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Arca, foto por Unax LaFuente; Beyoncé, foto por Rafael Pavarotti; Big Thief, foto por Alexia Viscius; Charli XCX, foto por Emily Lipson; Mitski, foto por Ebru Yildiz; Rosalia, foto por Carlos Jaramillo; Taylor Swift, foto por Beth Garrabrant; The Weeknd, foto de The Weeknd x The Dawn FM Experience; Tulipa Raiz, foto por Ninos Andres Biasizzo; Weyes Blood, foto por Neil Krug;
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Os 50 Melhores Álbuns de 2022

Apresentando a lista dos melhores álbuns de 2022, contando com Beyoncé, Björk, Charli XCX, Rosalía, Tulipa Ruiz, Weyes Blood e mais!
POR SoundX Staff
dezembro 6, 2022

“De salpicos de aspersão a cinzas de lareira”, 2022 foi, finalmente, a retomada ao normal que todos nós ansiamos por mais de dois anos. Felizmente, os números da pandemia caíram drasticamente, ao passo que shows ao vivo, com público, voltaram a ser algo rotineiro na vida dos artistas e dos fãs. Os festivais voltaram com força total, bem como as premiações que abandonaram o uso de máscaras e abriram as suas portas para sua audiência. Embora estranho, esse foi um ano de retomada aos eixos, algo que também  aconteceu no mundo da música: enquanto veteranos voltaram com novos trabalhos depois de anos — como Beyoncé, Kendrick Lamar e Bjork com seus primeiros registros solo em mais de cinco anos — outros resgataram a sua personalidade habitual — como Taylor Swift que adotou o pop novamente —, ao mesmo passo que calouros foram introduzidos por sua excelência. De modo geral, esse foi um ótimo ano para música, com obras que, da mesma forma que nos últimos dois anos, foram peças essenciais para nossa sobrevivência mental. No entanto, dessa vez, para uma direção e readequação mais feliz e divertida. Segue nossa lista com os 50 melhores álbuns de 2022.

50

The Smile, A Light For Attracting Attention

The Smile é mais um projeto paralelo ao Radiohead, e A Light for Attracting Attention é o disco de estreia deles. Dessa vez, Thom Yorke, ao lado de Jonny Greenwood e Tom Skinner, juntam-se para entregar o projeto mais notável lançado pelos membros da banda inglesa fora do eixo principal. A Light for Attracting Attention funciona como uma ferramenta de resgate nostálgico que revive diversos momentos passados da carreira deles, principalmente do Radiohead: “The Same” remonta os padrões assombrosos de Kid A, de 2000, ao passo que “The Opposite” remanesce das sessões acústicas de In Rainbows, de 2007, e toques de Ok Computer, de 1997, são polvilhados ao longo do registro. Embora sofra com um certo excesso, esse é o projeto “mais Radiohead” fora do Radiohead que recebemos em anos. — Leonardo Frederico

49

Jockstrap, I Love You Jennifer B

I Love You Jennifer B é o primeiro álbum da dupla experimental formada por Georgia Ellery e Taylor Skye e surge para, finalmente, corrigir os problemas que seus os outros projetos continham. Nesse primeiro disco de estúdio, os britânicos aprofundaram ainda mais sua sonoridade, construindo faixas que fossem inspiradas por artistas ousados do passado, sem perder a mão na criação de algo dentro das tendências. Por grande parte, esse é um disco cinematográfico, com suas canções de escrita profunda e sonoridade atmosférica eletrônica, bem como uma obra que não se contenta com barreiras e, a todo momento, tenta criar algo novo. Jockstrap, em I Love You Jennifer B, não só tenta criar magia, mas também tenta mantê-la viva pelo maior tempo possível. — Leonardo Frederico

48

Nina Nastasia, Riderless Horse

Em 26 Janeiro de 2020, Nina Nastasia terminou seu relacionamento de 25 anos com seu ex-parceiro e produtor Kennan Gudjonsson, no dia seguinte, Kennan cometou suicídio. Riderless Horse, o primeiro disco de Nina depois de doze anos, é sobre isso. Essa talvez pode ser uma maneira um pouco seca de descrever o álbum, mas na verdade, é quase impossível falar de Riderless Horse sem ser o mais direto possível: este não é um projeto em que você vai achar conforto. Durante seus trinta e três minutos de duração, Nina conta para o ouvinte, com detalhes, como ela lidou com uma experiência tão traumática, que se tornou ainda pior devido a pandemia que veio pouco tempo depois. Algumas comparações podem ser feitas com A Crow Looked At Me, álbum que Phil Elverum lançou em 2017 através de seu projeto solo, Mount Eerie: ambos compartilham não só um tom instrumental parecido, com músicas folk bem suaves, contendo apenas a voz do artista e um violão, mas também o tema central, de como lidar com a morte de um ente querido. Porém as comparações começam e terminam aí, enquanto A Crow Looked At Me mostra Phil lamentando a morte de sua esposa Geneviève, Riderless Horse mostra Nina não só lamentando, como, em outros momentos, se culpando, ou até sentindo algum alívio, já que ela deixa bem claro no decorrer do LP que o relacionamento dela com Kennan tinha seus momentos altos, mas também vários, tóxicos, e prejudiciais, momentos baixos. Este não é um álbum feito para alegrar, as letras contém uma frieza assustadora. Nelas, Nina convida o ouvinte a olhar toda essa situação pelo ponto de vista dela, convite esse que, se você aceitar, te proporciona uma experiência comovente e devastadora, que com certeza vai perfurar seu coração. — Matheus Henrique

47

Silvana Estrada, Marchita

Em Marchita, Silvana Estrada se apoia sobre um sentimento de solidão e morbidez. Seguindo uma máxima que prioriza o silêncio e o espaçamento entre instrumentos em vez de grandes produções, Estrada faz com que o vazio soe mais poético e significativo do que propriamente apenas uma lacuna. Nesse disco, sua mitologia se baseia na falta de sons, que é sentida no plano de fundo de cada faixa; na simplicidade instrumental, que quase sempre se resume a um violão e analogico; e, na lírica, que é organicamente folclórica. Marchita é, portanto, uma pintura exata e precisa do que folclore pode ser nos dias atuais. — Leonardo Frederico

46

Yeah Yeah Yeahs, Cool It Down

Cool It Down é marcado pelo retorno da banda Yeah Yeah Yeahs após 9 anos sem nenhum lançamento. O disco possui um teor delicado e criativo, em que, ao decorrer de cada faixa, se fortalece um viés enérgico. O alternative dance e indie rock fez com que aquilo que pode vir a ser considerado retrô e moderno passasse a ter o seu destaque dentro do álbum. As canções que se iniciam menos eufóricas, acabam por se transformar em experimentações deturpadas e sensação de nostalgia. O imaginável estabelece um contraste visual, em que o ouvinte está paralisado em uma pista de dança, enquanto vão acontecendo diversas situações em câmera lenta e, de alguma forma, ocorre a espera de que algo possa vir acontecer a qualquer momento. — Brinatti

45

朱婧汐 [Akini Jing], 永无止境的告别 (Endless Farewell)

De início, o que enche os olhos em 永无止境的告别 (Endless Farewell) são os fragmentos narrativos utilizados pela composição lírica ao longo da obra. Aqui, o espaço se define através da amplitude sistêmica de várias realidades em que as nove faixas são encaixadas. Funcionando como uma representação focada no multiverso filosófico, político, social e tecnológico, vemos Akini Jing permear cada momento com uma visão de mundo diferente, buscando sempre manter a coesão de tais pontos em seu discurso questionador. Esse conceito, que reúne um bocado de influências, como filmes de ficção científica e histórias do subgênero cyberpunk, além de inédito, principalmente no que diz respeito ao meio artístico em que os cantores chineses se encontram, faz com que o direcionamento central seja ainda mais refrescante. É um trabalho de vanguarda que passa por diversas vertentes musicais, indo do glitch pop ao drum & bass e trance, passando pelo post-industrial e fincando as suas bases no IDM. Sem dúvidas, um dos discos mais desafiadores e, principalmente, pretensiosos dos últimos anos. Um marco definitivo na música pop chinesa. — Matheus José

44

Carly Rae Jepsen, The Loneliest Time

Carly Rae Jepsen construiu uma das melhores discografias pop da atualidade com E•MO•TION, Dedicated e Dedicated Side B. E agora, com The Loneliest Time, novamente, a artista consegue trazer um ótimo lançamento pop. Mesmo que esse seja inferior aos seus 3 registros anteriores, ainda figura entre os melhores do gênero lançados nesse ano. Não há o que falar de negativo sobre o LP: sua produção é bem edificada e muitas das músicas contam com pontos altos nesse aspecto. Olhe, por exemplo, para os violinos utilizados pelos produtores na faixa-título. Enquanto isso, liricamente, ela consegue elaborar composições bem escritas, muitas das quais conseguem abordar o tema central do disco sobre solidão muito bem, como “Bends”, que fala sobre a morte de um familiar de Jepsen de maneira a mostrar as emoções dela diante do ocorrido, entre essas sentimentos o de sentir-se só. Ademais, a cantora reforça com The Loneliest Time o quão habilidosa ela é para criar trabalhos artísticos que tragam uma extrema diversão. Canções do projeto, como “Talking To Yourself”, “Bad Thing Twice” e “Surrender My Heart”, cativam o ouvinte em um nível que poucas músicas pops lançadas este ano conseguiram da mesma forma. — Davi Bittencourt

43

Viagra Boys, Cave World

Em Cave World, Viagra Boys explora, com um forte tom sarcástico e irônico, a mente do cidadão de extrema direita, que nos últimos anos vem ajudando a propagar todas as notícias falsas e teorias da conspiração absurdas que as letras desse álbum, de maneira hilária, satirizam. E todo esse humor não se limita apenas ao lírico: durante seus 40 minutos de duração, Cave World apresenta, na parte instrumental, um dance punk extremamente divertido, fazendo com que seja impossível o ouvinte não querer dançar enquanto músicas como “Troglodyte” e “Ain’t No Thief” tocam. Nos vocais, Sebastian Murphy também dá um show, e apresenta uma performance que remete perfeitamente àquela pessoa que anda na linha tênue entre conservadorismo e loucura. E para essas pessoas, a banda quer, com esse álbum, mandar apenas um recado, este que é repetido várias vezes, em alto e bom tom, na faixa de encerramento do LP: Saia da sociedade, seja um macaco. — Matheus Henrique

42

Quadeca, I Didn't Mean To Hant You

Se Quadeca já havia mostrado, com From Me To You, ser um artista talentoso, um dos melhores nomes da indústria fonográfica que surgiram graças ao Youtube, I Didn’t Mean To Haunt You representa uma grande evolução do cantor, com ele trazendo um material de um nível de qualidade que consegue surpreender até mesmo a quem menos via potencial em Benjamin Lasky. Sonoramente, percebe-se no registro ele fugindo do hip-hop e partindo para um som voltado à folktronica, com essa mudança sonora tendo sido bastante positiva, mostrando se dar extremamente bem no gênero — até mais do que no rap —, ao entregar nele suas melhores canções em termos sonoros. E não apenas os aspectos que tangem sua sonoridade tornam este seu melhor trabalho artístico, bem como suas composições. Suas letras nunca foram tão excepcionais quanto as de seu novo disco. É muito impressionante ver como alguém que não há tanto tempo estava compondo uma diss track para KSI, com um lirismo medíocre, estar agora escrevendo canções que abordem tão excelentemente a narrativa do disco sobre o suicídio do personagem e ele estando como um fantasma,  como em “sorry4dying”, que fala sobre esse tema com metáforas inteligentes pra mostrar ele indo a óbito: “Fuel tank blink, it’s been runnin’ in the red / Praying for a green light, looking straight ahead / Nothin’ else seems right, you know what I said / Told myself to calm down, listen, understand”. — Davi Bittencourt

41

Charlotte Adigéry & Bolis Pupul, Topical Dance

Para muitas pessoas, as pistas de dança costumam ser lugares de escapismo e extravasão. Porém, a sua história e dos gêneros musicais que borbulhavam a partir da cena colocam esse espaço como um epicentro notável de narrativas e fazeres políticos. O duo Charlotte Adigéry & Bolis Pupul extrapolam os limites entre as duas realidades desse espaço e trazem sua natureza política não apenas na vivência e existência, mas se materializam no lirismo de Topical Dancer em sua totalidade, sem nenhum pudor ou entrelinhas. Trilíngue (com linhas em inglês, francês e haitiano), o álbum se debruça principalmente sobre imigração, racismo e as diferentes nuances do machismo. Ele encontra a ferida, expõe, faz sangrar e tenta projetar novos caminhos possíveis a partir delas. E tudo isso acontece ao som de produções eletrônicas super sofisticadas e que te desafiam e te encaram, te observando da cabeça aos pés, para entender se você é um aliado ou apenas um farsante. — Felipe Ferreira

40

Ravyn Lenae, HYPNOS

Ravyn Lenae é o tipo de artista que assiste seus feitos anteriores e os aproveita para mudar sua direção artística. Nas palavras da própria, é muito fácil se encapsular numa zona de conforto, mas ela quer fugir e se desafiar, em qual aspecto seja. Contando com a união de parceiros antigos, como Steve Lacy, e novas colaborações no seu repertório, como Fousheé, Lenae leva o título do seu primeiro álbum de estúdio ao pé da letra e faz o ouvinte entrar num estado de hipnose. São dezesseis faixas e cinquenta e três minutos que se dinamizam como um pêndulo, com o seu vocal doce e quase onírico como fio condutor. Da abertura instigante de “Cameo” ao encerramento cinematográfico de “Wish”, o cansaço não existe durante o trajeto e a experiência se traduz como uma viagem sonora um pouco nebulosa, mas totalmente fantástica. — Felipe Ferreira

39

Tim Bernardes, Mil Coisas Invisíveis

Desde o seu primeiro disco solo intitulado Recomeçar, Tim Bernardes já demonstrava ser uma figura importante para a música popular brasileira. Nesse sentido, diferente do seu projeto antecessor, o artista, em Mil Coisas Invisíveis, se mostra ainda mais intimista. O que antes poderia vir a ser considerado e configurado como constâncias emocionais de altos e baixos, sem nenhum acalanto, e marcado por sensações angustiantes e medos, aqui facilmente mostra Bernardes retornando as suas experiências e lidando com elas de uma forma mais madura, fazendo com que o ambiente em que ele trata suas emoções, se torne algo aconchegante, dialogando de forma pretensiosa com o ouvinte. — Brinatti

38

LUDMILLA, Numanice #2 (Ao Vivo)

Bendito foi o dia em que Ludmilla teve a ideia de fazer um disco de pagode. Apesar de sempre ter tido contato com esse estilo musical, a artista só foi considerar adentrar nesse espaço após vencer o Prêmio Multishow de melhor cantora, em 2019, quando havia prometido lançar um projeto do gênero caso ganhasse — assim foi feito. Anos depois, no segundo disco de pagode lançado por ela, a cantora reforça ainda mais o motivo de ter dado tão certo nesse segmento. Numanice #2 (Ao Vivo), gravado no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, contém algumas das melhores interpretações ao vivo da funkeira, agora, pagodeira, além de contar com diversas participações especiais, como Péricles e Marília Mendonça. No geral, esse é um álbum que pressupõe a vontade e o desejo de mudança, sobretudo, a coragem de se reinventar e explorar algo que, muitas vezes, não é nada propício aos seus caminhos percorridos até então. E, apesar de tudo, podemos dizer que deu muito certo. — Matheus José

37

Soul Glo, Diaspora Porblems

Em seu segundo álbum de estúdio, Soul Glo mostra que eles não querem se perder no meio do mar de bandas de hardcore que inundam a cena punk nos dias de hoje, e fazem uma pergunta que, apesar de simples, não é feita com frequência dentro do gênero: “E se nós tentássemos inovar?”. A resposta veio no formato de Diaspora Problems, um LP em que a banda, com uma facilidade exemplar, brinca e experimenta dentro de um espaço que, há um bom tempo, parece apenas recompensar o velho, mas nunca o novo. Desde a fusão de punk com rap e trap em “Driponomics”, até os coros vocais e trompetes na segunda metade de “Spiritual Level Of Gang Shit”, Soul Glo traz um nível de agressão e energia digno de ser comparado com qualquer clássico do gênero. E toda essa energia também é transmitida em outras duas áreas nesse projeto: nas letras, nas quais Pierce Jordan, GG Guerra, e TJ Stevenson mostram que tem muito a dizer, com inúmeros comentários sobre tópicos progressistas e críticas sociais afiadas, e nos vocais, nos quais Jordan soa como uma metralhadora de palavras, onde o importante não é ser compreensível, mas sim conseguir colocar todas as ideias e críticas para fora, para que todos possam ouvir, e levando em consideração todo o barulho e agressividade contido nessas músicas não ouvir é simplesmente impossível. — Matheus Henrique

36

Shygirl, Nymph

Shygirl é uma artista com uma carreira bem curiosa. Conhecemos desde o meio da última década, mas o seu primeiro disco saiu apenas esse ano. E foi uma espera totalmente válida. As canções de Nymph são cheias de vida, outras extremamente melancólicas e conseguem exprimir a personalidade da cantora de uma forma excepcional. Desde a batida sexual de “Shlut” — um dos grandes destaques do projeto, por sinal —, até a etérea “Honey”, o registro passa por diversas atmosferas que casam muito bem entre si, revelando o que todos nós já sabíamos com os seus projetos anteriores: sua versatilidade é real. — Kaue Santana

35

Grace Ives, Janky Star

Grace Ives teve a receita perfeita para criar Janky Star: um vocal dinâmico, exploração dos instrumentais junto a suas possibilidades, e fidelidade com sua persona. O disco é a trilha sonora de uma viagem por dentro de Ives, de seus sentimentos, sonhos, pensamentos e, principalmente, de sua criatividade artística. Desde o 2nd, seu álbum de estreia lançado em 2019, Grave Ives surpreende por ser uma artista multidimensional. Além de compor, produzir, mixar e idealizar suas obras, trazendo muita personalidade em seus resultados, ela consegue, com maestria, transformar tanta criatividade e reflexão pessoal em músicas complexas e que podem ser consumidas de forma geral, mesmo que os assuntos abordados para composição sejam pessoais e únicos, as técnicas de produção — mesmo que em um álbum pop — sejam mais experimentais e específicas. Janky Star é o som de fundo para qualquer viagem cerebral que busque reflexão e experimentar novas sensações e sentimentos. — Vinícius Servano

34

Ethel Cain, Preacher's Daughter

O disco de estreia de Ethel Cain, Preacher’s Daughter, é um dos trabalhos mais folclóricos lançados nos últimos anos — senão, nas últimas décadas. O registro que, segundo a cantora, é a primeira parte de uma série que contará a história de três gerações de mulheres, trabalha uma narrativa catártica e refinada que segue os traços de uma garota que lida com as cicatrizes deixadas por um abuso na infância (“Hard Times”). Mais tarde, na adolescência, decide fugir de casa com um novo namorado que, no final, levaria-a para sua morte. Cain se apóia quase que totalmente em sintetizadores atmosféricos em tonalidades sépias, que ressoam os mínimos detalhes das confissões de Hayden em escalas maiores. Em “American Teenager”, o sonho adolescente estadunidense de ensino médio se quebra para dar lugar à massiva quantidade de detalhes da fuga estilo Bonnie & Clyde de “Thoroughfare” e, posteriormente, para reflexões de canibalismo de “August Underground” e transcendência espiritual de “Televangelism”. Preacher’s Daughter, nesse sentido, é uma exuberante fábula folclórica intimista e estranhamente mágica. — Leonardo Frederico

33

Alvvays, Blue Rev

Este é o retorno de Always após 5 anos desde seu último álbum, Antisocialities. O disco situa a banda entre os maiores destaques do power pop e indie rock. Em fato, Blue Rev talvez seja a melhor peça nos gêneros que vemos em anos, haja vista exemplos não tão bem apreciados como Tetris, de Sleigh Bells. Recheado de canções joviais, como “Velveteen”, que retrata o momento inicial de desconfiança de uma traição, ou “Belinda Says”, uma balada nostálgica sobre gravidez e os percalços que envolve seu desenvolvimento. Enfim, Blue Rev é uma fumaça de alegria que se espalha pelo ar, contaminando-o de ingenuidade e jovialidade. — Kaique Veloso

32

The 1975, Being Funny In A Foreign Language

Being Funny In A Foreign Language trouxe o equilíbrio artístico autêntico e confortável ao grupo britânico. Junto de Jack Antonoff, a fórmula do grupo é remodelada para melhor, trazendo algo completamente novo e diferente na discografia dos 1975. Neste projeto, eles se reafirmam na vanguarda do pop-rock dos anos 2020, fundindo as texturas e ideias musicais de sucessos do soft-rock de três décadas atrás, com sensibilidades modernas de uma forma que soa instantaneamente familiar, mas distintamente do momento. O grupo convida o ouvinte a embarcar numa viagem sem destino prévio, onde arriscamos envergonharmo-nos por amor e onde a sinceridade é uma virtude. — Gerson Monteiro

31

Denzel Curry, Melt My Eyez See Your Future

Em Melt My Eyez, See Your Future, Denzel Curry entrega seu melhor lançamento desde TA13OO, trazendo nele uma das peças mais fantásticas do hip-hop deste ano, a qual reforça como ele é um dos rappers da atualidade de maior excelência. São diversos os aspectos que tornam seu quinto álbum de estúdio tão fascinante, a produção do registro mostra-se um destaque por, além de trazer consigo muitas ótimas escolhas, ser bastante eclética, haja vista suas influências de boom bap, jazz rap, hardcore hip-hop e, até mesmo, um pouco de drum n’ bass sem esforço algum. Em outro aspecto, suas letras mostram a habilidade de Denzel para criar versos belos e excelentemente escritos e sua performance, igualmente a em outros de seus registros, soa fenomenal, com o artista trazendo um flow impressionante em boa parte do disco. — Davi Bittencourt

30

Arcade Fire,WE

Em WE, é possível observar que os integrantes da banda Arcade Fire, tentaram busca pela identidade artística constituída dentro dos seus primeiros discos. Desde Everything Now, a banda passou por diversos deslizes, principalmente na dificuldade em criar melodias que prendem o ouvinte e o leve para o mundo estabelecido pelos integrantes. E aqui, não mudou muita coisa, mas é de se admirar a busca constante de trazer algo confortável, principalmente para aqueles que sempre o acompanharam. O disco tem sua marca registrada nos momentos em que a euforia e a melancolia se cruzam de maneira inesperada, tornando-o totalmente otimista e intimista, isso faz com que o ouvinte passe a concebê-lo da melhor forma. — Brinatti

29

Angel Olsen, Big Time

Após acontecimentos que dilaceraram Angel Olsen em sua vida pessoal, a artista entregou um material que conecta melancolia e libertação em uma narrativa visceral, profunda e um tanto quanto reflexiva. Esteja familiarizado ou não com o som da cantora, é quase impossível percorrer as 12 faixas que compõem o álbum e terminar indiferente. É um disco tocante, sincero e muito bem produzido, apresentando músicas com uma forte capacidade de imersão. — Lucas Souza

28

Arctic Monkeys, The Car

Arctic Monkeys é um caso extremamente curioso. Suas músicas são cultuadas até hoje, mas o público geral não conhece todo o trabalho da banda. Com isso, o que faz o grupo ser tão amado pelo público? The Car tem a resposta: sua capacidade de criar cenários. Um disco que é recheado pelos anos 70 — algo parecido com Daddy’s Home, de St. Vincent — e faz homenagem a maioria dos artistas da década com grande vigor e carinho, certamente veio de uma banda que não apenas faz um ótimo trabalho de “pesquisa” ao produzir seus projetos, como também pensa nos detalhes de forma minuciosa — e completamente natural.  The Car não é apenas um registro do legado do grupo, mas também uma maneira de realmente firmar um novo momento para Arctic Monkeys.  — Kaue Santana

27

JID, The Forever Story

Atlanta é a grande capital do hip-hop estadunidense. Desde os anos 1990, com o duo Outkast tomando a linha de frente, a cidade se elevou a um lugar de grande relevância em proporcionar grandes rappers para a cena, com um estilo característico e quase exclusivo. JID é reforço consistente do melhor que esse berço prolífico pode oferecer, e parte dele para as histórias contadas no seu terceiro álbum de estúdio, The Forever Story. Com um jogo de palavras articulado, as rimas do rapper passeiam pela reflexão do êxodo de seu contexto anterior e os mecanismos de sobrevivência dentro da indústria e fora dela. Ele se aventura em aprimorar sua voz cantada e encaixá-la entre um flow confiante e afiado, emergidos nas produções e beats que propõem criatividade e surpresa como palavras-chave. Num momento específico de meio de carreira, cria uma sequência ao The Never Story, seu disco de estreia de 2017, e faz esse conceito tão temido funcionar. — Felipe Ferreira

26

Perfume Genius, Ugly Season

Embora Mike Hadreas tenha entregado registros que vinham se tornando cada vez mais intriguistas, é com Ugly Season que ele realiza o movimento, de certa forma, mais inesperado e ousado de sua carreira. Esse é uma obra que surge de um conjunto de canções que Genius gravou para um projeto musical performático que fez com Kate Wallich, chamado The Sun Still Burns Here, o que, por si só, já revela que esse não é um registro intimista igual aos seus irmãos mais velhos, mas sim um trabalho que se arremessa para fora da intimidade em prol de uma maior experimentação, que, por sua vez, fez com esse fosse seu álbum menos acessível até então. Ugly Season é empírico, tanto em seu planejamento não ortodoxo, quanto em canções que se recusam a seguir traços normativos (“Ugly Season”); enquanto ressignifica as estruturas normativas, trazendo um novo olhar para fórmulas desgastadas (“Pop Song”). Mas, o grande destaque acaba sendo “Eye in the Wall” e “Hellbent”: ao passo que a primeira subverte o pop, a segunda entrega uma das composições mais viscerais da carreira de Hadreas. Nas mãos de Mike, essas são peças que irão crescer e crescer. — Leonardo Frederico

25

Yeule, Glitch Princess

Glitch Princess é um retrato de dor. Sofrido e enigmático, ele embalsama-se do doce perfume pútrido da morte. Embora essa descrição possa levar a uma interpretação errônea do álbum da singapurense yeule, como pensar que este talvez seja uma ode ao sofrimento, ou a glorificação da depressão — não os é —, o peso que algumas de suas composições carregam o define por si só. O disco experimental trafega pelas vias do glitch pop, spoken word, hyperpop e da música ambiente para, assim, construir sua narrativa de desilusão amorosa e com a vida em geral. Danny L Harle, que já trabalhou com o ídolo pop Caroline Polachek, também aparece aqui como co-produtor e autor de algumas faixas, entre as quais “Electric”, rodeada de versos que contam detalhes extremamente pessoais de auto-aversão e automutilação de yeule e de vocais agudos gritados em busca de alívio. 

Em síntese, às vezes, Glitch Princess parece pessoal demais, e ouvi-lo soa como uma invasão sorrateira dos diários de alguém. Apesar de um pouco desconfortável, nesse sentido, essa é uma experiência transformadora, pois ver-se, ou enxergar-se, em meio a essas canções traz um sentimento de empatia e solidariedade. É um tipo de familiaridade difícil de se estabelecer com alguém pessoalmente. Ao abrir-se de tal maneira que seus cortes, metafóricos ou não, sejam expostos para o mundo, yeule permite que as pessoas compreendam mais sobre ela e sobre si mesmas. Por mais que a noite seja escura e sufocante, Glitch Princess estará lá para guiá-lo até um local seguro. — Kaique Veloso

24

Rina Sawayama, Hold The Girl

Após seu surpreendente disco de estreia em 2020, Rina Sawayama traz seu segundo álbum de estúdio, Hold The Girl, um disco cheio de personalidade e que explora perfeitamente o talento da artista nipo-britânica. A performance vocal de Sawayama ficou excelente, servindo uma grande potência e, também, muita identidade com uma ótima interpretação. A produção do álbum é impecável, trouxe variados gêneros, como como rock, industrial, eletrônica, eurodance e j-pop, sendo cada faixa bem arquitetada e com um toque especial de Sawayama. Seu lirismo é um espetáculo à parte, nota-se que Sawayama pegou influências de alguns artistas como Taylor Swift, Paramore, The Corrs e Kelly Clarkson, em Hold The Girl, encontramos letras de empoderamento, representativas, principalmente da comunidade LGBTQIA+ e também sobre seus relacionamentos. — Lucas Lima

23

Bad Bunny, Um Verano Sin Ti

Un Verano Sin Ti foi um completo estrondo em termos de números e sucesso, alcançando imensos feitos, como por exemplo a maior semana de transmissão de um álbum latino da história. No entanto, não é só o sucesso comercial que Bad Bunny conquistou, também o da crítica, sendo agora o único álbum em espanhol a ser indicado na categoria de Álbum do Ano nos 65 anos de história dos Grammys. O álbum destaca-se pela sua singularidade e extravagância, mesclando uma quantidade imensa de gêneros de forma divertida e energética, dando o escape musical perfeito para um dia de verão. O artista demonstra que o pop latino pode ser diversificado, fugir dos estereótipos do reggaeton atual e, mesmo assim, continuar a ser acessível para o público geral. — Gerson Monteiro

22

Deize Tigrona, Foi Eu Que Fiz

Conhecida pelo hit “Injeção”, que foi sampleado por M.I.A. na música “Bucky Done Gun”, Deize Tigrona sempre serviu de influência e referência para diversos artistas, principalmente, por conta do seu olhar destemido sobre algumas questões consideradas tabu. Foi Eu Que Fiz, primeiro disco lançado por ela em 14 anos, sonoramente, vai além das melodias postadas no funk carioca. Nele, a presença de vertentes ligadas à música eletrônica são peças essenciais da produção assinada por Teto Preto, DJ Chernobyl, Malka, JLZ e BADSISTA. E, embora percorra por caminhos que vão do mandelão ao grime, o álbum tem por princípio se manter firme nas raízes de Deize que, por sua vez, demonstra ser uma coluna de sustentação no próprio funk que ela ajudou a construir ao longo dos anos. — Matheus José

21

Natalia Lafourcade, De Todas Las Flores

De Todas Las Flores é um disco bem minimalista que começa de forma tímida e pouco promissora, mas, ao decorrer de cada faixa, ele vai se aprimorando exponencialmente tomando uma forma super aconchegante, com vocais recheados de personalidade e harmonia de Lafourcade. A artista, imersa em produção introspectiva e confortável, ainda que este seja seu primeiro álbum de estúdio em 7 anos, compôs inteiramente todas as suas canções e realizou um dos melhores projetos de 2022. — Lucas Lima

20

Xênia França, Em Nome da Estrela

Encarada pelo árduo e desafiador processo de fazer um segundo álbum de estúdio, Xênia França constrói uma contraposição solar, existencialista e brilhante de sua própria expressão artística. Xenia, de 2017, trazia perspectivas mais sóbrias e finaliza sua experiência com “Breu”, uma faixa que tensiona e projeta ares reflexivos e quase melancólicos para o ouvinte. Já aqui, a lente é inversa. Após cinco anos e um emaranhado de dificuldades e desertos criativos, Xênia prova que permanece ancestral e grandiosa, mas trata esses elementos com uma luminosidade que irradia para os vocais, os visuais e, principalmente, as suas letras. Mais abstrata do que nunca, suas experiências espirituais, bagagem de vivências e repertórios culturais se materializam no Em Nome da Estrela, um trabalho naturalmente etéreo e flutuante, que flexiona seus talentos e intenções rumo ao encontro do seu ser. Agora Xênia Érica Estrela França deixa os receios de lado e imprime todas as suas digitais num clássico instantâneo, que transborda seu axé em um artefato cultural precioso para a nova MPB. — Felipe Ferreira

19

Beach House, Once Twice Melody

É com o casamento de quatro EPs extremamente completos e bem produzidos que Beach House dá vida ao majestoso Once Twice Melody. Usando características do rock clássico e explorando o dream pop de forma profunda e coesa, o ponto forte do álbum é, sem dúvidas, enaltecer as melodias e suas combinações possíveis, valorizando os sentimentos por elas causados e saindo da mesmice trazida pela indústria fonográfica que polui os álbuns com diversos elementos que não o complementam melodicamente, em prol de transformar a música somente em uma mercadoria. O grande desafio a ser cumprido era conseguir criar um álbum completo, que fosse possível ser consumido do início ao fim, aliás, são uma hora e meia de duração e dezoito faixas que completam o trabalho da dupla norte americana. O desafio é cumprido, com um resultado de massagear os ouvidos: conteúdos líricos diversos, que vão do romance dramático shakespeariano à sensação de quase morte, recitados na eletrizante “Superstar”; uma produção preocupada em causar sensações auditivas significativas e a entrega de um álbum completo, que pode — e deve — ser consumido do início ao fim. — Vinícius Servano

18

Tove Lo, Dirt Femme

O primeiro disco independente de Tove Lo impressiona por sua personalidade. Mesclando elementos do synthpop com o dance oitentista, Dirt Femme explora reflexões referente a mulher na sociedade patriarcal, indo de assuntos como a aceitação do corpo feminino até aos papéis previamente impostos pela sociedade machista. Apesar do assunto já presente em outras obras da cantora sueca, principalmente em Lady Wood e Blue Lips, nesse lançamento houve uma preocupação maior com elementos extras para tornar o disco ainda mais completo, coeso e com uma identidade visual única. Explorando características das décadas 00s e 10s, Dirt Femme une, tanto na produção quanto na construção visual (em seus vídeos musicais, capas oficiais e encartes fotográficos), o passado recente da cultura pop com o futuro, criando um sentimento nostalgico e ao mesmo tempo imprevisível. O ponto forte é, sem dúvidas, as sensações possíveis que cada faixa pode proporcionar. O hipnotizante sintetizador presente, junto a refrões marcantes e viciantes e assuntos complexos e intrigantes formam o nicho necessário para uma dança que emociona e excita. — Vinícius Servano

17

Florence + The Machine, Dance Fever

Dance Fever tem uma grande produção feita por Jack Antonoff e Florence Welch majoritariamente, é um disco eclético no qual são explorados diferentes gêneros, como o folk e o pop progressivo em abundância, bem como algumas vertentes do rock alternativo, música barroca e eletrônica. Tudo isso é acompanhado de um conceito bem atrativo, que remete a época medieval, sendo o título da obra uma analogia a um período histórico da época, a epidemia “febre da dança”. Dance Fever marcou o retorno da banda ao cenário musical após 4 anos desde seu último lançamento, e mostra que eles são muito competentes em relação à qualidade de suas obras. — Lucas Lima

16

Black Midi, Hellfire

Em Hellfire, Black Midi atinge um novo patamar de caos e experimentalismo, executando com maestria os mais complicados arranjos de rock progressivo-experimental e jazz avant-garde, com canções que deixariam os mestres do gênero, como Frank Zappa, orgulhosos. Nos vocais, Geordie Greep mostra toda a versatilidade que tem: em um momento ele pode cantar de uma maneira teatral e dramática, e em outro, entregar uma performance completamente caótica, soando como uma pessoa que está à beira de enlouquecer. E apesar de toda essa cacofonia sonora, Hellfire nunca se perde na sua própria bagunça, todas as faixas são bem compostas, executadas, e únicas, mas que, ao mesmo tempo, podem facilmente remeter aos artistas dos quais a banda claramente se inspirou. Em “Welcome To Hell” por exemplo, temos riffs de guitarra desconexos e pesados, lembrando muito algo que a banda Primus faria, e por conta dos vocais de Greep e o instrumental grandioso de Jazz em “The Defense”, é bem fácil ter Frank Sinatra em mente. Vale também mencionar que liricamente, em todas as faixas, Black Midi parece querer nos contar diferentes histórias relacionadas à perversidade humana: o lutador de boxe, que acaba assassinando seu adversário em “Sugar/Tzu”, a corrida de cavalos regada à drogas e trapaças em “The Race Is About To Begin”, ou o ator de teatro em “27 Questions”, que após ter um fluxo de consciência durante sua última apresentação, acaba literalmente explodindo e morrendo, para o entretenimento e diversão da platéia. Fazendo jus ao título do álbum e a natureza caótica das suas canções, todos esses contos dão ao ouvinte a sensação de estar passando pela lista de convocação do próprio Diabo este que também faz uma pequena aparição na faixa “Dangerous Liaisons” e que, quem sabe, talvez tenha sido o próprio que sentou com a banda, e a contou todas essas histórias. — Matheus Henrique

15

FKA Twigs, CAPRISONGS

CAPRISONGS vem a ser um dos trabalhos mais bem produzidos e executados de FKA twigs. A forma que ela explora uma diversidade de gêneros musicais, que faz com que o álbum não carregue uma identidade única, passando do hip-hop ao dance hall, faz com que existam sensações de estranheza. No entanto, é perceptível que a artista faz jus ao formato do disco. As canções são retratadas muitas vezes em um tom divertido, em que, mesmo diante de uma imensidão de angústias e dramas, torna-se agradável a forma em que ela brinca com elementos rígidos para a construção da estrutura do álbum. Desde LP1 e MAGDALENE, a artista vem se descobrindo e encontrando um equilíbrio perfeito dentro de suas obras. Aqui, se nota como ela se enquadra perfeitamente dentro dos gêneros trabalhados, além de executá-los de forma inteligente e com maestria. — Brinatti

14

Mitski, Laurel Hell

Marcando seu retorno à música, em Laurel Hell, a cantora nipo-americana Mitski nos trouxe um disco com uma produção polida e serviu vocais agradáveis. A artista descreve o álbum como uma trilha de transformação, um mapa para o lugar onde vulnerabilidade e resiliência, tristeza e prazer, erro e transcendência podem estar dentro de nossa humanidade, podem ser vistos como dignos de reconhecimento e amor. É notável a influência da música da década de 80 em suas músicas, o synth-pop domina o álbum, ele soa nostálgico, seguindo a tendência atual da música, nos últimos anos vimos vários outros artistas usando esse tipo de sonoridade em suas obras, e Mitski é uma delas, que com muito êxito trouxe um dos melhores lançamentos de 2022. — Lucas Lima

13

Taylor Swift, Midnights

O desenrolar do décimo disco de Taylor Swift foi um segredo guardado em um cofre misterioso. Entre agosto, no anúncio no VMA, até a estreia no final de outubro, não havia ninguém que pudesse explicar ou especular com precisão como esse novo conjunto de canções soaria — no máximo, sabíamos que seriam faixas que refletiriam treze noites sem dormir de Swift. Midnights, como foi chamado, chegou depois de dois novos álbuns orientados para o alternativo e duas peças do projeto ambicioso da cantora de regravar todos os seus seis primeiros discos em uma meta de recuperar os direitos autorais sobre suas canções. Nesse novo álbum, Swift volta para o pop, mas, dessa vez, mostrando uma faceta mais ousada do que apresentado em seus outros trabalhos de maior apelo popular, 1989 e Lover. Em Midnights, os sintéticos de Jack Antonoff soam mais amplos, partindo de duetos digitalizados em “Midnight Rain” para as referências externas, de Hannah Diamond em “Bejeweled” e Billie Eilish em “Vigilante Shit”. Por outro lado, as composições, ainda que em alguns momentos foram sacrificadas demais por versos mais curtos e, talvez, mais memoráveis (“Anti-Hero”), as habilidades afiadas de Swift ainda brilham em músicas como “Maroon” e “Mastermind”. Sendo um projeto genuinamente equilibrado, Midnights é o disco que consegue ser nebuloso e cativante, que pisa em solos seguros mas que não hesita em ousar quando sente que há espaço para isso. — Leonardo Frederico

12

Sudan Archives, Natural Brown Prom Queen

Natural Brown Prom Queen é um registro que expressa e exige imponência. Os diademas de plástico, tão ansiados por rainhas do baile espalhadas por escolas do ensino médio nos Estados Unidos, são partidos ao meio para dar espaço a uma verdadeira rainha. Sudan Archives afirma que queria demonstrar suas facetas mais desacertadas, pois seus trabalhos anteriores e sua carreira como violinista a traziam uma projeção mais vanguardista e, talvez, intocável. Mas o que vemos é um álbum refinado, que trabalha esses aspectos equilibrando humanidade e excelência. O conciso e a maximização são vizinhos amigáveis, quase inseparáveis nesse trabalho, com vários interlúdios dividindo seu espaço com faixas longas, como “ChevyS10” e “Home Maker”. Uma verdadeira aula de como fazer um álbum R&B. — Felipe Ferreira

11

Big Thief, Dragon New Warm Mountain I Believe in You

Ouvir Dragon New Warm Mountain I Believe in You, o quinto disco do Big Thief, é uma experiência diferente em cada vez. Se os outros registros já existiam de forma singular, estranhos, mas fortemente familiares uns para os outros, Dragon carrega esse sentimento para consigo mesmo. O registro funde as melhores facetas do grupo residente do Brooklyn, mas ainda assim nas linhas das barreiras, expandindo suas fronteiras. Enquanto as composições continuam afiadas, mas também mais cativantes, o som surge como um apanhado de todas as canções da carreira deles: embora tudo soe distinto, Dragon conecta com seus familiares, acenando para todos os trabalhos da banda. Partindo do experimentalismo de “Time Escaping” e “Blurred View”, para as perfeições encaixotadas em gêneros de “Certainty” e “Spud Infinity”, Dragon, com seus 80 minutos de duração, raramente apresenta momentos que não essenciais para seu bem maior. “Para qualquer que seja sua jornada, Dragon estará lá para você” é o sentimento encarregado em todas as faixas. — Leonardo Frederico

10

Arca, KicK iii

KicK iii talvez seja o disco mais ambicioso de Alejandra Ghersi. Este — que se constitui de superfície áspera, arestas irregulares e vértices afiados como a lataria de uma ciborgue esfacelada após um combate — é o terceiro álbum da série Kicks, uma sequência de projetos que propõe realidades imaginárias e completamente distintas da que conhecemos. Na capa, a artista embala não só o conceito deste LP, mas também a sua nova personalidade: agora, Arca é muito mais do que só si mesma; ela é, portanto, a líder de uma revolução de “todas las muñecas en la disco”. Seu nome passa a ser uma referência a ser seguida, principalmente, para aqueles que um dia já foram rebaixados em razão do seu jeito de ser. O álbum de “Incendio” é, na medida em que apresenta suas produções mais abrasivas, barulhentas e perturbadoras — ainda que com traços familiares de gêneros como hip hop, reggaeton e, até mesmo, funk —, um ponto divisório entre os visionários mundos propostos por Arca. 

Nesse âmbito, a faixa “Electra Rex” é um exemplo claro da admirável falta de limites de KicK iii. Nela, a venezuelana ressignifica o mito de Édipo Rei e a teoria freudiana para o complexo de Electra. Ao passo que, na história grega, resumidamente, Édipo mata seu próprio pai e casa-se com sua mãe, evidenciando a relação conflituosa entre os pais e seus filhos homens, bem como seu afeto pela mãe; no Complexo de Electra, a filha desenvolve um amor especial pelo pai, embora tenha certo desprezo pela figura materna, entendida como adversária na corrida pelo carinho paterno. Em toda sua genialidade, Arca estabelece, simultaneamente, uma confluência de ideias entre essas histórias e a total abolição delas: um arquétipo não-binário que assassina ambos pai e mãe para fazer amor consigo mesmo. “Electra Rex” é só um vislumbre da magnitude e da potência de KicK iii, mas “Bruja”, “Incendio”, “Señorita”, “Intimate Flesh” e “Joya” são outros pontos altos do universo de Alejandra. — Kaique Veloso

9

The Weeknd, Dawn FM

No início do ano fomos surpreendidos com um novo lançamento do astro pop The Weeknd, após o estrondoso sucesso de After Hours, que tomou o mundo pela sua proposta mais oitentista, tornando-se tendência nos trabalhos de vários outros artistas. Em Dawn FM, o cantor segue a mesma linha sonora, mas tomando ainda mais riscos e contando uma história coesa junto de Jim Carrey, relatando sobre os seus hábitos tóxicos em relações amorosas e arrependimentos pessoais. Aqui encontramos o artista no seu ápice, tanto em termos vocais como de produção, de maneira a exibir sua criatividade ilimitada e a puxar narrativas e sonoridades cada vez mais interessantes e experimentalistas. — Gerson Monteiro

8

Black Country, New Road, Ants Up From There

Após uma fantástica estreia, que foi considerada por muitos como um dos melhores lançamentos musicais de 2021, Black Country, New Road retorna com um registro ainda mais afiado, Ants Up From There. Mostrando serem artistas musicais de consagre, que já haviam sido taxados como grande revelações, eles conseguem entregar um álbum que mostra ainda mais sua genialidade artística. Nele, os ingleses fogem do post-punk do disco anterior e trazem um som que mistura as guitarras de rock com cordas e instrumentos de sopro do chamber-pop. A banda parece ter se dado muito bem no estilo musical, entregando canções refinadas ao utilizar do ritmo, graças a, especialmente, sua produção, que utiliza dos elementos do gênero de modo a elaborar algo ímpar nesse aspecto. Mas, o projeto se destaca não só por isso, mas também por sua lírica, sendo este um dos pontos em que mais percebe-se uma evolução em comparação com os seus trabalhos, com Ants Up From There contando com várias composições, como “Bread Song”, que figuram entre as mais maduras que o grupo já fez. — Davi Bittencourt 

7

Kendrick Lamar, Mr. Morale & The Big Steppers

Mr. Morale & The Big Steppers é mais dinâmico e instigante do que quase tudo no cenário rap atual. Repleto de variações, de hip-hop experimental, jazz-rap e até west coast hip-hop, Kendrick Lamar é experiente em pegar inúmeras sonoridades diferentes e construir um trabalho coeso e coerente. E o quinto projeto do rapper não é exceção. A experiência sonora cria atmosferas densas que acompanham as histórias profundas do cantor. O álbum se mostrou muito focado no desenvolvimento e complexidade das letras, tocando em vários tópicos sensíveis, como transfobia dentro da comunidade negra, abuso emocional em relações, e problemas parentais, revelando um lado bastante confessional do artista. Mr. Morale é o momento de Lamar para explorar um futuro cheio de familia, terapia e um novo senso de si mesmo. — Gerson Monteiro

6

Tulipa Ruiz, Habilidades Extraordinárias

Gravado de maneira totalmente analógica, usando apenas fitas magnéticas, Habilidades Extraordinárias revela uma Tulipa Ruiz que não se abstém, em momento algum, de criar sons e ritmos pegajosos, ainda que o seu principal destaque seja justamente nos instantes experimentais nos quais, acompanhada por instrumentos livres de execuções regradas, ela grita e geme; faz barulhos indescritíveis, e canta de forma excepcional da maneira que sempre fez. Com força de princípio, a artista reúne alguns dos melhores elementos, cujos quais ela trabalhou no passado, principalmente, no átimo de seu descobrimento, quando foi considerada de vez uma das vozes mais importantes da chamada “Nova MPB”. Agora, depois de sete anos sem lançar nenhum material inédito, Tulipa retorna com uma obra densa e que se recusa a permear os caminhos fáceis e cheios de conformidades impertinentes dos algoritmos nauseabundos. Para superar esse empecilho artístico, é preciso ter, literalmente, uma habilidade musical extraordinária, coisa que Tulipa consegue demonstrar possuir como ninguém. — Matheus José

5

Charli XCX, CRASH

CRASH é o álbum pop mais inteligente e perspicaz de 2022. Charli XCX entra numa viagem pela sua vida e carreira, ao mesmo tempo que explora sons nostálgicos e inspiradores dos anos 80, como a interpolação de “Show Me Love”, de Robin S, implementada na perfeição de “Used To Know Me”, e o sample extravagante de “Cry For You”, de September, em “Beg For You”, junto à espantosa Rina Sawayama. Conhecida mais recentemente pelas suas apostas mais experimentais como o hyperpop, foi um passo arriscado a cantora voltar a uma musicalidade que remanesce aos seus anos de “Boom Clap” e “Break The Rules”, em 2014. Contudo,ela mostra que conseguiu evoluir com a sua sonoridade e trazer algo completamente extraordinário.  — Gerson Monteiro

4

Björk, Fossora

Durante grande parte do começo de sua carreira, Björk ansiava por um futuro musical. Em álbuns como Post (1996) e Homogenic (1997), ainda que houvesse um aceno para seu passado e cultura do seu local de nascimento, o calibre lírico e sonoro da artista mirava para maneiras de criar novos sons, esses que nunca haviam sido ouvidos. Em Fossora, pela primeira vez com força total, ela olha para o passado, buscando formas de homenagear sua história, sua ancestralidade, a atemporalidade e sua própria existência. Trabalhando ao lado de seus filhos, Ísadóra e Sindri, a islandesa usa da herança como ponto principal do disco — esse nomeado com base na palavra grega que significa “cavador”, uma alusão a cavar suas próprias raízes. Em músicas como “Ancestress” e “Her Mother’s House”, costumes e amadurecimentos são repensados. Por outro lado, há uma certa comunidade: em “Sorrowful Soil”, humanos se tornam fungos em uma conexão humanitária. Como resposta, o som orquestrado segue uma pegada mais analógica encorpados pautada por tons terrosos, ainda que haja os sintéticos que refletem a paixão eterna da islandesa para com os remixes. Mas, em todos esses casos, acima de tudo, Björk procura, enquanto varre sua essência, achar esperança no final de cada verso. — Leonardo Frederico

3

Weyes Blood, And In The Darkness, Hearts Aglow

Após ter surpreendido bastante com uma obra de excelência em 2019, Weyes Blood volta com And in the Darkness, Hearts Aglow, entregando um material ainda mais fantástico que seu antecessor. O registro que, segundo a cantora, representa a segunda parte de uma trilogia iniciada por Titanic Rising, é bastante primoroso em muitos quesitos. Em sua fascinante e rica produção, Natalie e seus produtores utilizam de certos elementos ao produzi-lo de maneira singular, enquanto que, suas excelentes composições e seu vocal gracioso também são aspectos nos quais o projeto mostra seu primor. Os pontos que mais tornam And in the Darkness, Hearts Aglow um dos projetos mais excepcionais do ano, no entanto, é o quão encantador ele soa, além de sua grande carga emocional, que faz com que o álbum seja capaz de emocioná-lo de forma extrema em diversas de suas faixas. — Davi Bittencourt

2

Rosalía, MOTOMAMI

MOTOMAMI é um distúrbio na música pop, em outras palavras, uma ocasionalidade resultante do processo criativo desregrado pelo qual ROSALÍA se submeteu após o sucesso de El Mal Querer, disco que catapultou a estrela espanhola para o mundo em 2018, fazendo dela, rapidamente, um dos poucos nomes que conseguiu caminhar pelo alternativo e mainstream em tão pouco tempo de carreira. Seu último registro, repleto de ousadia e experimentações de gêneros, evoca uma energia caótica, desajeitada e, sobretudo, instantaneamente inovadora. Em MOTOMAMI, ROSALÍA não teme usar sons complexos ou, então, trazer referências musicais pouco vistas na totalidade de artistas e trabalhos desafiadores que se encontram na indústria fotográfica atualmente. O resultado desse estardalhaço musical é um dos projetos mais brilhantes e estilisticamente sofisticados de 2022. — Matheus José

1

Beyoncé, RENAISSANCE

“All of these things we do in a different, unique, specific way that is personally ours”. Essa é uma das frases que fecham “Alien Superstar”, uma das melhores canções de RENAISSANCE, e que, de certa forma, sumariza toda essência do disco. Esse foi o primeiro trabalho solo da cantora norte-americana em seis anos, e, curiosamente, o primeiro de sua carreira sem baladas e canções entristecidas sobre términos e corações partidos. Beyoncé, nesse álbum, usa da máxima do Renascimento, tanto para relacionar com a quebra do período escuro da pandemia, quanto para o ressurgimento e resgate dos gêneros da música e cultura negra. Essa é uma obra sobre libertação, amor-próprio, diversão, homenagem e energia, ainda que tenha seus problemas com intimismo. 

Empatado com BEYONCÉ, de 2013, RENAISSANCE é o registro mais divertido, amplo e completo da artista. Trabalhando com o time mais extenso de colaboradores que teve acesso até hoje — partindo de Grace Jones para Big Freedia —, Knowles retrata o disco, funk e house, enquanto cria novos ares para o R&B e o rap. Nesse movimento, ela não apenas honra as raízes musicais de seu passado cultural (“COZY” e “VIRGO’S GROOVE”) e desenterra seus primeiros passos de sua musicalidade pós-Destiny Child (“CUFF IT” e “PURE/HONEY”), mas também traz oportunidades para artistas marginalizados pelo racismo estadunidense. RENAISSANCE é expansivo e altamente calculado, desde como suas canções irão se conectar, também pela forma como serão concretizadas na história. Nesse sentido, Beyoncé fez uma homenagem da melhor forma possível, não apenas honrando o passado, mas trazendo-o de volta à vida e eternalizando-o. — Leonardo Frederico

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