções irreverentes que flertam com tendências atuais, como o vibrante hyperpop de “Old money bitch”. A maximização sonora proposta por underscores se ampara também em construções dance e eletrônicas que relembram a década de 2010, especialmente em “Locals (Girls like us)”. Por todas essas características, o projeto é tão bem-sucedido, mas, principalmente, por não ter medo de testar os limites falsamente colocados quando se fala em música. — Gustavo Rubik

37

Squid, O Monolith

Nos últimos anos, o histórico pub britânico The Windmill tem sido, em boa parte, responsável pela crescente ressurgência do rock alternativo londrino, que vêm misturando vários elementos do rock experimental e post-punk. Essa cena, agora popular e carinhosamente conhecida como “Windmill Scene”, teve seu lugar cimentado na música underground com o nascimento de três bandas: Black Country, New Road, Black Midi e Squid. E com “O Monolith”, segundo LP de Squid, o grupo prova que merecem o lugar que tem nesse trio, pois vemos a banda entregando uma perspectiva única, refinada e extremamente dinâmica no som que apresentaram em seu LP de estreia, “Bright Green Field”. — Matheus Henrique

36

Sophia Chablau E Uma Enorme Perda de Tempo, Música do Esquecimento

O segundo álbum da banda paulistana Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Música do Esquecimento, é colossal e respeitável. Entre os cantos descontraídos de “Minha Mãe É Perfeita”, “Quem vai apagar a luz” e “Neurose”, até os cortes mais melancólicos e pessoais da faixa-título ou “Embaraço Total” — composição solo de Vicente Tassara —, o grupo crava seu nome na música brasileira e se destaca no cenário do rock nacional, que, por vezes, é visto como negligenciado. Aqui, SCUEPDT se destaca pela versatilidade e ousadia de combinar elementos paradoxais: como quando a nostalgia do clássico se mistura com a excitação da invenção e do vanguardismo. O disco representa a reestruturação do movimento punk no Brasil, que perdeu espaço para a música pop. É novo, é original, é robusto e muito divertido. — Kaique Veloso

35

Victoria Monét, JAGUAR II

Continuação do EP JAGUAR (2020), o primeiro álbum de estúdio de Victoria Monét é um frescor a tantos lançamentos pouco inspirados de R&B recentemente. A artista não inventa a roda com esse projeto — e não tem qualquer pretensão disso. O material resgata a sensualidade e a efervescência da música negra de décadas passadas — do pop a la anos 2000 de “On My Mama” ao deleite setentista de “Good Bye”. JAGUAR II o quão subestimada é a cantora e o quanto ela merece receber mais atenção do mainstream para além de suas composições nos próximos anos. — Lucas Souza

34

billy woods / Kenny Segal, Maps

O mestre do hip-hop abstrato billy woods continua sua incansável sequência de lançamentos com o incrível “Maps”, colaboração com o produtor Kenny Segal e um dos melhores LPs de sua discografia. No disco, o rapper conta a ajuda de veteranos do hip-hop underground como Danny Brown e Aesop Rock para criar um projeto que é tão cativante quanto é enigmático. — Matheus Henrique

33

Model/Actriz, Dogsbody

Com performances enigmáticas e assombrosas, o álbum de estreia da banda americana Model/Actriz, Dogsbody, crava seu nome entre os discos mais memoráveis de 2023. Fosse levar-se pela impressão que as indicações ao Grammy nas categorias de rock deixam todos os anos, a percepção seria de que o rock está em crise. Mas isso não é verdade, e Dogsbody nos mostra isso com seus vértices pontiagudos que o tornam de difícil digestão, mas a cadência de bangers uma após a outra só fazem aumentar o apetite. — Kaique Veloso

32

PinkPantheress, Heaven knows

PinkPantheress se popularizou no início da década de 2020 com o lançamento de to hell with it, uma ligeira mixtape que contava com os sucessos “Pain” e “Just for me”. Suas produções intimistas de bedroom pop e UK garage, que mal conseguiam passar dos dois minutos por faixa, conquistaram a atenção de diversos ouvintes nas plataformas digitais. Entretanto, a artista se deparou com uma problemática: para se firmar na indústria teria de evoluir sonoramente, e, a partir desse objetivo, Heaven knows, o primeiro álbum de estúdio da cantora, foi idealizado.

Com Heaven knows, a britânica tenta provar a si mesma como merecedora da atenção que conseguiu e, também, tenta conquistar mais espaço. No álbum de estreia, a cantora expande os seus horizontes e diversifica a sua paleta sonora de tons suaves, dando forma a uma obra sonoramente policromática e radiante. Ao invés de basear-se apenas no drum and bass e UK garage, Pantheress também usa como base sons característicos do R&B, synth funk, dance-pop, alternative dance e entre outros. — Bruno do Nascimento

31

Liturgy, 93696

Há mais de uma década Haela Ravenna Hunt-Hendrix, frontwoman da banda Liturgy, vem inovando e fazendo o possível para levar o black metal até seu limite, e em 93696 sua jornada chega a seu grandioso ápice. Com canções extensas, contendo várias transições e mudanças dinâmicas, Hunt-Hendrix usa sua música como um meio de transmitir suas visões filosóficas, teológicas e comentários sobre sua própria transgeneridade. O resultado é um épico álbum que mais do que recompensa o ouvinte disposto a experienciá-lo, e um dos melhores projetos de metal que 2023 tem para oferecer. — Matheus Henrique

30

Marina Sena, Vício Inerente

Vício Inerente é, assertivamente, a transição de uma artista da música alternativa nacional para uma diva pop em ascensão. O álbum não se esquiva do DNA de Marina Sena, mas a leva para direcionamentos que seriam impensáveis na época que seu antecessor, o aclamado De Primeira, foi lançado. Essa transformação é mais sutil do que aparenta. “Tudo Pra Amar Você”, carro-chefe do disco, é um exato meio-termo que conecta muito bem as duas eras da mineira. Ainda assim, não escapou de dividir opiniões. E a verdade é que a artista nunca vai ser unânime, e nem precisa ser. Ouvir o Vício Inerente nunca será uma experiência agradável para aqueles que traçarem algum tipo de paralelo com o registro predecessor — e que bom! Mais eletrônico e mais voltado para a agitação urbana que Marina vivencia desde que se mudou para São Paulo, o material representa uma singularidade dentro do pop nacional por não permitir que a cantora, ainda que explore novos caminhos, perca a sua autenticidade. — Lucas Souza

29

Tinashe, BB/ANG3L

Dentro do R&B-contemporâneo, é impossível não enxergar Tinashe como uma figura fundamental na transição do gênero de uma febre comercial nos anos 2000 para um movimento que adere às tendências do alternativo e do experimental na atualidade. Desde sua saída de uma gravadora e o início de sua jornada como artista independente, até à elaboração de projetos conceituais, Tinashe esteve acelerando um dos carros que lideram a cena do novo R&B, e BB/ANG3L marca a linha de chegada. Com apenas sete faixas, o disco é a culminação dos esforços da cantora para mover o cenário adiante, levando sua característica fusão do gênero com o pop para um espaço eletrônico no qual a sensualidade divide os holofotes com a introspecção. — Marcelo Henrique

28

Troye Sivan, Something To Give Each Other

O registro mais recente de Troye Sivan, Something to Give Each Other, não apenas apresenta o som mais ousado e refinado de sua discografia, mas também caracteriza o ponto de virada mais importante de sua vida. Enquanto seus álbuns anteriores vislumbravam a orientação sexual do cantor australiano como um detalhe de suas narrativas, Something é uma celebração completa da identidade de Sivan. Ao passo que faixas como “Rush” e “Got Me Started” destacam a exploração da sexualidade e da comunidade LGBTQIA+, canções como “One Of Your Girls” e “Honey” mostram Troye abandonando visões submissas e adotando uma postura mais forte e ativas em suas histórias, refletindo uma evolução consciente e uma, finalmente, transição para uma fase mais madura. Something sustenta a ideia de que merece ser amado e buscar ativamente por isso é uma ótimo destino sem desmerecer seu percurso até lá. — Leonardo Frederico

27

d.silvestre, ESPANTA GRINGO

A junção do funk com o power-noise em ESPANTA GRINGO posiciona d.silvestre em um patamar único dentro do experimentalismo nacional. É o som de um artista despreocupado em cumprir regras, extrapolando qualquer barreira musical ou auditiva com graves distorcidos e agudos barulhentos. Mais do que isso, é a contribuição máxima do produtor para o movimento de vanguarda do funk paulista e representa, de forma definitiva, o mandelão-hardcore que já se tornou sua marca registrada. — Marcelo Henrique

26

Róisín Murphy, Hit Parade

Hit Parade é a demonstração máxima da excelência de Róisín na música eletrônica. O projeto traz em seu decorrer algumas dos melhores êxitos da irlandesa ao operar com elementos eletrônicos em sua carreira solo: canções como “Free Will” relembram os momentos funky-house do período em que participou do grupo Moloko, e mostram a artista fazendo a mescla do house com ritmos funk e disco de maneira tão sensacional como há 20 anos atrás em Statues — o último álbum do duo. “You Knew” é um eletrônico minimalista de progressão hipnotizante, enquanto “Can’t Replicate” é um deep-house elétrica. Ademais, embora se oponha aos recentes comentários da artista contra os direitos de pessoas trans, o registro traz uma mensagem bela, que é excelentemente abordada ao longo da obra: ser quem você verdadeiramente é, mesmo que fuja das convenções sociais. — Davi Bittencourt

25

Paramore, This Is Why

“This Is Why” emerge como um álbum repleto de frustrações, explorando muitas vezes pensamentos intrincados sobre o envelhecimento. Embora não tenha a intenção de transmitir nostalgia, particularmente, o álbum inevitavelmente evoca os primeiros trabalhos da banda, especialmente em sua sonoridade com nuances do dinâmico pop-punk. As letras mergulham em relacionamentos desgastantes e na complexidade da condição humana, revelando uma sinceridade palpável. O álbum lança luz sobre as angústias e o medo inerentes a tornar-se alguém aparentemente destituído de habilidades para enfrentar a vida adulta. A narrativa destaca a vulnerabilidade e a autenticidade, criando uma obra que ressoa com a jornada emocional de amadurecimento. — Brinatti

24

Pabllo Vittar, AFTER

Após a recepção morna que seu quinto disco teve, o Noitada, Pabllo Vittar tinha uma missão: impedir que as músicas do material caíssem no esquecimento, elevando-as ao máximo. Isso ocorre de maneira bem-sucedida no AFTER, álbum de remixes que faz jus ao conceito do registro original, mas cria uma atmosfera muito mais poderosa. É o registro mais inspirado da artista desde o Batidão Tropical e reafirma seu talento para fundir universos contrastantes: do regional ao global; do mainstream ao underground. — Lucas Souza

23

SZA, SOS

SOS é a reafirmação de SZA como uma das melhores songwriters da atualidade. É mais uma prova de sua capacidade de se conectar com seus ouvintes através de composições melancólicas que, muitas vezes, refletem a realidade de inúmeras mulheres negras. É poderoso ter uma voz como a da artista no mainstream contemporâneo. O álbum, singular no que diz respeito a fundir a música alternativa com o R&B, é perspicaz em ser um cartão-postal para que mais pessoas conheçam o trabalho da cantora. Embora não tenha superado seu antecessor, SOS é, merecidamente, um grande divisor de águas na carreira de SZA, e seu impacto possivelmente se perdurará nos próximos anos. — Lucas Souza

22

Sampha, Lahai

Pode-se dizer que o álbum passado, Process, lançado em 2017, representa uma luta interna vivida pelo seu autor, Sampha, durante um período em que se viu num embate com o alcoolismo e a depressão. Enquanto isso, e talvez numa ironia taciturna, seu trabalho mais recente, Lahai, se mostra como uma compensação do universo ao cantor pelo tanto que o fez sofrer. O novo disco do cantor e compositor britânico representa a situação atual de seu idealizador por meio de uma sonoridade calmante de R&B alternativo: é tranquila e segura. Agora que se tornou pai e se encontra livre do álcool, o cantor nunca esteve tão feliz e realizado, e isso transparece nas músicas de Lahai, a exemplo da excelente “Spirit 2.0”, lead-single do álbum. O álbum prossegue com as ideias concebidas em Process — como a inclusão das batidas do drum and bass e UK garage nas produções de R&B — porém, as desenvolve melhor e não as intercala com canções dessemelhantes às premissas centrais de sua sonoridade, e por isso retrata uma evolução louvável do produtor. — Bruno do Nascimento

21

Kara Jackson, Why Does The Earth Give Us People To Love?

“Por que a terra nos dá pessoas para nos amarmos?”, questiona Kara Jackson, na faixa-título de seu álbum, Why Does The Earth Give Us People To Love?. Essa pergunta, infelizmente, não possui uma resposta. Pelo menos não ao certo. Não se sabe quem estaria por trás de jogos mentais tão crueis. Para que ficarmos apaixonados, se for para termos nossas expectativas frustradas?

É através dessa interrogação que Jackson faz de seu primeiro disco uma viagem tão dolorosa: ela constantemente ela nos fere com a verdade, transcrita em versos engenhosos e que fazem o ouvinte refletir sobre tal famigerada questão, assim como a mesma fez enquanto experienciava suas desilusões amorosas. Em Why Does The Earth Give Us People To Love? pode não existir resposta, há, porém, uma cura para as feridas que foram abertas por irresponsabilidade emocional alheia. Com seu primeiro álbum, Kara nos ensina a nos amarmos e a não deixar com que sejamos quebrados por qualquer um. A interpretação única de Jackson faz as suas composições alcançarem o íntimo das pessoas e com isso ressoar com as produções sonoras de suas canções. — Bruno do Nascimento 

20

ANOHNI and the Johnsons, My Back Was A Bridge For You To Cross

Fazendo uso de um vestido de casamento, alguns cartazes e um spray de tinta, ANOHNI, com seus 19 anos, continua a busca por justiça e liberdade de Marsha P. Johnson —mulher trans e ativista do movimento LGBT+ — começada durante a década de 60. A artista colore o próprio caminho sobre as costas de Marsha, carregando os seus valores e tentando sobreviver enquanto uma jovem mulher trans numa sociedade flagelada pelo preconceito e opressão. A partir dessa vivência, surge My Back Was A Bridge For You To Cross, o álbum mais importante já lançado pela banda. 

My Back Was A Bridge For You To Cross é uma linda homenagem de ANOHNI e seus colegas  não somente para Marsha, mas para todos os membros da comunidade queer que tiveram suas vidas ceifadas pelo ódio e estigma que permeiam a sociedade. No álbum, a cantora inglesa canta bravamente sobre morte, luto, preconceito e a busca incessante pela felicidade, transitando de um tema para outro com mudanças de ritmos mais acelerados e fervorosos para os mais lentos e melancólicos. — Bruno do Nascimento

19

100 gecs, 10,000 gecs

Ainda que ao longo da obra, o ouvinte possa se deparar com certos erros, ou passos na direção errada, 10000 gecs se revela um álbum essencial para o hyperpop. Se 1000 gecs, estreia do duo, já mostrava Laura Les e Dylan Brady como nomes promissores do estilo, apresentando uma abordagem inovadora ao potencializar as características musicais das faixas de outros artistas da cena, 10000 gecs é uma amostra ainda mais concreta da excelência de seu trabalho. Além de trazer certas características que fazem o trabalho deles especial de forma ainda mais singular — como o caráter cômico das composições e sua produção caótica — a obra ainda se mostra como um registro importante, ao dar novos ares para o gênero, mediante a experimentação arrebatadora do rock no contexto do hyperpop. — Davi Bittencourt

18

Reverend Kristin Michael Hayter, SAVED!

Kristin Hayter é uma artista singular. Desde sua experimentação com instrumentos folclóricos da cordilheira dos Apalaches, no leste estadunidense, até seus vocais assombrosos formulados como um coro que julga e ao mesmo tempo afaga, sejam o afago e julgamento voltados a si, ou a outros. Em SAVED!, dessa vez sob a alcunha Reverend Kristin Michael Hayter, uma persona baseada em televangelismo, fervores da fé, e nos percalços do pecado, Hayter se revela em sua forma mais assustadora até então, com uso de manipulação de fitas-cassete e gravações de baixíssima fidelidade que reforçam o protestantismo apalache como um beemote que pisa e destrói, sejam o ego ou as relações, mas que pode ser domado. “Farewell to everyone that I know/ Judgement is coming, I’m ready to go/ I won’t stick around to see where you all stand/ Just get out, get out, get out while you can”, Michael pronuncia logo na faixa de abertura do álbum. É a fuga programada, o sabor agridoce da derrocada de seus inimigos, mesmo que alguns aliados sejam pegos no caminho. É o egoísmo, é a dor, a penitência ou o sobrepujar das flechas pecaminosas que flagelam o corpo, e disso, Kristin entende, ainda que de forma caótica. — Pedro Piazza

17

Amaarae, Fountain Baby

Fountain Baby foi desenvolvido por Amaarae a partir de um questionamento: o que ela, aos oitos anos de idade, enquanto uma criança gano-estadunidense, gostaria de ter ouvido durante a infância? Sua resposta vem com o desenrolar da obra. O segundo álbum de estúdio da cantora ganense é uma revigorante coletânea de canções ousadas, que transpassam o louvável afrobeats e o pop, até pousar no R&B. Altamente fundamentada no afrofuturismo e no amapiano, gênero musical cujas letras exaltam as noites fumegantes vividas em baladas, a sexualidade, e, principalmente, a beleza exuberante dos corpos pretos junto a sua ancestralidade. O prosseguimento da iniciativa, ao findar, foi extremamente bem-sucedido, pois se consegue imaginar Amaarae, enquanto criança, dançando ao som das batidas envolventes do disco, junto àqueles que estavam ávidos por uma obra substancial advinda dos afrobeats. — Bruno do Nascimento

16

Luiza Lian, 7 Estrelas | quem arrancou o céu?

Com seu mais recente trabalho, 7 Estrelas | quem arrancou o céu?, Luiza Lian aprimorou a própria musicalidade, caracterizada pela incorporação de elementos de trip-hop em produções de pop e R&B abrasileiradas, e pela discussão pertinente sobre o cenário político vivido no Brasil durante a pandemia do vírus Covid-19 (assim como as relações criadas pelas mídias sociais). Lian também mostra o seguimento de um caminho ligado às últimas tendências no campo audiovisual da indústria fonográfica, como a estética futurista e urbana vista em Vício Inerente, da Marina Sena, e AFTER, de Pabllo Vittar. Não necessariamente esse aprimoramento torna o mais recente trabalho páreo a seu antecessor, Azul Moderno, de 2018, álbum onde nasceu a criação destas misturas, mas o torna mais grandioso, marcante e memorável. — Bruno do Nascimento 

15

Yves Tumor, Praise A Lord Who Chews But Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds)

O som esmaltado de Yves Tumor é sempre uma concatenação de valores: sexualidade, amor, sensualidade, sociedade, emoções negativas em geral. Mas em nenhum outro trabalho Yves brilha tanto quanto em Praise a Lord Who Chews but Which Does Not Consume; (Or Simply, Hot Between Worlds). Na sua proeza psicodélica, Yves se torna um titã tardio do post-punk, numa levada introspectiva e ao mesmo tempo, com inspirações claríssimas no glam rock dos anos 1980. Tumor emprega o barulho, os desafios, a beleza ainda que irregular de sua própria não-binariedade, e transforma num noise que permeia toda e qualquer faixa de Praise, numa intimidade tocante e ainda assim, sonora e barulhenta. O resultado é uma neo-psicodelia refrescante, que firma o talento de seu criador ao mesmo tempo que impera em seus momentos mais desiguais e singulares, com falsetes que dançam perfeitamente com o ambiente sonoro atingido pelos instrumentais de Yves. A auto-descrição é certeira: definitivamente um calor entre-mundos. — Pedro Piazza

14

Boygenius, The record

O primeiro álbum oficial de boygenius evidencia as notáveis habilidades individuais e colaborativas de Julien Baker, Phoebe Bridgers e Lucy Dacus. Cada faixa apresenta letras profundas e emotivas, acompanhadas por melodias envolventes e harmonias vocais impressionantes. A sincronia vocal da banda adiciona uma emoção e vulnerabilidade distintas ao conteúdo lírico, compartilhando de maneira intensamente profunda os desafios e experiências das três artistas. O cerne do projeto é a amizade entre elas. Na faixa de abertura, “Without You Without Them”, destaca-se a importância de compartilhar vivências para fortalecer os laços interpessoais e promover cura mútua, conforme expresso na letra (“I’ll give everything I’ve got / Please take what I can give / I want you to hear my story / And be a part of it”). Uma carta de amor à angustiante experiência de ser conhecido, escrita em um contexto pandêmico que brutalmente nos relembra o quão essencial é o apoio mútuo. — Gerson Monteiro

13

Kelela, Raven

Possivelmente, Raven não é tão imediato quanto seu predecessor, o aclamado Take Me Apart. Como um todo, o álbum, embora traga diversas nuances da música eletrônica, não é um convite para as pistas de dança. A obra é um convite para o íntimo de Kelela, que discorre sobre o amor em uma narrativa densa, linear e repleta de introspecção. Cada canção soa como um fragmento dos sentimentos da artista, o que torna ainda mais prazerosa a experiência de ouvir o registro por inteiro. Apesar da linearidade, Raven não é, de forma alguma, repetitivo. O material passeia do R&B à música ambiente; do dancehall ao drum n bass. Ainda assim, não se distancia da unidade que o torna um corpo de trabalho extremamente bem amarrado. O álbum é uma aventura sensorial que cresce a cada ouvida e é um dos grandes lançamentos da dance music de 2023. — Lucas Souza

12

L'Rain, I Killed Your Dog

Em todos os três álbuns lançados por ela sob o nome artístico L’Rain, a cantora e experimentalista norte-americana Taja Cheek construiu — e continua a construir — paisagens sonoras por meio de colagens inventivas que buscam ressignificar os sentidos. I Killed Your Dog, por sua vez, aposta em uma direção ainda mais psicodélica, transportando conceitos comumente explorados na música pop em direções absurdas e até surreais. Além disso, o disco também reposiciona a mulher negra como voz atuante em gêneros dominados por artistas brancos, como o folk e o rock. É, certamente,um dos registros mais imersivos e provocativos do ano. — Marcelo Henrique

11

Olivia Rodrigo, GUTS

Olivia Rodrigo, com o lançamento de GUTS, seu segundo álbum de estúdio, firmou sua personalidade artística como uma das melhores representações da vida cotidiana dos jovens adolescentes. A continuação do aclamado SOUR, ainda que não comercialmente, excedeu seu predecessor ao apresentar um amadurecimento palpável da cantora enquanto artista e uma maior variabilidade temática. Em GUTS, além de desilusões amorosas, ela também canta sobre os sentimentos mais confusos experienciados durante a transição da adolescência para a vida adulta: sexismo, falta de socialização, baixa autoestima, fama, entre outros. E tudo sob produções extasiantes de pop punk e indie rock, que ora arrebata o ouvinte com baladas cheias de emoção, ora o leva à loucura com faixas carregadas pelo frenesi de guitarras e baterias. — Bruno do Nascimento

10

JPEGMAFIA / Danny Brown, SCARING THE HOES

SCARING THE HOES marca a estreia colaborativa entre Danny Brown e JPEGMAFIA, capturando a ansiedade desconexa inerente à condição moderna. Este trabalho se destaca pela sua excelência, proporcionando uma experiência auditiva profundamente envolvente com uma produção excepcional que prontamente prende a atenção do ouvinte. A musicalidade é não apenas agradável aos ouvidos, mas meticulosamente elaborada, transmitindo vibrações distintas e ideias claras. O álbum, sem dúvida, figura entre os melhores do ano no gênero rap, conduzindo o ouvinte por uma viagem alucinante em forma de LSD, onde cada vibração e elemento musical são nitidamente perceptíveis. — Gerson Monteiro

9

Carly Rae Jepsen, The Loveliest Time

Simploriamente visto por muitos como um lado B de The Loneliest Time, o álbum de uma era apaixonante de Carly Rae Jepsen tem brilho próprio: The Loveliest Time facilmente é seu melhor trabalho desde o virtuoso E●MO●TION. A lírica amável preenche o material, entoando a efervescência disco em “Shy Boy”, o pop dançante em “Psychedelic Switch”, o pop-rock em “Stadium Love” e o drum and bass em “Put It To Rest”. É visível que as borboletas no estômago de Jepsen geram uma diversidade única e irresistível — e tudo isso é guiado pela habilidade singular em criar junções cativantes indo do saxofone a sintetizadores acelerados e noturnos. The Loveliest Time soa como uma história sobre se apaixonar guiada por capítulos e, nessa jornada, ela não esconde nada: Carly entende que a paixão pode ser movida por momentos de atenção, de gentileza — e do outro lado da moeda, de vulnerabilidade e incerteza. A faceta vigorosamente amante produz música pop em sua mais pura essência, unindo refrões grandiosos e o charme melódico e vocal demonstrados a cada lançamento. — Gustavo Rubik

8

yeule, softscars

Seja em angústia, ou não, o ciberespaço é alvo de opiniões destoantes, tanto dentro quanto fora dele. yeule constrói seu próprio universo nesse emaranhado digital como fuga de uma realidade desconcertante e embriagada — exercício comum por muitos de seus contemporâneos. Mas, toda sua musicalidade ganha a mesma direção: falhas eletrônicas, distorções e camadas densas são adicionadas para desconstruir o resquício de humanidade. Em Glitch Princess isso é central, mas em softscars, ainda que a premissa tecnológica e futurista seja mantida, a figura ciborgue ganha alguns contornos mais humanos. yeule faz isso propositalmente e seu terceiro álbum acompanha com menos intensidade o eletrônico vanguardista do disco passado, aparecendo pontualmente, como na própria faixa-título, ou em “inferno”, música que relembra também Serotonin II.

Mas o que se destaca são as cordas do rock alternativo que conduzem para uma poderosa experiência densa e taciturna, graças às sonoridades influentes que acompanharam sua adolescência e hoje geram peças estonteantes como “dazies” e a explosão punk de “cyber meat”. O registro deste artista sintetiza coisas importantes: além de fazer resgates do passado, é inteligente ao uni-los com as vertentes da música eletrônica, conjugando um material que chama a atenção para possibilidades criativas no futuro. Assim, a colagem entre o som das falhas sintéticas e da guitarra carregada, possibilita que yeule faça um reconhecimento importante:  viver por tanto tempo na própria caixa criada no digital não parece ser sempre a melhor saída, somente esconde e camufla as feridas que em softscars começam a cicatrizar a partir do entendimento da realidade nua e crua. — Gustavo Rubik

7

DJ RaMeMes (O DESTRUIDOR DO FUNK), Sem Limites

Sem Limites é o primeiro álbum de estúdio do DJ RaMeMes, que se revela como uma das maiores experiências no universo do funk. Conhecido como “destruidor do funk” RaMeMes não apenas quebra as barreiras, mas redefine totalmente os limites deste gênero musical. Sua abordagem experimental destaca-o como uma figura ousada e inovadora, fazendo com que o álbum seja um manifesto da essência do DJ, que mergulha profundamente na exploração de novos horizontes. RaMeMes transcende a previsibilidade com sua capacidade de mesclar elementos que contribui para a criação de algo que desafia categorizações convencionais. Cada faixa é uma jornada que oferece uma mistura eclética de ritmos, batidas e texturas, mantendo os ouvintes envolvidos do início ao fim. A imprevisibilidade torna-se uma marca registrada de Sem Limites, no sentido em que o artista conduz os ouvintes a momentos de euforia e contemplação. — Brinatti

6

Mitski, The Land Is Inhospitable and So Are We

O álbum mais recente de Mitski representa uma significativa ruptura de seu trabalho anterior, centrado no dance-pop,  revelando uma notável evolução em seu estilo musical. A incorporação de elementos folk e texturas cuidadosamente elaboradas complementa de maneira coesa a sublime voz de Mitski, resultando em uma obra auditiva que equilibra habilmente serenidade e ao mesmo tempo uma cativação inseparável. A grandiosidade e intensidade da instrumentação elevam cada composição, mergulhando os ouvintes em um dos mundos mais envolventes deste ano. A mais recente evolução artística de Mitski não apenas evidencia sua versatilidade, mas também a enriquece a experiência musical para seus fãs, representando um capítulo emocionante e inovador em sua carreira. Isso foi claramente observado pelo sucesso do single “My Love Mine All Mine”. — Gerson Monteiro

5

Jessie Ware, That! Feels Good!

That! Feels Good! é o quinto álbum de estúdio da talentosa cantora e compositora britânica Jessie Ware. Um trabalho que resgata o glamour e o brilho dos anos 70, incorporando influências que transitam entre o disco, funk e dance pop. O projeto destaca os talentos de Ware tanto como intérprete quanto como compositora. Ideal para quem busca uma jornada nostálgica pelos sons setentistas, oferecendo simultaneamente uma abordagem fresca e contemporânea ao gênero. Ware mais uma vez demonstra sua maestria em cativar o público com uma obra musical que não apenas homenageia o passado, mas também constroi seu próprio espaço único no presente, consolidando sua posição como uma artista cada vez proeminente na indústria. — Gerson Monteiro

4

Ana Frango Elétrico, Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua

Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua é o mergulho na maturidade técnica de Ana Frango Elétrico, que se destaca ao explorar uma eclética sonoridade evocativa dos anos 70 e 80. Com nuances da música disco, pop, rock e soul, a obra revela uma narrativa íntima que aborda desde relacionamentos fracassados até questões sobre gênero e sexualidade. O melhor disso tudo é a forma como Elétrico discorre sobre esses assuntos, de maneira, às vezes, irônica. Além disso, o que mais impressiona é a habilidade de Elétrico em preservar sua identidade artística; é possível ver muito do Little Electric Chicken Heart aqui, principalmente quando se trata de uma expressão que ressoa sinceridade e transmite diferentes tipos de emoções. Ao longo do álbum, é evidente que Elétrico não apenas dominou tecnicamente sua abordagem musical, mas também conseguiu encapsular momentos da sua vivência e também reflexões. Em um cenário musical muitas vezes saturado, o álbum se destaca como uma obra que vai além das tendências da música popular brasileira. — Brinatti

3

Lana Del Rey, Did you know that there's a tunnel under Ocean Blvd

O nono disco de Lana Del Rey, Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd, é o primeiro registro da cantora depois de uma declaração honesta de felicidade no ano passado. Diferente de lançamentos anteriores, esse é o primeiro álbum da compositora que carece de polêmicas pré-lançamento enquanto dá continuidade ao som refinado produzido pelo amigo de longa data de Del Rey, Jack Antonoff. Did you know é concebido a partir de canções que revelam uma autoconsciência notável, instantes esses nos quais Lana se distancia da romantização passada de relacionamentos e foca sua caneta em discorrer sobre o processo de amadurecer e envelhecer e todas as coisas maravilhosas — sua declaração para um casal de amigos em “Margaret” — e terríveis que acompanham isso — o medo do esquecimento na faixa-título. Em suas letras, Lana reflexiona sobre sua própria discografia e vida, fazendo dessas odes nacionais não apenas para mulheres de uma sociedade norte-americana decadente, mas também para toda uma nação. O álbum traz faixas poderosas que exploram temas como o corpo, comportamento e cultura do estupro, exibindo uma sinceridade e intimidade visceral — sua obra-prima, “A&W”, é uma metáfora sinuosa construída a partir dos diários de Del Rey sobre como moças, geralmente, são meros produtos descartaveis. Sua reflexão nostálgica sobre o passado e continua esperança evidencia a compreensão de que, enquanto houver memórias, Lana continuará acreditando em, pelo menos, si mesma. — Leonardo Frederico

2

Sufjan Stevens, Javelin

O que Sufjan Stevens pode entregar em um disco é sempre uma surpresa. Suas composições são fruto de um trabalho contemplativo exteriorizando angústias arroladas junto a vivências pessoais. Ao longo da carreira versátil, disposta a explorar desde o folk ao eletrônico, o multiartista foi compreendendo a música como uma colagem catártica. E Javelin não é apenas uma peça deste conjunto, é um quebra-cabeça completo. Isso porque ele desempenha o que parece ser uma viagem ao longo de sua própria discografia. A intimidade confessional externada principalmente em Carrie & Lowell, é vista cintilando em “Goodbye Evergreen”, ao passo que a mesma faixa se reveste da grandiosidade instrumental que endereça para o experimentalismo de The Age of Adz.

Compreendendo a musicalidade como uma construção reveladora, a progressão de Javelin apela para a simplicidade gradativamente complexada pela intrusão de sintetizadores, corais avolumados e sons maximalistas: impossível não se render ao coro exuberante de “Shit Talk” e a imersividade ambiente adicionada como elemento final da trilha folclórica. Com “Will Anybody Ever Love Me?” Stevens entrega uma linha básica: “Algum dia serei amado?”. Mas essa simplicidade nunca limitou sua criatividade, os acordes de banjo se desconstroem num rumar de tambores condensados em adições eletrônicas inteligentes. Javelin é um lugar onde as emoções vibram, soam minimalistas com a introspecção do folk e maximizadas com a pulsão experimental e eletrônica. A lírica reverbera na produção construindo esse espaço onde cada sentimento é válido e importante para quem é Sufjan Stevens. — Gustavo Rubik

1

Caroline Polachek, Desire, I Want To Turn Into You

Desire, I Want To Turn Into You, o segundo álbum de Caroline Polachek, mergulha no âmago do ser humano, oferecendo uma experiência musical que espelha seu comportamento mais intrínseco: seu desejo por acreditar em um amor carnal, ainda que genuíno, apesar de suas falhas de ego. Sendo seu trabalho mais abrangente, sustentado por sonoridades que vão desde flertes com o flamenco até o pop italiano dos anos 1960 e 1970, Polachek cria uma atmosfera visceral tropicalista. Suas líricas abstratas e a produção multifacetada celebram e exploram o desejo em suas formas mais intensas, desde suas manifestações egocêntricas em “Welcome To My Island”, até a turbulência emocional de finalmente atingir um altruísmo de “Billions”. Nesse sentido, essa é uma obra que é um retrato complexo e vívido do ímpeto humano e sua construção na forma mais desorientada possível. Imergindo em ambientes sonoros tropicais e introspectivos, Caroline remenda uma paleta de sons que reproduzem experiências que variam entre o extasiante e o sombrio em um trabalho que avista a essência do desejo como um poderoso combustível para exploração artística e introspecção emocional, ao mesmo tempo em que oferece uma visão intrigante e multifacetada dos enredamentos do amor e da busca de seu verdadeiro eu. Desire, I Want To Turn Into You é a canalização mais precisa e veraz do pequeno mundo de Polachek, mas é fascinante para qualquer um. — Leonardo Frederico

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