SOUNDX

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Liturgy: H.A.Q.Q.

H.A.Q.Q., o quarto álbum de estúdio da banda de black metal Liturgy, apresenta as clássicas características do gênero: harmonias de guitarra, estruturas de canções épicas e bateria intensa, e as soma à incrível inventividade da vocalista e guitarrista Ravenna Hunt-Hendrix, adicionando harpas, pianos, cordas e os mais variados tipo de manipulação digital. Com composições de uma complexidade quase matemática, H.A.Q.Q. é também o registro mais vulnerável de Liturgy e Hunt-Hendrix, abordando a raiva e as lutas em torno de sua saúde mental, sexualidade e religião. — Matheus Henrique

119

Robyn: Honey

Depois de 8 anos de seu último lançamento solo, a expectativa para o sexto álbum de estúdio de Robyn era alta. A artista, que havia se tornado uma referência nas pistas de dança ao redor do mundo por conseguir trazer uma roupagem eletrônica e contagiante para letras melancólicas e profundas, inspirou artistas como Carly Rae Jepsen e Charli XCX a seguirem seus passos. O trabalho entregue em Honey, no entanto, embora traga essas mesmas características marcantes de suas canções antigas, se difere de discos como Body Talk e seu autointitulado devido a uma sofisticação sonora e lírica que traz sensualidade e amadurecimento para essa nova fase da cantora.

O primeiro single do álbum, “Missing U”, faz referência ao falecimento de seu amigo e ex-colaborador Christian Falk. Por meio de uma letra dolorida e nostálgica e uma produção que remete a seus antigos trabalhos, Robyn compartilha com os fãs o processo de superação desse luto, e mesmo que seja uma experiência particular, a universalidade do tema torna quase inevitável uma identificação do ouvinte com o conteúdo da canção. Embora esse primeiro single de trabalho possua a assinatura inconfundível da cantora, o restante do álbum mergulha em direções completamente diferentes.

Enquanto a primeira metade do álbum segue padrões líricos e melódicos mais constantes, marcados por produções contidas e desaceleradas com influências disco, é na segunda metade que Honey se destaca. Ao se jogar em diferentes gêneros musicais, como tropical house e até mesmo samba, Robyn esbanja sensualidade e elegância sem nunca perder seu inconfundível apelo pop. Os destaques do álbum ficam para as faixas “Between the Lines” e “Ever Again”, pois enquanto a primeira serve como uma solução infalível capaz de ressuscitar qualquer pista de dança apática, a segunda encerra o álbum com magnificência, trazendo de volta o que Robyn faz de melhor: cantar sobre o desgosto de um coração partido.

Ao agradar público e crítica com sua qualidade inquestionável, Honey se coloca como um dos grandes discos pop da década passada e consagra Robyn como um ícone da indústria musical. — Julio Kazmarek

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Dorian Electra: Flamboyant

Superestrela superpotente e extravagante, Dorian Electra é daquele tipo de artista que tem como objetivo chocar com visuais estonteantes a cada lançamento, mesmo com as limitações de orçamento. Flamboyant foi seu álbum de estreia, lançado em 2019 após alguns singles e até uma colaboração com Charli XCX em sua mixtape futurista Pop 2. Nele, Dorian desafiou de forma inteligente os padrões de gênero, masculinidade e feminilidade. Na abertura “Mr. To You” faz um comentário divertido sobre o contraste do estereótipo de uma pessoa queer frágil e passiva, mas que no sexo assume posição de dominação e mesmo exige ser chamado de senhor. Em “Emasculate”, Electra renega a masculinidade tóxica ao desejar ter seu órgão copulador decepado: “Cut the man right out of me”, urge. Dorian assume toda sua extravagância e gayness em “Flamboyant”, ao passo que revela como, na verdade, todas as relações entre homens, mesmo aquelas tidas como másculas e viris, são manifestações puramente homoafetivas em “Man To Man”. Enfim, Flamboyant é um disco que vale a pena se manter por perto e acompanhá-lo mais de perto ainda. Seu conteúdo lírico é tão divertido, mas igualmente assertivo e especial sobre o momento no século XXI em que se encontra, no qual a pauta de gênero e sexualidade é bastante discutida e mal-interpretada. Apenas continue o bom trabalho. — Kaique Veloso

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Julia Holter: Have You In My Wilderness

Sempre, em algum momento na vida de um artista, ele sente uma irresistível vontade de querer trazer o seu público para lugares mais internos de si mesmo, a partir da sua arte — sendo essa a dança, música, as artes plásticas ou cênicas —, e Have You In My Wilderness marca perfeitamente esse ponto na carreira de senhora Julia Holter. Quarto álbum de estúdio da produtora e cantora estadunidense, a obra musical aterma tal ponto em sua história ao abrir um atalho mais rápido e fácil até o íntimo da musicista e mostrar a nós toda a sua grandiosa artisticidade, em sua forma mais bruta e pura, e revelar, portanto, um indivíduo magnífico e de uma complexidade palatável. — Bruno do Nascimento.

116

JPEGMAFIA: All My Heroes Are Cornballs

JPEGMAFIA, apesar de estar longe de ser um dos nomes mais famosos do rap, é um dos mais fascinantes. Na sua obra, ele se propôs a apresentar um caráter experimental ao cenário do gênero, desconstruindo as bases do hip-hop, por meio da introdução de abordagens sonoras incomuns no ritmo, como, principalmente, o glitch e o industrial. Após Veteran, o registro no qual mais havia se aprofundado nesse experimentalismo até aquele momento, Peggy retornava com um disco em que, mais uma vez, o vanguardismo entregue à cena hip-hop soava surpreendente, All My Heroes Are Cornballs. Apesar de permanecer características que podiam ser observadas em Veteran, aqui, o artista não parte de um tom tão agressivo quanto seu antecessor, mas, sim, de uma atmosfera sonhadora proporcionada pelo uso ao longo do projeto de elementos de estilos como psicodélico, vaporwave e shoegaze que criam uma experiência totalmente única. Isso também mostra a grande versatilidade do cantor, que consegue trabalhar de maneira triunfal com várias influências. Liricamente, All My Heroes Are Cornballs destaca-se por falar de tópicos íntimos com maestria, como em ”Free The Frail”, em que ele aborda as suas inseguranças. Nas suas composições, entretanto, ainda é mantido a agressividade, além do atributo humorístico característico de seu trabalho artístico, como em “Thot Tactics”, por exemplo, uma faixa na qual peggy se finge de mulher para conseguir atrair um cara. O LP ganha destaque por, além de manter a fenomenal experimentação de gênero já mostrada em lançamentos anteriores do estadunidense, fazer isso a partir da utilização de sonoridades inéditas, assim, trazendo inovação à sua carreira. — Bowii Lima e Davi Bittencourt

115

The 1975: A Brief Inquiry Into Online Relationships

Como se dão as relações na sociedade pós-moderna? É em meio a baladas intimistas sobre conflitos de relacionamento e produções experimentais que The 1975 busca responder esta questão. O nome dado ao terceiro álbum da banda é autoexplicativo: “uma breve investigação sobre relacionamentos online”. Lançado em 2019, o álbum conta com 16 faixas que parecem traduzir muito bem o cenário geopolítico da época. Diferentemente dos dois discos anteriores, ABIIOR (2019) traz letras menos abstratas, dialogando de maneira clara sobre política, crise climática e a frieza das relações na sociedade líquida. “Eu só queria fazer um registro sobre a vida e sobre a experiência humana, e como a internet é tão inerente a isso, eu meio que não pude deixar de fazer um registro sobre a internet”, disse o vocalista Matty Healy em entrevista. A sonoridade também se distancia de The 1975 (2013), primeiro álbum do grupo, e I Like It When You Sleep… (2016). Pela primeira vez a banda não trabalhou conjuntamente com o produtor britânico Mike Crossey, e é possível notar uma maior afinidade a produções experimentais, maior uso de sintetizadores e autotune em relação aos demais discos.

O álbum parece se dividir entre músicas de essência romântica e conflitos existenciais, drogas e as deficiências adquiridas da pós-modernidade. A temática da juventude perdida é abordada em faixas como “Give Yourself a Try”, em que Matty Healy discute a necessidade de aceitar seu próprio amadurecimento. Outras faixas, como “Inside Your Mind” e “I Couldn’t be More in Love” retratam problemas de relacionamento e fogem um pouco da discussão política, remetendo a um lado mais íntimo da vida do vocalista. O single “Love It If We Made It” talvez seja a música que mais manifeste diretamente todas as problemáticas em que o grupo se propõe a discutir: “A guerra foi incitada / e adivinhem / Vocês estão todos convidados / E vocês são famosos / A modernidade nos falhou”. A faixa “How to draw/Petrichor” é que abre espaço à experimentação, sendo um amontoado de ruídos — no bom sentido — que traduzem muito bem a dualidade melancólica e eufórica do disco. A faixa “The Man Who Married a Robot / Love Theme” traz a história de um homem que se apaixona pela internet que, narrada pela SIRI, discute a perda da individualidade de um homem causada pela sua relação com as redes sociais. Mas, diferentemente do que pode parecer, as composições não condenam a internet ou o advento das redes sociais. Muito mais que isso, A Brief Inquiry into Online Relationships se propõe a refletir sobre, e nada mais se faz do que um excelente ensaio sobre a internet, pós-modernidade e sua relação com os seres humanos. — Victoria Ribeiro

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The War On Drugs: Lost In The Dream

Prosseguindo com uma instrumentação quase que única, sem medo de se alongar por texturas criadas pelos acordes de guitarra e toques de bateria, Lost In The Dream é um registro sonhador. A união entre esses dois instrumentos, elementos que se destacam no disco, sem dispensar recursos eletrônicos, como sintetizadores, tornam tudo muito ambiente. Esses fatores fazem a sonoridade da banda The War On Drugs cintilar sua angústia lírica ao externar os conflitos. A primeira faixa do álbum, “Under The Preasure”, se comporta como um prato cheio que prenuncia a desenvoltura ao longo do material, tanto lírica, como sonoramente. Claro que, outras canções são mais contidas, “Suffering” expressa bem essa ideia transbordando emoções por meio de uma balada singela. Além disso, o grupo às vezes parece não se preocupar com a composição, fazendo com que seus instrumentos se encarreguem da tarefa expressiva, como “Disappearing”, ou a inteiramente instrumental “The Haunting Idle”. No mais, o quarto álbum de The War On Drugs se permite alongar por suas camadas, manejando muito bem a versatilidade do indie rock a seu favor para comunicar os sentimentos mais profundos. — Gustavo Rubik

113

Lingua Ignota: CALIGULA

Quanto a música pode ser expressiva? Para Kristin Hayter essa pergunta não encontra resposta simplista. A interpretação soturna de uma artista em recente atividade chega com os trabalhos lançados de forma independente como Lingua Ignota, Let the Evil of his Own Lips Cover Him, de 2017, e All Bitches Die (2018), posteriormente sob a gravadora Profound Lore. CALIGULA intensifica sua complexidade sonora. Entre os adjetivos que se aproximam para expressar tal registro, sufocante, é um dos melhores. A própria artista quer passar esse sentimento com “DO YOU DOUBT ME TRAITOR”, uma canção impactante pela sua construção agressiva e pela composição sobre abuso sexual, mas iniciada serena com notas dramáticas de piano. Como uma peça do industrial e darkwave neoclássico, adornado também por camadas da música metal, o disco é verdadeiramente intenso e repleto de rupturas violentas. No entanto, a artista dosa tanta intensidade com músicas como “FRAGRANT IS MY MANY FLOWER’D CROW”, seguida quase que inteiramente pelo piano e vocais mais limpos, terminados em um coro. Mesmo que os usos dos instrumentos, como violino, violoncelo, percussão, e sons metálicos furiosos sejam completos, o registro vocal de Lingua Ignota é a peça chave. Isso porque ela sabe se movimentar muito bem, gerando momentos de angústia, raiva e desprezo, nos quais seus gritos funcionam como um processo catártico. “I AM THE BEAST” encerra um dos álbuns mais complexamente densos da década passada clamando por amor quando seu único tratamento parece ter sido, infelizmente, a violência. — Gustavo Rubik

112

100 gecs: 1000 gecs

1000 gecs é a prova de que charme, carisma e não se levar muito a sério são fatores-chave para criar um álbum de qualidade e que conquiste o público. Um dos precursores do hyperpop, a dupla, formada por Laura Les e Dylan Brady, não intencionalmente, criaram uma enorme demanda para esse tipo de som, consequentemente, influenciando e ditando como o gênero soaria durante os próximos anos. Este LP, o primeiro da banda, carrega consigo uma atmosfera comicamente despretensiosa, fazendo com que, mesmo se houver momentos em que os gecs não acertam muito, está tudo bem, não é para ser tão profundo assim. Afinal, uma canção que mistura rock com ska e fala sobre perder dinheiro por conta de uma corrida, na qual seu “estúpido cavalo” perdeu; ou outra com elementos de metal, mencionando fumar maconha até cair, não deveria ser levada tão a sério. Mas, não se engane, no meio de toda essa despretensão, existe um projeto ridiculamente divertido e simples de aproveitar. E, muitas vezes, isso é tudo que precisamos. — Matheus Henrique

111

Lady Gaga: Born This Way

Após o sucesso estrondoso que Lady Gaga  fez com o The Fame e The Fame Monster, todos esperavam que seu próximo álbum superaria todas as expectativas do público e das críticas. O título do álbum foi anunciado depois de uma vitória na premiação do VMA, de 2010, no qual Gaga também cantou um trecho da música-título do álbum “Born This Way”. As expectativas só aumentaram depois disso. Essa faixa foi lançada como lead single dois meses antes do álbum sair, contendo uma letra que trata sobre a liberdade de ser quem você quiser porque você nasceu assim.

Com sonoridade totalmente diferente dos seus álbuns anteriores, Lady Gaga lançou seu terceiro disco em 2011, surpreendendo a todes com a versatilidade que a cantora traz nas suas músicas. Todo o contexto de Born This Way remonta à ideia de se libertar e amar a si próprio: “I just wanna be myself and I want you to love me for who I am”, ela canta em “Hair”. Não à toa, o álbum possui grande apelo entre as pessoas da comunidade LGBTQIAPN+: com todas as formas de se falar sobre sexualidade, é nítido que Gaga escreveu este registro para seus fãs com todo carinho que ela tem por eles.

O álbum é descrito muitas vezes como electropop, mas caminhamos em diversos gêneros durante as faixas. É extremamente prazeroso ver ela se aventurando nisso: solos de guitarras eletrônicas, sintetizadores em excesso, letras em alemão, piano, saxofone, tudo isso contribui para que o álbum seja não só versátil liricamente e instrumentalmente, mas também uma experiência pop divertida e cativante, sem se esquecer de compreender a importante mensagem que Lady Gaga continuamente tenta passar desde aquela época. — L. Henrique

110

Beyoncé: 4

O quarto álbum de estúdio da cantora Beyoncé mostra uma evolução dela como artista. Nesse disco, Beyoncé tomou conta da produção e fez tudo o que queria, coisa que em seus trabalhos anteriores não ocorreu com muita frequência, e recentemente a própria artista revelou que 4 era seu álbum favorito de sua discografia. Vários temas são tratados aqui, como empoderamento feminino, amor e reflexão sobre a vida da cantora, com uma grande produção mesclada entre o R&B e o soul que valoriza todo o talento da artista, principalmente vocal. Em músicas como “Love On Top” e “Best Thing I Never Had”, vemos Beyoncé entregar umas das melhores performances vocais de sua carreira. 4 é um disco importante na discografia da artista, além da evolução artística de Beyoncé, mostrou um lado mais intimista e maduro da cantora. — Lucas Lima

109

Duda Beat: Sinto Muito

Primeiro álbum da cantora e compositora brasileira Duda Beat, o qual a reivindicou o título de “A Rainha da Sofrência Pop”, Sinto Muito é uma das obras populares mais queridas já criada dos últimos tempos. Nesse disco, a musicista nordestina traz consigo toda a sua história e cultura a partir da junção de gêneros musicais típicos de seu lugar de origem, como o brega, com sonoridades internacionais, como o R&B, o trap e o reggae, gerando, assim, um disco excepcional e de originalidade exuberante. O maior sucesso da obra, o single “Bixinho”, é lembrado até hoje pelo seu refrão reconfortante, entoado lindamente por Duda, e sua magnífica instrumentação. — Bruno do Nascimento

108

Liniker e os Caramelows: Goela Abaixo

Goela Abaixo é uma acalentadora experiência em forma de álbum. O registro representa o que há de melhor na discografia de Liniker e os Caramelows, banda cuja vocalista se desligou oficialmente em 2020. Influenciado por ritmos latinos e música experimental, o sucessor de Remonta é uma miscelânea de sentimentos e expressões humanas embalada em uma roupagem que mescla MPB e soul. O material de 13 faixas nada mais é do que uma grande carta de amor, com letras intimistas que discorrem sobre a saudade, a distância e a intimidade. É singelo, confessional e apaixonante. — Lucas Souza

107

Mahmundi: Para Dias Ruins

O segundo trabalho de Marcela Vale, Mahmundi como nome artístico, tem peso literal. A construção do disco realmente se encaixa naqueles dias em que tudo parece errado. Solícito e disposto a aspirar as coisas boas da vida, Para Dias Ruins, lançado em 2018, segue sua tarefa com bastante firmeza, sem enrolação ou alongamentos. Além de ser um álbum apaixonado e apaixonante, sua originalidade tem destaque por explorar uma combinação dificilmente encontrada no cenário brasileiro. Marcela explora, nesse curto registro, uma amplitude de gêneros que flertam com R&B, synthpop e MPB, gerando produções bem-sucedidas que se estendem de seu disco de estreia, o Mahmundi, de 2017. A voz aconchegante, capaz de acalentar o coração mais dolorido, encontra em “Alegria” a ansiedade de quebrar uma rotina e viver a história de amor que sempre quis. Plano de fundo complementar à “Outono” e aquela vontade de nunca se separar da pessoa desejada. Com facilidade, Para Dias Ruins vai narrando um cruzamento imbatível com a paixão, suas canções se complementam e se entrelaçam nesse sentimento arrebatador. Mesmo que momentos mais dançantes tomem conta do material, como “Qual É A Sua?”, tudo é seguido em tom similar. Sem soar maçante, a linearidade faz bem para o clima do álbum. Com tanto talento em conduzir seu trabalho, Marcela tem se destacado por sua originalidade e vocação, expressas também ao realizar suas próprias produções que condizem à altura de suas emoções.  — Gustavo Rubik

106

IU: Modern Times

IU em 2013, com Modern Times, apresentava uma proposta bem diferente do que poderia se notar na música pop coreana, voltando no tempo em quase um século para sintetizar o cenário musical dos anos 20 e 30.  Pode-se considerar este o maior acerto de sua carreira, pois, além de ter colocado a solista definitivamente no patamar de um dos maiores nomes da indústria fonográfica sul-coreana, também é uma tentativa extremamente fantástica em explorar musicalmente o período histórico. Nos momentos em que o jazz aparece de maneira mais pura, o trabalho artístico, por meio de sua produção, consegue com excelência entregar a essência das canções do ritmo da época. O mais surpreendente na abordagem de seu som inspirado nos anos 20, entretanto, é quando a artista busca mesclar o estilo com outras influências, demonstrando a sua habilidade de ir além do comum na exploração das tendências musicais daquele tempo. Há, junto com a sonoridade predominante do projeto, referências à música cigana e brasileira — bebendo muito da fonte do samba e da bossa nova — e ainda, finalizando com maestria, dois minutos de uma formidável combinação de jazz com drum and bass. — Davi Bittencourt

105

Wonder Girls: REBOOT

No último álbum de sua carreira, as Wonder Girls trouxeram uma nova perspectiva para as canções com a temática retrô, fazendo uso de sintetizadores frenéticos e envolventes em várias músicas para concretizar essa experiência. A participação de Yeeun, Sunmi, Hyerin e Yubin é a verdadeira chave de ouro. O quarteto consegue explorar suas habilidades em diversos gêneros, mesclando synthpop, chillwave, dance-pop e pop rock em apenas um disco, de maneira que o projeto ainda se mantém extremamente coeso. A mudança da estrutura do grupo — onde exploraram a utilização de instrumentos para as integrantes — foi essencial para que esse projeto fizesse sentido e fosse completo. Reboot marca o reinício, não só na carreira do quarteto, mas também em toda a indústria musical sul-coreana. — João Vitor Lima

104

Xenia França: Xenia

Antes mesmo de 2017, Xênia França já galgava passos importantes dentro e fora da música. Nascida em Candeias, cidade do Recôncavo Baiano, se mudou para São Paulo em 2004 para construir uma carreira como modelo, mas logo saiu das passarelas e partiu para as estradas e palcos como vocalista da banda Aláfia. Uma trajetória que, de certa forma, preparou o terreno para a sua jornada como solista. Xenia matura tudo o que a artista aprendeu, mantendo a ancestralidade, a exaltação à cultura negra e o tom de protesto como os norteadores irrevogáveis da obra. Porém, ela demonstra tomar as rédeas do processo ao ampliar seu ecossistema sonoro, entrelaçando MPB, neo-soul, jazz e R&B. Xênia possui uma voz irresistível e exala carisma, mas esse álbum é denso: precisa ser ouvido com atenção e afinco, pois ele é composto por abstração, vivência religiosa e letras que, muitas vezes, não são as mais confortáveis. Apesar das metáforas, também há espaço para protesto claro, em alto e bom som: “Respeitem meus cabelos, brancos” é tão literal quanto deveria ser, enquanto “Breu” chega a dar calafrios na espinha, finalizando o projeto com sua atmosfera nebulosa, traçando a forma espinhosa como a mulher preta é desumanizada. Dessa maneira, não demorou muito para a cantora receber os louros, ganhando projeção nacional e internacional, respeito pela comunidade artística e indicação ao Grammy Latino de 2018. Uma estreia brilhante e impactante, que deve ser celebrada por qualquer pessoa que ame música brasileira. — Felipe Ferreira

103

Luiza Lian: Azul Moderno

Azul Moderno é uma solução fenomenal dos componentes mais instigantes dos gêneros musicais, partidários da sonoridade básica da indústria fonográfica brasileira, da década de 2010. Transpassando suas canções, é perceptível a utilização de elementos provindos desde a pós-MPB até o R&B contemporâneo e o trip-hop, o que firma, portanto, por sua grande diversidade e variabilidade, o projeto como uma experiência maravilhosa e cativante. Canções como “Mil Mulheres”, “Mira”, “Iarinhas” e até mesmo a faixa-título são as que mais conseguem representar a obra completamente. — Bruno do Nascimento

102

Bjork: Utopia

Utopia, o nono álbum de estúdio da cantora e compositora islandesa Björk, é uma jornada verdadeiramente mágica e etérea. Nesse disco, a artista nos transporta para um mundo onde sua imaginação parece infinita. As composições são ricas em complexidade e texturas, combinando habilmente instrumentos de sopro e elementos eletrônicos, criando uma paisagem sonora inquietante. A voz de Björk guia perfeitamente essa jornada, flutuando com graça e emoção sobre os arranjos. O álbum nos fascina em uma cascata de sons exuberantes, exóticos e cativantes, desafiando as convenções musicais e revelando a evolução contínua do talento inigualável de Björk como artista. Utopia é uma experiência auditiva transformadora. — Brinatti

101

Bon Iver: Bon Iver, Bon Iver

Para seu segundo disco, o Bon Iver resolveu trabalhar com um pouco mais de cores e texturas. Enquanto For Emma, Forever Ago, de 2007, a banda liderada por Justin Vernon optou totalmente por canções folk de produção esparsa e composições naturalistas, Bon Iver, de 2011, é menos focado em tentar recontar a realidade a partir do que realmente aconteceu, mas sim perante o que as memórias permitem continuar existindo em nossas cabeças. O resultado é um registro mais fantasioso, uma viagem profunda para dentro do imaginário de Vernon. Essas canções são mais coradas e etéreas, mas nem por isso perdem todo caráter sentimentalmente intimista, dando continuidade à sensação de uma obra fria e assombrosa, repleta de solidão mesmo em seus instantes mais humanos. Intituladas a partir de nomes de locais reais, essasmúsicas ambíguas servem a um propósito público, ainda que sejam duramente privativas: “Holocene” é uma metáfora de um bar usada para contar memórias, enquanto “Wash.” é uma carta de amor para cidade natal do vocalista. No entanto, ambos exemplos podem representar um sentimento que não se mantém puramente nas experiências pessoais do cantor. Bon Iver é construído a partir de memórias, mas são as suas memórias que realmente trazem significado para ele. — Leonardo Frederico

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